8.05.2009

Sebastião

A viagem do Funchal para São Jorge leva aproximadamente uma hora e um quarto. É um caminho agradável, mesmo durante a noite. A impressão que se tem é a de que estamos sempre percorrendo a borda da ilha. Há subidas e descidas sinuosas, e mesmo sendo o Angelus um motorista bastante experiente, devo confessar que procurei não olhar a estrada, temendo os precipícios. Na verdade, eu estava absolutamente concentrado no que ele dizia. Falava quase sem interrupção. Às vezes parava apenas como que para buscar a palavra certa. Tudo o que ele dizia tinha mesmo a ver com o que eu já desconfiava, e estava relacionado aos acontecimentos daquele final de tarde.

Chegamos à vila por volta da meia-noite, e o tio do Angelus estava nos esperando à porta. Além dele, somente havia mais duas outras pessoas nas ruas. A freguesia de São Jorge conta com apenas 2.170 habitantes, numa área de 18,3 km2. Está situada no extremo norte da Madeira, junto da Ponta de S. Jorge. A sua criação oficial remonta ao ano de 1517. O núcleo primitivo da freguesia era no sítio do Calhau, sobre o qual se falará dentro em breve. Ali, junto à foz da Ribeira, instituiu-se uma capela no final do séc. XV, quase destruída por um aluvião em 1660. Mas o nome da freguesia só foi estabelecido por volta do segundo quartel do século XVIII , quando da construção de uma capela consagrada a São Jorge.

Conta a lenda que Landon, o temível dragão de cem cabeças, habitava aquela região, causando pânico em toda a gente. O pânico explicava-se pelo fato de estar a fera sempre e progressivamente mais faminta. Não havia o que lhe bastasse: comia o rebanho, a piara, a pandilha inteira da região. Na falta disso, começou a comer o pomar, hortaliças, a flora, alfobre... Então passou a comer a terra (quem olha para a região a partir da praia do Calhau, não tem muita dúvida de que um dragão faminto passou por ali). Com medo de ver a ilha por inteiro desaparecer, os poucos habitantes daquela sítio reuniram-se em conselho e decidiram que uma vez por mês uma virgem seria sacrificada. Sabiam que essa era a única maneira de amainar a fome de Landon. Uma virgem era comida suficiente para um dragão sentir-se saciado por aproximadamente um mês. E assim foi até acabaram-se todas as virgens. Ora, aqui havia um grande dilema: ou tentavam enganar o dragão, ofertando-lhe uma mulher qualquer local, ou viam-se forçados a assistir o desaparecer da ilha aos bocados. Não era um dilema assim muito simples de ser resolvido, como aparenta. Por uma lado, é sabido que os dragões que possuem um número de cabeça superior a trinta e sete não comem seres humanos. Aqueles que têm noventa e nove cabeças ou mais, o fazem, mas com a seguinte condição: precisam ser mulheres e virgens. Por outro lado, sabe-se também que um dragão feroz pode usar todas as bocas que possuem simultaneamente (em geral, só comem com uma específica). Até ali, não havia registro de que um dragão fosse capaz de saber de fato se uma mulher era virgem ou não, portanto era um risco. Se enfurecessem o dragão com tal engodo, podiam ver a ilha desaparecer sob os seus olhos em pouquíssimo tempo. Foi então que Jorge, um moço muito moço, lindo, de cabelos longos e vermelhos como o fogo, que geralmente assistia aquelas reuniões muito calado, fez a seguinte proposta: ele seria ofertado. Muita gente riu. Alguns sequer o levaram em consideração. Mas Jorge insistiu: ele seria ofertado. Ocorre que na falta de outra opção (nenhuma mulher da vila estava seriamente interessada em servir de petisco ao dragão), resolveram aceitar a proposta do rapaz. Já agora tanto fazia se o risco fosse uma mentira ou outra. Jorge, que, embora aparentasse, não era mulher, era virgem. Então que o dragão fosse ludibriado pelo sexo.

Naquela noite, Jorge postou-se sobre a rocha do sacrifício ao pé do Calhau, trajando um longo vestido branco, como era o costume no ritual de oblação. Fechou os olhos, e esperou, pacientemente. Não tinha medo, porque sabia exatamente o que estava fazendo. Ao ouvir o urro de Landon, sabia que a hora havia chegado. Procurou ficar imóvel. De súbito, o silêncio. Quando sentiu o bafo morno da respiração do dragão a cheirar-lhe os cabelos dispostos sob a rocha, abriu os olhos, e, dirigindo-se à lua cheia, chamou Kalki, o cavalo branco. Numa fração de tempo, Jorge, que para alguns era, na verdade, a última encarnação de Vishnu, estava montado em seu cavalo, com uma enorme espada de fogo na mão. O resto da história é conhecido. Contam que o sangue derramado de Landon deu origem ao famoso dragoeiro (Dracaena draco), típico da ilha da Madeira. Data dessa época a construção da igreja naquela parte da ilha, e a mudança de nome da região, que antes chamava-se Lagina.

São Tiago é muitas vezes tomado por ser, de fato, a última encarnação de Vishnu, mas essa é outra história. Para agora, vale a pena dizer que a sopa de legumes com uma espiga de milho metida ao meio estava mesmo muito boa. A Tia Valentina iria revelar-se uma cozinheira digna de loas e louvores durante os dois dias que passamos na ilha. Depois, Genaro nos convidou para um café no único bar da região que ainda estava aberto. «Vai descer agora, oh Sebastião?», gritou em direção à escada. Enquanto desfazíamos a mesa, e Genaro procurava uma camisa mais adequada para a noite fresca, pude ouvir os passos mansos de Sebastião descendo a escada. Eram passos de quem vinha mais por obrigação, mas com uma pontinha de curiosidade: uns passos de gato de barriga cheia.

Sebastião sorriu muito desajeitadamente, coçou as costas, e, ainda sorrindo, estendeu a mão: «Sebastião», disse, numa voz de contra-tenor. Eu retribui o sorriso e apertei a mão longa, branca, delicada e quase bastante frágil dele. «Vamos?», perguntou desinteressadamente. Saímos em silêncio. Angelus ia ao meu lado. Tio Genaro parecia querer perguntar qualquer coisa a Angelus, mas não encontrava a forma mais adequada de fazê-lo. Sebastião ia à frente, chutando pedras.

O bar estava vazio. Nós os três pedimos uma imperial cada. Sebastião queria um refrigerante de tomates. Tio Genaro, uma curiosa mistura de chinês com italiano, nascido em Macau e vivido nos Açores até encontrar Valentina e conhecer a Madeira, fazia perguntas simpáticas sobre o Brasil. Ria bastante, ensaiava umas piadas e perguntava de tempo a tempo o que eu estava achando da ilha. Sebastião, obviamente alheio a tudo, levantou e escolheu uma música no Jukebox. Era curiosamente o Tim Maia cantando, todo feliz, Não Quero Dinheiro. Enquanto ele dançava segurando o Jukebox, levantando os braços, numa maneira inusitadamente sensual, Tio Genaro continuava com as perguntas. Angelus tomava a imperial, provavelmente arrependido do que tinha me dito naquela noite. Eu escutava Tio Genaro, Tim Maia, mas olhava ora para Angelus, ora para Sebastião, ora para Angelus. Quando a música acabou, Sebastião voltou à mesa e pediu mais um refrigerante de tomate. Aproveitamos a oportunidade para uma outra rodada de imperial.

8.04.2009

Descendo

A Madeira, bem como outras ilhas que jamais chegaram a ser descobertas (a Antília, por exemplo, ou a Ilha das Sete Cidades, ou as Satanazes, ou ainda as Cassitérides), já estava representada em mapas do século XIV, a exemplo o de Dulcert. É curioso ainda observar que já em 1370, ou seja, quase cinquenta anos antes de Zarco e Tristão terem desembarcado por acidente em Porto Santo, a ilha da Madeira aparece no Atlas Medici com o nome de "Legname" (que, em italiano, quer dizer "madeira"). Pouco depois, em 1375, o Arquipélago completo é representado no Planisfério de Cresques. Ou seja, muito antes de já sonharem ter descoberto o Brasil, os portugueses aparentemente jamais teriam descoberto a Madeira.

