4.27.2008

As Academias de Ginástica

Andamos todos ocupados. Eu não sei se a batukada leu a minha última matéria sobre academias de ginástica, casacos de gabardina e reprodutores de mp3. Ela de certo há de querer saber porque, afinal, aderi aos reprodutores de mp3, porque vou para a academia de ginástica: por quê? por quê?

Antes, gostava de saber da batukada, que é nossa amiga consultora da Língua Portuguesa, se há uma tradução apropriada para post. O Angelus arriscou posta. Mas isso, depois pensamos, não é de peixe? Seria talvez postagem? Postagem, eu acredito, é coisa dos correios. Mensagem. E mensagem? Mensagem não requer um recipiente? Quando escrevemos uma mensagem, supomos um endereçado. Já os blogs, estes, escrevem-se como se escreviam os diários - para ninguém ou para uns poucos à sorte. E artigo? O Angelus não gosta de artigo porque a palavra evoca-lhe o execrável jornalismo lusitano. Em PB, sugeri de cá, o termo em voga é matéria. Eu que nada tenho contra os jornalismo - porque nunca leio jornais ou revistas - concordei que matéria era uma palavra boa. Boa, mas sem o aval de nossa senhora mestra consultora da Língua Portuguesa não vamos pra frente.

Enquanto não se resolve essa pendenga lexical, voltemos às academias de ginástica. Na verdade, eu já havia ensaiado qualquer coisa acerca das academias de ginástica em minha última ***. Lá mesmo sugeri que o tema merecia um *** exclusivo.

Eu tenho uma hipótese acerca das academias de ginástica. Acredito que quem as frequenta o faz porque pensa lhe faltar algo. Aquela ali é pequenina; aquele é estúpido. Um outro é feio, duas não têm namorado. A academia servem-lhes para compensar tudo isso. Querem, ao final de três meses, dizer que podem ser estúpidos, mas estão em forma.

Reparem nos tipos que vão à academia de que sou membro. Um olha-se no espelho a cada set, como se os músculos fossem lhe aparecer por milagre. Outra concentra-se, fingindo naturalidade, naquele biceps. Aquele nos biceps daquel'outro. Tem o que apalpa a barriga na esperança de que a gordura sumira depois de quinze