O dia estava absolutamente convidativo. Ao contrário do céu de Lisboa, há quase sempre nuvens por sobre o Funchal. Isso, todavia, não amedronta ou causa suspeitas: vai ser um dia ensolarado. Saímos de casa por volta das dez e meia, descendo sempre. As ruas são bastante íngremes, e em pouco tempo descer pode ser uma das atividades mais cansativas de que se tem notícia. Angelus ia à frente, sempre bastante calado. Levava uma bolsa com a máquina fotográfica e dois ou três livros suspeitíssimos. E há também o protetor solar, sem o qual não estava autorizado a sair no verão. Muito a propósito, precisava parar ali naquele miradouro para poder reforçar a dose. O sol estava mesmo muito quente.

Há quem prefira ser frontal, mesmo que isso implique desastres inevitáveis. Não tem aquela música do Gonzaga Jr., uma que diz ser a verdade boa como um sol desvirginando a madrugada? Há quem prefira escolher um miradouro e dizer, enfim, a verdade. Enquanto Angelus estava esquecido na monotonia de proteger-se contra o sol, eu lia os rabiscos tão bonitos que a Sofia, da Sétima-B, havia escrito para o seu professor Almiro. Almiro, o professor de matemática, muito comovido com o fato de ter uma aluna apaixonada assim por ele, mas responsável o suficiente para levar o filho asmático ao hospital pelo menos duas ou três vezes por mês, jamais teria lido os rabiscos. E a Sofia acabou casando com o J. Pinto Fernandes, que agora está na história.

A nossa primeira visita eminentemente turística seria ao Forte de São Tiago. Antes, porém, quero tirar uma foto daquele homem ali olhando o mar, perto do Complexo da Barreirinha. É preciso, nesse relato, em algum ponto dele, discutir o uso apropriado da imagem, mas para isso, precisava também discutir o uso das palavras, e, sobretudo, o ato de tornar públicas experiências que podem ser consideradas exclusivamente privadas. Mas levando-se em conta que a ética tem sido reinventada, e que nao tenho o mínimo entusiasmo para me deter em questões secundárias que tais, fui em frente e tirei a foto. Talvez tenha sido a última foto daquele homem. Não tenho dúvidas: ele se suicidaria naquele mesmo dia.

O Forte de São Tiago é uma construção militar do início do Século XVII que hoje abriga o Museu de Arte Contemporânea da cidade. O que quer que isso venha a significar, a visita é muita mais válida pela construção em si do que necessariamente pelas obras ali expostas. Na verdade, há sim alguma coisa de interesse, mas está tudo tão desajeitadamente disposto que torna-se uma tarefa quase desencorajante procurar apreciar o que seja. Angelus consegue fazer com que um grupo de vassouras dispostas em um ângulo côncavo, sob determinada perspectiva, ganhe uma dimensão absolutamente genial. Eu pensei que talvez tivesse gostado mais quando da ocasião em que o forte abrigou uma exposição de ferramentas usadas em torturas.

Daí, seguimos deambulando, parando em algumas lojas, entrando num e noutro ponto, enfim, essas coisas. A visita à Feira Popular foi interessante. O peixe-espada preto, para quem nunca viu, pode parecer assustador. As frutas, entre elas a fruta-deliciosa e a anona, soam quase tentadoras. Mas nos apetecia mesmo beber algo. E paramos na Praça do Anfiteatro para tomar um refrigerante. Foi aí que conheci o Brisa Maracujá, que merece um capítulo nesse relato. Sobre o Brisa Maracujá, não há muito que ser dito, há mais que ser tomado. É para mim o melhor refrigerante do mundo, desse. O fato de ser unicamente comercializado na Madeira torna a ilha ainda mais especial para mim. Um dia quero morar na Madeira, e talvez verifique com maior segurança o que eu desde o início suspeitei: São Brandão estava absolutamente correto em descrever aquela região como o possível paraíso terrestre.

O passeio teve de ser concluído subitamente logo após à visita ao curioso Museu da Fotografia, com um telefonema urgente de Pedro. Precisávamos voltar para casa naquele exato instante.

Há evidências bastante significativas de que Atlântida estava localizada exatamente entre os arquipélagos da Madeira e dos Açores.

8.03.2009

A Linguagem Esquecida

Se não disse nada sobre o Funchal é porque aquela minha primeira introdução à cidade não foi de fato uma introdução à cidade. Quero dizer, o propósito daquela primeira noite não foi muito bem o de conhecer a cidade. Teria sido, mas acabou por ser algo secundário. No entanto, hoje não é com o Funchal que vou iniciar o relato. O relato começa pouco depois de termos voltado para casa. Devo talvez explicar que para entender melhor a ilha, os eventos que escolho narrar são de extrema importância.

Eu sabia que passaria o resto do tempo acordado, embora tivesse escolhido deitar-me naquela cama um tanto quanto pequena para mim (imagino que também o fosse para André). Os lençóis cheiravam a manhã de primavera. Eu procurava não me concentrar nos livros e nos vários objetos espalhados de forma bastante ordenada ali. Sobretudo, procurava ignorar aquilo que inevitavelmente seria revelado antes mesmo do sétimo dia. Ainda assim, tinha uma idéia muito clara de como teria sido a vida de André aqui.

O que de fato me perturbava era a incerteza: devia procurar saber o que era aquele barulho todo no quarto ao lado? Os passos, as luzes no corredor? Angelus obviamente estava passando mal. Desisti de teimar que a privacidade era mais importante do que a solicitude e levantei-me. Não precisei encostar o ouvido na porta do banheiro nem nada: ele vomitava como quem estivesse dizendo obscenidades. Fui à cozinha, busquei um copo num dos armários e o enchi de água. Quando voltei, ele já estava de pé no corredor. Perguntei se estava tudo bem e entreguei-lhe o copo. Ele agradeceu. Como estivesse já na porta do quarto, pude entrever uma estante, no escuro, bastante diferente daquela do quarto onde eu estava.

Voltei a me deitar com a estranha sensação de que talvez conhecesse o André melhor do que conhecia o Angelus.

Não demorou muito para que o sol entrasse pela pequena fresta da janela e incidisse sobre o violão ainda encostado na parede, depois de quase dez anos, como se alguém na casa fosse tocá-lo. O curioso é que tudo parecia ter sido deixado no lugar propositadamente, e, embora o zelo fosse evidente, nada soava artificial, como era o caso do pano em tricô jogado delicadamente por cima daquele aparelho de som antigo.

Tentei fazer qualquer coisa para esperar, enfim, que chegasse a hora de sair do quarto. Não me sentia muito à vontade para sair e, por exemplo, sentar na cozinha, ou no sofá da sala. Portanto resolvi desfazer a mala. Ou melhor, decidi organizar o que levaria para São Jorge logo mais à tarde.

Enquanto esperava, podia ler Dylan Thomas ou Ian Hamilton, mas achava mesmo que se tirasse um daqueles livros da estante, algo de muito importante seria desfeito. Ademais, já fazia tanto tempo que eu tinha lido Thomas e Hamilton, que não sabia ao certo se valia a pena retomá-los agora. A não ser, obviamente, se fosse para tentar decifrar, entre outras coisas, a linguagem esquecida, ali. O pudor há de ser desfeito, como já mencionei, mas por uma razão absolutamente mundana. Logo se revelará.

Há algo que precisa ser dito antes de descer as escadas e ir ter com o Angelus: durante os nove dias, somente saí do quarto quando tinha a certeza de que ele já estava de pé. Isso era muito fácil. A primeira coisa que fazia ao acordar era escutar um disco que para mim representa a Madeira, por essa razão: uma coletânea de músicas somente recentemente resgatadas do italiano Jean-Baptiste Lully. A Marcha Para A Cerimônia dos Turcos era o sinal de que eu podia abrir a porta.

Naquele dia tomamos café na varanda ampla que oferece uma belíssima visão do Funchal. A cidade parece um anfiteatro: começa na praia, elevando-se depois até 1200 metros pela encosta. Esta formação providencia um excelente abrigo natural, o que evidentemente atraiu os primeiros colonos. Segundo o Censo de 1991, o Concelho do Funchal compreendia, na época, 115 403 habitantes (53 816 Homens e 61 587 Mulheres). Hoje deve contar por volta dos 120.000 habitantes, estando a maior parte residente nas Freguesias de Santa Maria Maior e de Santo António, onde estamos agora.

Comemos em silêncio, embora eu percebesse que ele não estava fazendo nenhum esforço para evitar falar o que quer que fosse. Provavelmente teria mencionado a noite de ontem com muitíssimo conforto, mas preferia estar comendo. Eu, embora seja mais a favor do diálogo trivial acedi sem muitos problemas à sua postura. Afinal, não me restava outra opção.

8.02.2009

Felippa

A Madeira é uma Zona Independente de Portugal, assim considerada depois da Revolução de 04 de Julho de 1969, aquela que pôs abaixo a ditadura Salazarista. Governada pelo polêmico João Alberto Flores já há mais de trinta anos, tem assistido a um desenvolvimento espantoso em vários níveis nas últimas duas décadas. Há quem prefira relacionar o fato à administração peculiar de Flores. O Arquipélago da Madeira, que é composto por duas ilhas habitadas (Madeira e Porto Santo) e dois grupos de ilhas desabitadas (Áridas e Devolutas), está separado de Lisboa, a Sudoeste, por cerca de 2.000 kilômetros. Juntas, as ilhas do arquipélago cobrem uma extensão mais de 4.000 kilômetros quadrados do Oceano.

Não sei muito bem quão importante é essa informação, mas alguém a reclamou, de sorte que aí está. O relato objetiva também ser informativo: foi idealizado como um diário de viagens, e quer abordar os nove dias naquela região que mudou para sempre o rumo (ou a ordem) das coisas. Se deseja saber a razão, basta acompanhar-me. Hoje, por exemplo, vamos ao Funchal. Como tinha prometido no ponto em que parei, iríamos comer qualquer coisa fora. Mas nada muito pesado, nada muito curioso, apelativo, nada que exigisse atenção apurada: a viagem tinha sido por si só uma experiência bastante singular para permitir apreciar qualquer outra peculiaridade da região. Eu comi uma salada e tomei vinho tinto. A noite estava bastante agradável. O Angelus aparentemente gosta de pizza.

Depois saímos para uma cerveja, um chopp, uma imperial. A propósito, a cerveja da Madeira é muitíssimo melhor que as encontradas em Lisboa. Chama-se Coral, e é fabricada pela mesma empresa que faz os saborosos refrigerantes Brisa. Mas o refrigerante Brisa Maracujá merece um capítulo à parte. Para uma quinta-feira, a cidade estava bastante cheia. O primeiro bar em que paramos foi o Jota. Estava vazio. A música que costumava ser boa, segundo o Angelus, estava fraca. O barman estava sonolento. A imperial não veio muito gelada. Uma pena, pois o ambiente, com sofás coloridos e iluminação adequada, parecia bastante convidativo. Partimos para o Monge, que fica mesmo junto ao cais. Ali, ao contrário do Jota, havia muita gente, sobretudo jovens. A música era alta, uma música batida. Podia-se ver, do lado de fora, um segundo andar abarrotado de braços descoordenados. Talvez fosse uma dança.

«Aqui costuma aparecer muita gente curiosa.» Angelus parecia estar procurando alguém. Eu já sabia quem era, mas, ainda assim, fingi que não prestava atenção, e continuei observando os braços. «A imperial está quente», disse-me, entregando uma garrafa pequena de Coral. Agradeci, sorrindo. «Dentro em breve...» Acenou de volta. «Aquela é a Felippa, que canta no bar.» Por um momento, hesitei. Parece que eu já imaginava tudo. Quis fingir não ter ouvido. Ainda ensaiei olhar a baía, ali das escadarias que levava ao Monge. Mas não se foge do inevitável: a Felippa olhou-me com a cara mais simétrica que já vi em toda a minha vida, e sorriu.

Aproximamo-nos, mas ela falava frases curtas. Angelus continuava procurando, e a Felippa nunca chegou a olhar para mim novamente naquela noite. Não que tivesse evitando fazê-lo. Acho que o Angelus estava bebendo demais, o que de certa forma me incomodava. Afinal, voltaríamos para casa de carro, e ele era o único que sabia o caminho. Se tivesse falado, teria dito «ela não vai aparecer». É claro, ela não ia aparecer, sabendo onde provavelmente estaria por volta das duas da madrugada, ela não ia aparecer. «Amanhã à tarde vamos a São Jorge,» foi o que disse. «Vamos passar o fim-de-semana na casa de meus tios». Eu achei ótima a idéia.

Provavelmente por conta da cerveja, Angelus passou a falar mais. Eu escutava, sempre indicando que o fazia, com medo talvez de ele pensar que eu não estava na linha. Como se faz ao telefone: sei, sei. Não lembro exatamente o conteúdo da conversa, mas eram trivialidades sobre o Funchal. Por exemplo, que o nome da cidade explicava-se por conta de um tal Marquês de Funchal que governara na região de tal a tanto, e que era famoso pelo número de amantes que tinha, etc. etc. «Depois as amantes eram ervas daninhas, e o arruinaram para sempre». Sei, sei. Disse-lhe que agradecia muito, mas achava que não ia querer uma outra cerveja. E julgava que talvez fosse melhor voltarmos.

Ele foi ao meu lado, quase cambaleando, com a última garrafa de cerveja na mão. Tive vontade de abraçá-lo, mais por pensar que ele precisava de apoio físico. Mas não o fiz, as mãos no bolso. Antes de entrar no carro, desfez-se da garrafa como quem descarta o que afinal não aconteceu, pronto. Nenhuma palavra. O carro sobe as ruas numa velocidade vertiginosa. Fecho os olhos e a única coisa que escuto é a voz da Felippa: a lonely lonely person...

8.01.2009

Madeira

Não foi no Porto Santo que desembarcamos logo de pronto, como fizeram João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, embora eu pensei que seríamos jogados ambos ali mesmo, nas areias aparentemente vazias da Ilha Dourada. A aterrisagem no aeroporto da Madeira é como se estivéssemos pela primeira vez nos aproximando da Ponta de São Lourenço, sem a certeza de que o mundo não é plano. Era o dia Primeiro de Agosto, mas não de 1419. Ainda assim, comecei a descobrir a Madeira.

O Angelus estava visivelmente preocupado, embora comesse chocolate durante todo o percurso para sequer tocar no assunto. Eu olhava através da janela, fingindo não estar entendendo absolutamente nada. O Pedro nos aguardava com uma cara meio cansada de quem passara o dia no trabalho; levou-nos até a casa onde ficaríamos os dois. O Angelus falava muito pouco, mas o Pedro não parecia estar incomodado, ou parecia estar esperando por isso. Deu-nos a chave do carro quase rindo, e saiu no escuro. A porta rangeu um pouco antes de fechar, e era o silêncio de uma casa enorme e vazia.

O meu quarto ficava no final do corredor. Numa das janelas podia-se ver o Funchal e o mar à noite. A outra dava para o nada. Eu obviamente não quis fazer a pergunta que o aposento já respondia: ali tinha sido o antigo quarto de André. Desse assunto nunca falamos. Tudo parecia estar intacto, como havia sido deixado há quase dez anos. Mas sem vestígio sequer de pó: o quarto era visivelmente asseado todos os dias, possivelmente sob a supervisão do Pedro.

Eu trazia apenas uma mala, aquela que o Manuel me emprestara para ir à Itália. A mala, que nunca chegou à Itália, era de bom tamanho para o que eu carregava agora. Se calhar, devia ter pedido permissão ao Manuel. Mas a viagem, essa viagem, ensinou-me entre outras coisas que nem sempre pedir permissão justifica por si só o ato de fazê-lo. Isso logo se explica. Agora mesmo o que interessa é saber como fazer para tirar o Angelus daquele estado de desassossego. Ou de letargia. Não passava das dez da noite. O quarto já estava mergulhado numa penumbra de melancolia. Procurei o abajur num dos cantos da parede e a luz, fraca, incidiu sobre uma estante cheia de livros. Os livros, a maior parte de poesia, não me despertaram a atenção. No topo da estante, quase esquecidas de tão altas, umas caixas, que diziam apenas: escritos. Eram talvez dez, doze caixas amontoadas sem muita ordem, a não ser pela numeração: I, II, III, IV...

Aqui entra o Angelus, perguntando se não era uma boa idéia ir ao centro para comermos qualquer coisa. Eu, claro, disse que sim. E saímos os dois.

7.29.2009

It Came So Slow

Não há como não gostar dos Helmet! Não é por acaso que bandas tão importantes e tão ilustremente desconhecidas como os Silo os citam como uma das grandes referências do rock dos noventa.

Hinos como 'I Know' e 'Pure' representam com a sua precisão e sobretudo com as suas letras reflectindo temas e posturas de quotidiano suburbano [/]

Momentos como 'I Know' e 'Pure' condensam aquilo que eles têm de melhor: a precisão do seu rock, que não tem medo de explorar a distorção dos Metallica, mas optando por simplifica-la ao maximo, e sobretudo as letras, irónicas e

É claro que no meio disto tudo há coisas menos interessantes ou, como diriam os escribas dos jornais locais de subúrbio, 'menos bem conseguidas' (-> fogo <-, será que nestes casos já alguém se lembrou de substituir a locução adverbial por um adjectivo e dizer 'pior conseguidas, he he, -> he <-). Ainda assim, dos álbuns que conheço, o que tem menos trabalha é este mesmo, o Betty, e por isso difícil falar sobre ele um pouco aqui.

E aquilo que vale a pena dizer é que o Page Hamilton realmente merece ser reconhecido pelas suas belas (depressivas?) malhas de guitarra e por escrever pivôs como 'It came so slow you don't remember' em 'Today's another day you won't deny that / It came so slow you don't remember / When you got fat'.

12.04.2008

Nós

parece que vai ser
nós dois até o final...


Ouvir!A: é, eu acho que é muito calmo... quer dizer, eu também acho isso dos álbuns do... do...
S: quer dizer, eu acho que é um álbum conce/ conceptual, entendeu? ele...
A: sim
S: ele tinha realmente o propósito de fazer aquilo mais calmo mesmo, também por... por conta mesmo do... sei lá! acho que... de toda idéia, né? do sou e não-sei-o-quê...
A: sim
S: de ser um só agora... de não fazer parte de um grupo
A: sim
S: então eu acho que ele quis dar mais... ah... prioridade... à... à essa idéia de... de...
A: individualidade
S: sim... sim... e... acho que... assim... como conceito, eu acho que o álbum é feliz... éh... a idéia é interessante
A: uhm-hum... sim... quer dizer, eu acho que tem... tem músicas muito boas... a primeira e a segunda...
S: sim, gosto muito da primeira
A: acho que são músicas bastante fortes... só que eu acho que... éh... são... quer dizer... por exemplo, a primeira... e tem mais uma que... aquilo que conseguem... aquilo que têm de muito bom é precisamente de repetirem alguns dos melhores momentos dos hermanos
S: ahn-hã
A: éh sobretudo do... do ventura
S: sim... eu vou fazer os outros... quer dizer, eu vou fazer um comentário mais... demorado do álbum depois
A: agora eu acho que é isso, eu acho que tem duas ou três músicas que são realmente muito boas, incluindo uma das que é só viola e voz... eu acho que é muito boa
S: uma o quê?
A: uma das que são só viola e voz... eu acho que é muito boa
S: ah... qual? foi aquela do blog? aquela do youtube que eu coloquei?...
A: éh... ou é essa... ou é... mas acho que é essa, sim... há uma que eu rea/ achei realmente... excepcional... se calhar é essa
S: é, eu gosto muito... na verdade, essa que eu coloquei... a do youtube... é a minha preferida, porque ela tem uma melodia meio... éh... de... de... ah... como é que eu digo?... modinha... já ouviste falar nisso?...
A: sim, sim, eu sei o que é...
S: pois é, é uma espécie de... ahm... éh... canção... tradicional... brasileira da... século... eu acho que tem mesmo inspiração portuguesa, não é?
A: êh... tu achas que é portuguesa?... eu não sei...
S: então, eu acho que a modinha tem tem... tem inspiração mesmo portuguesa
A: de onde? do fado?... pois, não sei... eu, assim, de português antigo só conheço aquelas cantigas de amigo e... essas coisas do... da idade média
S: ah... mas eu acho engraçada... engraçada essa música do...
A: do camelo?
S: do camelo... a que eu coloquei no youtube
A: eu também
S: e sobretudo a composição mesmo, porque ele faz algumas brincadeiras... éh... lingüísticas
A: sim
S: que aliás, ele já fazia no...
A: nas músicas
S: nos los hermanos... que eu acho interessante... então ele... ele...
A: sim, eu tou-me a lembrar que ele tem aquela do... hehehe... como é que é? eu sou o teu homem, viu... ehehehe
S: ah-hã... sim, ele gosta de fazer... ele gosta de juntar ele/... quer dizer, de ir juntando elementos... que aparentemente... que... éh... que... do ponto de vista... estrutural... faz sentido, mas do ponto de vista semântico... é... é preciso algum esforço, entendeu? pra... quer dizer... é como aquela história do Chomsky das das... não-sei-o-quê coloridas
A: sim, colorless green ideas
S: exatamente... éh... então ele faz um po/... ele faz isso às vezes, o que eu acho... e faz isso nessa música, o que eu acho... éh... interessante, mas... éh... é porque agora eu não lembro exatamente qual é, mas depois... dá uma olhadinha... ele ele diz assim uma coisa como... éh... já no final mesmo... por exemplo, ele junta... ele jun/ ele sai juntando elementos que, se você for ler, não vai fazer sentido, entendeu?
A: sei
S: éh... se você for... ler a músi/ o o a letra assim... linearmente, ela não vai fazer nenhum sentido
A: uhm-hum... sim
S: aparentemente
A: ah, isso é interessante... mas éh... eu na verdade até... quer dizer, eu ouvi o álbum durante a semana, assim, a primeira vez... e não fiquei muito agradado... depois depois voltei a ouvir... e achei que... realmente tem músicas assim muito boas, como algumas dos hermanos... éh... só que, no geral, não acho um álbum tão bom... como o ventura...
S: quanto os que ele fez com os irmãos
A: mas, quer dizer, eu também não gosto tanto assim do 4... nem do...
S: ahn-hã... sim
A: quer dizer, eu acho que o bloco e o ventura... são realmente álbuns muito bons... são... mas o 4 já não acho tão... tão engraçado... mas isso, pronto... toda a gente achou o mesmo... menos tu... ha!
S: ahn-hã
A: mas eu eu eu a/
S: não, quer dizer, o meu álbum preferido é sem dúvida o ventura... mas eu gosto muito do 4 também
A: mas até eu... éh acho que também... êh... simpatizo mais com a voz do outro... do rodrigo... acho que sim
S: ah, sim? o... como é que é o nome dele? esqueci...
A: não é rodrigo?
S: é alguma coisa assim, não sei, não lembro
A: é
S: éh... mas ele também vai lançar um álbum rece/ agora, eu acho
A: é vai... é em inglês, e não-sei-quê
S: mas tu ficaste... intrigado com a imagem?
A: sim.. eu fiquei... ehehehe... eu fiquei um pouco, mas eu acho que... enfim, também tem... um bocado de... quer dizer, até tem um bocado a ver com o blog e com... a definição, não é?... por isso eu achei be/ bem
S: éh... é interessante a capa do disco, não é?
A: sim
S: por acaso era uma coisa que eu nunca/...
A: é... mas eu... eu já... eu já reparei que ele... que ele gosta de fazer umas coisas assim, mais... ele tinha um blog também... não viste o blog dele?
S: não
A: ele... ele tinha um blog e ele no blog... só... éh... punha coisas escritas à mão... ehehehe...
S: ah...
A: ou seja, ele... ele éh fazia coisas com máquina de escrever, ou em... em... pronto... com caneta
S: uhm-hum
A: e depois
S: e depois
A: passava no scanner pra pôr no... no blog.... ehehehe
S: ah, isso é interessante, pra quem gosta de escrever à mão
A: ahn-hã
S: tem gente que escreve, né? muito à mão ainda... que...
A: sim
S: éh... tu fazias, não é, isso?
A: sim, eu fazia, mas... éh... rapidamente
S: mudaste
A: passei a achar isso estúpido... ehehehe
S: eheheh... mas, assim, tem gente que tem essas inspirações assim e...
A: não, eu sei... eu até conheço pessoas que escrevem assim... ao invés de escreverem... correio eletrônico, continuam a escre/ fazem questão de escrever cartas à mão... assim
S: ahn-hã
A: bastante compridas
S: uhm-hum... tu já escreveste muitas cartas à mão?
A: sim, na altura eu escrevi algumas, mas eu eu rapidamente passei a escrever em computador... depois assinava... e depois deixei de escrever mesmo...

31/10/2008

***

From: Angelus
Subject: Tudo Passa
Date: 31 October 2008 19:55:22 GMT
To: Saavedra

Aí está uma das que acho mesmo mesmo boas, com uma letra absolutamente irrepreensível e uma estrutura bem angular, mas com tons bem familiares dos Hermanos:

eu você e todos os encontros casuais
os ais e os hão de ser
e todos os casais também
olha, acho até que quem achou que nunca ia
esse ia se espantar de ver que o ódio e o amor
e até eu vou pra ver no que vai dar
a massa a moça
e até esse pra sempre
tudo passa


***

Ouvir!A Tudo Passa, com aquela melodiazinha bem castiça no fim, deixa-me a pensar numa tarde de verão com um conjunto de rapazes já bem entrados na idade jovem, de boné e calções, no fundo de um prédio, olhando para cima, como se estivesse alguém a fotografá-los do alto.

01/11/2008, 01:26

12.03.2008

Camelo


Ouvir!O Marcelo Camelo é conhecido por sua estranheza, e é o seu irmão Thiago quem o atesta: "alcançar o universo dele é difícil." A verdade é que, de uma maneira ou de outra, somos todos peculiares. Uns mais que os outros, eu compreendo. Assim, por exemplo, já nos debruçamos os três, eu, a batukada e o angelus, sobre a questão: quem seria o mais estranho de um outro trio: o angelus, o honoré de balzac ou o saavedra? Eu apostava que seria o balzac. A batukada teria sugerido o angelus. O angelus, por sua vez, achava-me a mim o mais estranho de todos. Seremos então estranhos para diferentes pessoas por diferentes razões - e de estranho esta conclusão não tem nada, convenhamos.

A estranheza do Marcelo Camelo estaria em seu isolamento. Pois é, há pessoas que são necessariamente sós. Ou, para parafrasear o que escreve o irmão do Marcelo Camelo, há pessoas que circulam em universos impenetráveis. E não é porque queiram, não confiem, desconfiem, nada! É porque simplesmente falta-lhes desenvoltura para serem mais mundanas.

Para o Thiago Camelo, foi Sou, o primeiro disco solo do irmão, que o ajudou a atravessar o muro que os seperava. O certo é que o Marcelo Camelo apresenta-se amanhã, na noite da quinta para a sexta-feira, no Teatro Tivoli, em Lisboa. Para quem se interessa por outros mundos possíveis, e mora em Lisboa, eis um espetáculo imperdível.

11.29.2008

Last Romance

Ouvir!Hermanos are one of those rock solid bands which, because of all the thought and all the work they put into their songs, deserve a sure status of local heroes. It's no wonder why you have people like Maria João and Maria Rita covering their stuff, and with arguably lesser outputs. And yet again, like Silo, they are some of most underrated people out there - actually they don't even exist anymore. Most people here in Portugal only know them because of the hit single Ana Júlia and are completely astray about anything else.

So what makes these guys so good? Okay, just bear for one moment the structure of Last Romance. The vocal melody is simply other-wordly. And the lyrics, boy, these lyrics will kill you! Just check out this shit:

And just by seeing you I think about changing - uh uh uh - my TV player as a way of taking you somewhere you might want to go to and to go with the wind and to both of us to leave home is to take a stride.

Wow! Is this poetry or something? How many solid rock guys will you have making lyrics of this calibre? Okay okay, maybe Dave Matthews, I'll grant you that. But not much more people.

And what about the beautifully saint-exupéryan verses of Beyond What We Can See:

Fetch one more for dinner tonight, for today I'm going there to see you, take the sound off that TV so that we may talk.

Boy, can these guys play with simple people's concepts! The whole thing is so melodically and rhythmically articulated, and the small ensemble arrangements are so in-your-face culminating in the beautifully spacious coda. Boy, can you not see the beauty in these guys' work?

04/08/08

Último Romance

Ouvir!Os Hermanos são uma daquelas bandas de rock que, pela quantidade de trabalho que põem nas suas canções, e a pensar o que é que resulta aqui e ali (também conhecido como arranjos) merecem o estatuto de heróis. Quer dizer, não é por acaso que a Maria Rita e a Maria João até fazem versões dos rapazes. E, curiosamente, são uma banda quase desconhecida e já extinta.

Quer dizer, contemplemos uma estrutura como a do Último Romance: a melodia vocal é simplesmente indefectível. Toda a deambulação tonal do

'e até quem me ver lendo o jornal - uh uh uh - na fila do pão sabe que eu te encontrei' / 'e ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim, do nosso amor a gente é que sabe...' / 'ah vai, me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar' / 'eu encontrei ah ah ah e quis...' / até chegar ao inacreditável de tão bom e tão bem conseguido 'e só te de te ver eu penso em trocar - uh uh uh - a minha TV no jeito de te levar a qualquer lugar que você queira e ir onde o vento for, que pra nós dois sair de casa já é se aventurar', e a melodia brutal (no sentido mesmo pesado do termo) que se segue. Foda-se, estes gajos são demais!

And just by seeing you I think about changing - uh uh uh - my TV player as a way of taking you somewhere you want to go to and to go with the wind and to both us to leave home is to take a stride' Wow! Is this poetry or something? How many solid rock guys will you have making lyrics of this calibre? Okay okay, maybe Dave Matthews, I can grant you that. But not much more people.

And about the beautifully elusive of Le Petit Prince

Põe mais um na mesa de jantar, porque hoje eu vou para aí te ver, e tira o som dessa TV para a gente conversar

Fetch one more for dinner tonight, for today I'm going there to see you, take the sound off that TV so that we can talk

Boy, can these guys play with people's concepts!

04/08/2008

10.27.2008

Sou

Ouvir!A minha querida amiga batukada vai-se casar. Acho muito bem que as uniões oficializem-se; para isso é que existem os cartórios. Juntam-se assim duas pessoas e o juiz dirá amém. Eu me pergunto se no cartório as pessoas fazem voto para a eternidade (para a eternidade não - diria o Larry David, somente até a morte). Fazem? Prometem lá aquilo tudo que prometem na igreja? E se não prometem, têm a intenção de cumprir?

Eu por mim não me incomodava nada se os Los Hermanos ficassem juntos para sempre. Eram tão legais, completavam-se letra e música! E o nome: Los Hermanos! Como é que foram cada um para uma gravadora diferente?

Pois é; as pessoas desentendem-se. Assim foi com o Morrissey e o Marr! Quando se separaram, ninguém quis acreditar. Alguns até se suicidaram de verdade. O Lennon fugiu com a Yoko. Cazuza partiu sem o Barão. Quer-se fazer crer que tudo foi assim na maior tranqüilidade, sem mágoas. A verdade sabemos nós os fãs: não foi. Basta ouvir o primeiro rebento da carreira solo destes divorciados. O Viva Hate é um dos discos mais tristes de que tenho notícia. Em Exagerado, Cazuza declara e implora: Nunca viram ninguém triste? Por que não me deixam em paz?

Assim vem o Marcelo Camelo, com o seu novo álbum, significativamente intitulado Sou. É. Assim: só. Foram-se os irmãos e vai o Camelo, em doce solidão.

Mas ninguém é só, ainda que se queira. Basta virar a capa do disco e ver a matemática.

10.06.2008

O Medo

Ouvir!Havia uma época em que eu lia os escritos de Jiddu Krishnamurti e achava tudo aquilo muito certo. É verdade, o Krishnamurti nada mais fazia que repetir alguns dos ensinamentos básicos do budismo, se não me engano muito. Isso de que o desejo é o mal de todas as coisas. Sofremos todos porque desejamos aquele sapato na vitrine. Eu, hoje, passados alguns anos, penso que é o medo.

Outro dia vi um filme bastante curioso a propósito disto, do medo. O filme é norte-americano, e por isso sejamos condescendentes. Chama-se O Novoeiro e é baseado num livro de Stephen King. É um filme de horror, como não podia deixar de ser. O horror neste filme, é, todavia, bastante sofisticado, a despeito de não querer parecer sê-lo. Tem por tema O Medo Muda Tudo. Muda. O medo muda absolutamente tudo.

Mas por que é que temos medo e do que temos medo? Do desemprego, talvez? Da solidão? De sermos mal-vistos, de não sermos amados? Tememos as catástrofes, o fracasso, o infortúnio? A morte? Aquilo que sentimos de fato? E a verdade, ou mesmo o desconhecido?

Acordamos e vamos dormir com medo - e é este, tão óbvio assim, o mal do século, Krishnamurti.

Mas é preciso perder o medo: do sexo, da musa, da perda, de mim.

9.21.2008

D-pression

Ouvir!I recall once meeting my friend Pedro in the streets of Funchal, and asking him about our common experience of being people from Madeira studying in Lisbon. This was perhaps during our second or third year in Lisbon, and at some point there was this very embarrassing moment in the conversation (embarrassing for me of course) where I assumed a negative experience as common ground which was not common at all!

So there I was, talking about our first year in Lisbon, and how depression had taken over us during a significant part of that year, to which he quite sensibly remarked that we must have had some sort of misunderstanding there since he didn't identify himself with that feeling in any way. Oh boy, was it an awkward moment in the conversation one had to withstand! And the worst thing is that it wasn't even a him versus me kind of attitude, it was just him very objectively neglecting a sentiment I had foolishly assumed common. How much more stupid could I look?

But I guess that unfortunate episode was mainly due to my mistaking Pedro for some other boy from Madeira I must have talked to who had confessed that same depressiveness and unease following the Fx-Lx relocation. That was a very very down year for me. I practically lost all ties to my friends, wasn't able to make new friendships or even to mate, and then I found myself staying more and more at home just pretending I was doing something. I'd spend two hours lining up two or three poetry books I had in some horrible wood shelves. Or just trying to arrange the dishes in the kitchen up to some infinitesimal symmetry. Yeah, I know there's a name for that. Thank God there is because it made me feel better.

Well, it was definitely painful going through that 18's depression. But going through the 28's depression wasn't any better actually. When you get to a state where you just start thinking about all the possible ways you get can annihilated, like being run over by a car or just dying in a plane accident. And then it all converges to the suicidal. You obviously ask yourself what the hell you're doing with your life, and whether that's all you can expect from it. You start to see the flaws in every little thing, every little act that's partaken by you and in front of you, and you just want to lie down forever, and you actually go and lie down under a table or something, you lie to yourself, to think of some miraculous time travel which can take you back to when you were 13 and then you'll be able to start all over again, to do everything right, yeah, you'll be the Cristiano Ronaldo of whatever it is you want to do.

How fu**ed-up can that be.

8.19.2008

Afternoon Tea

Suppose that you are in the United Kingdom and want to experience the notorious afternoon tea with all the pompousness related to this traditional affair. Now, let us be more specific in this lavish hypothesis and locate yourself geographically in Scotland. Suppose that you are a golfer, an adventurous tourist or a not so bright intellectual that couldn't make it to Oxford or Cambridge. Very well, you are in St Andrews, spending a rainy afternoon (if you are a mediocre intellectual, probably you've never heard about pleonasm anyway) with more than that "sinking feeling" Duchess of Bedford used to complain about in the late afternoons: a craving for gloriousness dressed as tradition. What should you do, where would you go? Well, according to the British Tea Council (a unique organisation that represents outlets dedicated to both brewing and serving tea to the high standards desired by the UK Tea Council), there is just one option in St Andrews, the Afternoon Tea at The Old Course Hotel. Now, before you grab your umbrella and head to this world-famous hotel, you may want to read my own experience below.

Right, we had at least an idea of what exactly we were about to do. I looked on the internet for prices, menu, information on whether it was advisable to book a table or not (after all, we were planning to go there at the busiest time of the year, the golf season). No need to book tables; price: £ 17 per person. We didn't have lunch, as to experience the affair like they did in Victorian times. The tea at The Old Course Hotel starts at two in the afternoon: beware, it's an Afternoon Tea. As opposed to the High Tea, the tradition of Afternoon Tea started at a time in which there were only two main meals daily, Breakfast and Dinner. It is a light meal consisting of sandwiches, scones, cakes and pastries. High tea was a later invention made by the poor in order to combine the afternoon tea and the evening meal. Oh, the poor... Be that as it may, my friend put her best clothes on and off we went, ignoring the rain and the wind.

Doormen are always suspicious. They like us to feel that we don't belong anywhere. At The Old Course Hotel this couldn't be any different, specially if you don't look like a golfer. It must be said, though, that the doormen at The Old Course Hotel are probably used with the hord of Americans that flood the area at this time of the year and ended up leaning how to be acquiescent. The entrance of the hotel is not very intimidating, anyway. So, one doesn't need to be that brave to go there as a commoner. They won't kick you out. As a matter of fact, they'll probably treat you fairly well, as the tea room is absolutely empty. That is obviously the first sign that something is not right.

The hostess, a beautiful black woman, shows us to the table. There are a few options; we chose the one on the window, facing the golf course. The place is not sumptuous, if it is something you'd expect for an Afternoon Tea. It's not cozy either. There is no ressemblance to Victorian times whatsoever. It's white, plain white, with a huge candelabrum that looks somewhat out of place for such a relatively small white room. I am fast to spot problems. As soon as I sat on, I looked with horror at what was right in front of me: a plastic cup of tea. My fried swears it's not plastic: "it's glass" - as if this would settle my animosity. Gingerslice - I say in a tone of shock and utter disgust - I know exactly what glass is. This is *not* glass. This is *plastic*. Plastic - I repeat with odium. I must admit though that it could be acrylic, but that wouldn't make the matter any tolerabler. Glass or acrylic, how could one possibly enjoy a decent cup of tea in anything other than porcelain? I mean, the British Tea Council must have rules prescribing chinaware for eligibility to becoming a member of its exclusive association!

The tea served here is of the brand Tea Forté. It comes in a very cute pyramid-like bag with a small (plastic) leaf on the top. It is a well-known fact that cuteness has absolutely nothing to do with quality. That tea I was sipping in a disgusting plastic cup was nothing but bland - as opposed to what they try to sell in their festive Menu. The food arrived in a conventional tea-tray. The selection was very conventional: various sandwiches (cucumber, egg and cress, ham, and smoked salmon), scones (with butter, clotted cream and jam) and some cakes and pastries. I know the idea is to stick to tradition, but how unappealing everything was! Not only to the taste, but to the eyes! Spicy it up, Mr. Albert Close! If it is to break the convention and serve tea in acrylic cups, go crazy and present us with luxurious food! After all, we are paying for it - and paying pretty damn well!

Now suppose that you are in St Andrews dreaming about having a traditional Afternoon Tea. I recommend you to get a box of Twinings at the local supermarket, some nice pastries and cakes at Fisher & Donaldson and make yourself your own tea experience.

PS. For a different viewpoint - with pictures an all -, read Gingerslice's report on the same experience, here.

8.16.2008

AMME

A despeito do que diz o Angelus, a Alzira é linda. Linda, linda. Linda, linda, linda. Descobri a Alzira de maneira enviezada. A Alzira veio-me através do Itamar. Já o Itamar chegou-me a mim por vias do Arrigo. O Arrigo, por conta do Hermeto. Atenção para todos esses nomes tão bonitos. Assim, como Alzira Maria Miranda Espíndola, ou AMME, como costuma assinar. A Alzira é irmã da Tetê. Eu poderia ter conhecido a Alzira através da Tetê - é verdade -, por quem também nutro profunda admiração. Mas os caminhos são tortos, como a noite, e foi o Itamar quem me trouxe a Alzira. Fez muito bem, porque hoje sou apaixonado por ela.

Senão, é ouvir o seu novo disco, Alzira E. É preciso notar que sempre os títulos dos discos da Alzira trazem alguma brincadeira linguística. Há o PeçAMME, o ParalElas, o simplesmente AMME e este agora, o Alzira E. Alzira e?... Alzira é? É. Não há muito o que dizer da Alzira, porque ela diz o que tem de ser dito. E diz muito bem. É preciso ouvir a Alzira. O novo disco pode ser uma boa introdução para quem ainda não a conhece. Não há nele uma só faixa que não seja simplesmente deliciosa. Há umas marcantes, é verdade. Eu, por exemplo, acho a Talento especialmente boa. Como a Ouvindo Lou Reed. Assim Que Possível, Não Tem Limite, Lugar Algum.

Um dos trunfos da Alzira é arrumar bons parceiros, como este arrudA. Ou a querida Alice Ruiz. Ou então o saudoso Itamar Assumpção. Outro, que será mais importante, é a voz peculiar que tem. Como descrever a voz da Alzira? Parece que canta no frio. Sem ter frio. Canta como ser mitológico de paragens gélidas. Sem pressa, com alguma ironia. Então é ouvir o Ninguém Pode Calar, álbum que fez em homenagem à cantora Maysa. É prestar atenção para como interpreta canções clássicas como Tarde Triste.

Enfim, calo-me. Dou voz à Alzira; que cante.

PS. Os discos da Alzira podem ser encontrados aqui para download. Ouçam, mas comprem cada um deles depois. Estão à venda no site da cantora e compositora, aqui. A Alzira merece.

7.11.2008

In memoriam Victor Hugo Pt3 - Somos

Ouvir!Somos o vapor o éter o átomo
Que sai da terra e fica no gesto
Por termos ainda no corpo sentido
O cuidado pelo fio do destino
E sabemos é um século a vida dez séculos
Em aprendizagem entre tanto que se compreende
E empreende o nome sob o azul
Encontramos o amor como o mar a praia
Dos céus infinitos e primevos
Os amigos do silêncio
O silêncio na linguagem dos amigos
O silêncio sem censuras ou equívocos
De esquadro e compasso

Na focagem de nós
Tantos cordéis entre laçamos
Do chão aos astros
Revela-nos a geometria de ter mãos
Conhecemos a mãe e o pai no mesmo
Que no portal de há muito tanto escuta como vê

Poema do seu livro Histórias para Caracóis e Tartarugas

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Esta é a terceira parte de uma longa série de textos dedicados à memória do Victor Hugo, nascido faz hoje 32 anos.

REQUIESCAT IN PACE

6.15.2008

Dois no Rio

Ouvir!Com a incessante banda sonora do Fausto Fawcett a acompanhar cada um dos nossos passos, os Dois lançaram-se numa exploração do moderno Rio. E o Rio está muito bem e recomenda-se, mas talvez soe um pouco foleiro, ou 'cheesy' como dizem os ingleses, falar dos Dois assim, com letra maiúscula e tudo.

Enfim, o que importa é que os Dois estiveram lá, e tiveram tempo para contemplar cada uma das maravilhas da cidade maravilhosa com a atenção que se lhe exige... quer dizer, nisso levou um certo avanço o Saavedra, que pôde a provar a inigualável feijoada do Copa, tão boa tão boa que rebenta a escala e merece sete estrelas, mas depois recuperei eu pelo facto de ter chegado pelos Santos Dumont, cuja aproximação e aterragem permite, segundo o Guia Quatro Rodas, algumas das mais fascinantes vistas da cidade.

É claro que existem outras, como a do heliporto do Corcovado e a do Arpoador.


Não chegámos a perceber porque é que o Marius não aparece no guia Quatro Roadas, porque o empregado nunca chegou com a resposta, mas de resto vimos respondida a maior parte das perguntas que havíamos alimentado pelo caminho: o Copa é o hotel mais bonito da cidade? É. O Hotel Marina existe mesmo? Existe, sim, e fica na orla de Ipanema. Ostentava, curiosamente, um dos ditos do Profeta Gentileza.


O Porcão é mesmo o melhor restaurante da cidade? É claro, se pensarmos na relação qualidade-preço e na excelente vista da Lagoa Rodrigues de Freitas.

Melhor carne que essa só indo ao Fogo de Chão em São Paulo, que em contrapartida não tem sushi nem entradas tão generosas.

O Bondinho e o Corcovado valem a viagem? Valem com certeza!










As garotas de Copacabana e Ipanema continuam mais gostosas que nunca? Olha, para já essa frase não faz muito sentido, e eu não vi bunda nenhuma. Nem cheguei a ver nenhuma das patricinhas do Leblon. Houve um dia que demos uma saltada à Barra da Tijuca, e lá também não vi bunda nenhuma, nem vi nada que valesse a pena conhecer, o que inclui o olvidável restaurante Mercado do Peixe. Já no Leblon vale bem a pena passar pelo melhor restaurante de sushi da cidade, o Sushi Leblon (atenção que para os brasileiros a palavra japonesa se pronuncia com acento no fim), e pedir uns económicos menus executivos regados com o melhor saquê da casa.




Ainda que à Barra não valha a pena ir, valerá a pena com certeza ir um pouco mais adiante e visitar a Prainha e o Parque do Grumari. Essa zona, informou-me o Saavedra, era antigo posto de peregrinação dos hippies da MPB dos anos setenta, como a Gal e o Caetano, personalidades agora consagradas que não avistámos por lá. Para chegar a essas praias basta apanhar uma das vãs (PB para 'carrinha') que passam pela Nossa Senhora de Copacabana de manhã bem cedo e que atravessam a Avenida das Américas em alta velocidade, pedindo para saltar no cruzamento do fim da avenida antes de virar para Santa Cruz. Daí para a Prainha depois é só pegar (PB para 'apanhar') um dos cômbis que vão pela estrada de terra e que apresentam na sua frontaria uma tabuleta dizendo 'Recreio'.




Eu infelizmente não cheguei a encontrar a Vanessa da Mata para lhe perguntar afinal porque é que ela insiste tanto nesse 'boa sorte', mas, mais importante do que isso, fiquei a saber que lá eles pronunciam esse antropónimo como Vanêssa, assim mesmo, com vogal fechada, o que não deixou de me deixar um tanto intrigado. Mas enfim, nada de muito estranho, tendo em conta que eles insistem em dizer Málu Máder (alegando continuamente que o primeiro nome é paroxítono, como se não houvesse lugar a uma estratégia de resolução do conflito acentual) em vez de Malú Madér, como dizemos aqui, o que está em grande contraste com a pronúncia de Elis, que eles pronunciam como uma verdadeira oxítona, quando aqui em Portugal toda a gente sempre diz Élis, vá-se lá saber porquê. É um diferendo que costuma haver entre os Dois, e que certamente ainda vai dar que falar. Do lado do PE, é possível argumentar que de facto, sendo esse um nome de origem hebraica, como muitos dos actuais Elis que por aí andam, terá de ser acentuado na primeira sílaba. Por outro lado, o do PB, é possível argumentar que, como qualquer antropónimo, essa é uma estrutura adaptada à fonologia do português, e que, da mesma maneira que não passa pela cabeça de ninguém dizer Dinis com acento na primeira sílaba, também não se deve dizer Elis como paroxítona. O que é, convenhamos, um argumento de peso contra uma pronúncia como Málu Máder.

A verdade é que existem muitas assimetrias entre o português europeu e o português do Brasil, e eu maravilhei-me a estudar as assimetrias lexicais do sistema de palavrões. Provavelmente já todos sabem que 'tabaco' é palavra de uso restrito por terras de Vera Cruz, mas eu pelo menos não sabia que lá 'rabo' se opõe ao nosso 'cu' como a palavra que não deve ser usada em público para designar o traseiro. O órgão genital fenimino é algo que não designam de modo ofensivo fazendo referência à sua natureza encoberta, o que se compreende: quer dizer, mais sexista será um termo como 'vagina', que era o nome latino para a bainha onde o homem guarda a sua espada, do que esse tal de 'cunnus', que só mesmo portugueses e ingleses podem achar tão abjecto.

De volta a Portugal, reparo que o novo acordo ortográfico foi aprovado, e percebo que acabei de passar para outra ordem de grandeza. Enfim, embora ache o acordo tecnicamente mal executado, pelas razões que antes referi e por outras tantas que ainda poderão ser descritas, fico contente por agora poder usar o adjectivo cônica, escrita desta maneira, para falar de umas das minhas palavras favoritas do português.

6.11.2008

Arnold Antunes, Live in the Studio: 5*

Ouvir!Late offerings by Arnold have been met with mixed feelings: avant-garde fans like Saavedra immediately embraced them as a meaningful progression in style whereas die-hard fans of the old Titans stuff, like this one here, have expressed lukewarm opinions towards it.

To me this Live in the Studio affair has come as a real surprise: I would never expect to like it so much, being one of those pesky dudes not so fond of his mellower style of late... and definitely not fond of his Tribalist adventures.

Lesser known outputs such as the great Name obviously score way more points on the creativity department, while still retaining a rock flavour to it. But as Saavedra rightly claims being experimental and less accessible is just a phase you go through you should grow out of.

Thing is, the richness Do Know and Any present in terms of melodic and poetic content they seem to lack in groove power. Sure, melody and poetry per se are sufficient to have a pretty decent album out there, specially with a writer of such high calibre. But it's no wonder why some of the older or 'experimental period' fans start yawning.

Now what we get with this Live in the Studio concert is a perfect balance between melo(w)dy and groove, music and poetry, voice and instrumentation. And a handful of tunes you really stay hooked to. Give it a couple of listens, and you'll be humming it for the rest of the week.

Of course I wouldn't rate it so highly had Arnold not included some of those oldies goldies like the ever-impressive What. Having them combined with exponents of his melodic side such as Do Know and Any works big time.

And what to say of the covers he went for? The nightside beauty of Lights is rightly fit just before the angry final song, and Something is worth the price of the product alone. Check out the voice solo right after the Flamenco guitar part. Nothing short of spectacular there! Monsieur Gaétan can certainly be proud of what Arnold did with one of his most successful tripped-out experiments.

Something and some of the other tracks like the melancholic I Will Not Fit and I'm Not from Your Street, with right-on-the-money contributions from Nando Reis and Branco Melo, clearly make you think of all the thought that was put into the arrangements. Even the extra mellow One to One by the Tribalist bunch can work wonders, filled as it is with its nice soccer allegory. Perfect for a time out of Euro 2008, one could say.

So all things considered this gets to be one the best Brazilian stuff I have ever heard in the soft side category. Lyrics- and arrangements-wise, you can't beat Arnold. Just listen to the first minute and half of the album: the slighty odd meter of Any together with incredible out-of-the-blue linguistic transitions like 'Qualquer carne, alcatre, quilo, aquilo sim e porque não?' can only make you go: 'wow!'

5.27.2008

Navegaire

Ouvir!Os filmes de Paul Morrissey, produzidos por Andy Warhol, são fontes de alacridade. Considerem, por exemplo, o Heat (1972). Paródia do clássico Sunset Boulevard, este filme é absolutamente histérico. Ícone do cinema underground, o Heat está caracterizado pelas atuações despojadas, a óbvia falta de recursos e uma edição aparentemente descuidada. Quer parecer um filme de amador; e aí reside o seu grande trunfo: não é. Entretanto, não quero aqui me concentrar nas qualidades técnicas e conceptuais do filme. Estou mais interessado é nos diálogos. Os diálogos em Heat são deliciosos! Um exemplo é a conversa que tem a Sally Todd com a filha, que vive com o seu bebê e uma amante num quarto de motel:

Sally: ...And you're NOT a lesbian. I mean, everybody has girlfriends. Men have friends, women have friends. That doesn't make you a lesbian. Do you sleep in the same room with her?
Jessica: Sure. How else can I be a lesbian?
Sally: Where does Mark sleep?
Jessica: With us.
Sally: In the same bed?
Jessica: In the same bed.
Sally: Is that a way to bring up a boy? He'll be a lesbian!


Essa lassidão e nonsense conversacional vem certamente do Warhol, que era a encarnação da porra-louquice natural. Há nos diálogos de Heat uma despreocupação lógica, um desapego a fórmulas, uma desatenção a regras de coesão, coerência, gramática, semântica formal, moralidade e o escambau. As personagens falam em Heat pelo puro prazer de falar.

É possível que estivessem todos chapados, o que só corrobora a minha impressão de que seríamos muito mais divertidos se vivêssemos para sempre chapados (viva a Dinamarca, viva Christiania!). Assim, por exemplo, tivemos eu e o Angelus conversas extremamente iluminadas sob o efeito do ácido lisérgico, algumas das quais estão registradas em páginas e páginas engavetadas aqui e ali. Quando, entretanto, nos pomos a discutir morfo-sintaxe, sóbrios, o resultado é uma chatice sem fim.

Eu aqui concordo com o Arnaldo Baptista: deviam mas era instalar núcleos habitacionais menores, já que a luz é relativa também.

5.22.2008

Dimitri e o Cão Raivoso

Ouvir!Vanity of vanities, saith the Preacher, vanity of vanities; all is vanity. [...] All things are full of labour; man cannot utter it: the eye is not satisfied with seeing, nor the ear filled with hearing. The thing that hath been, it is that which shall be; and that which is done is that which shall be done: and there is no new thing under the sun. Is there any thing whereof it may be said: See, this is new? It hath been already of old time, which was before us. There is no remembrance of former things; neither shall there be any remembrance of things that are to come with those that shall come after. ~ Eclesiastes 1, versão do Rei Tiago

Vem o Dimitri e diz-me que a minha exposição não foi nada de especial. Tem razão o Dimitri, o problema é que ele não sabe porque é que não foi nada de especial. Mas ele diz que gosta de mim, embora eu lhe faça perguntas directas sobre técnica e sobre os livros de fotografia que (des)conhece, às quais torna com evasivas ou desajeitadas digressões tipo 'o Miguel, o meu mano que está ali, que provavelmente sabe muito mais disto que nós, é que devia falar sobre isso'. Sabe sabe, e é sempre bom pôr uma primeira pessoa do plural para embrulhar bem a coisa.

Eu detesto ter de fazê-lo, foda-se, já pareço a porra do velho do Restelo, mas é por culpa de todos os Dimitris que o país anda como anda. Que se convidam grandes cosmopolitas como o Nick Knight para retratar algumas PPPs (personalidades portuguesas proeminentes), como se não houvesse aqui fotógrafos capazes de fazê-lo. Claro, num país de fotógrafos em que nenhum deles sequer sabe quem é o Jorge Molder, quem é o Nozolino, quer dizer, não admira que se façam coisas dessas. Como se alguém convidasse o Molder para ir retratar a rainha! Convidar o Nick Knight, por um balúrdio, para fazer representar o nosso país acaba por ser um retrato social bem profundo daquilo que somos, com0 aliás já disse o João Pinto e Castro.

E é neste país de poetas, como a nossa referida Maria, que nos dão belos romances como os Homens de Passagem, que depois se vem dizer que ninguém escreve bem na Madeira excepto os que agora se publicam no Funchal 500 Anos, quando conheço eu escritores madeirenses que escrevem quinhentas vezes melhor do que alguns desses e não conseguem ser editados. Pois que se publique ela própria em trezentas edições especiais da sua novela, ora porra!

Mas eu vou-me calar, até porque não vou ser mais um portuguesinho ressabiado, que a única coisa que sabe fazer é dizer mal dos outros. Dêem-me só este momento de catarse à moda dos Tool, e permitam-me que lhes diga que jamais me adaptarei a otários como o Dimitri, que nunca sequer conheceram um fotógrafo a sério, não percebem nada de técnica nem sabem interpretar uma fotografia, e que, se alguma vez tivessem aprendido alguma coisa, tornariam a copiar no primeiro momento as coisas que vêem vender lá fora.

Para cada um desses artistas copiarei eu as auspiciosas palavras da Estamira, que, essa assim, sabe mais do que todos nós: 'vai para o car**ho, vai levar no cu'! Para o car**ho, pá, para o car**ho, quinhentas vezes para o car**ho, seu cabrão de merda! Ou pondo simplesmente em inglês, para ser cosmopolita como o outro, e como dizia o Reverendo Maynard na sua célebre canção: 'Fuck you, buddy!'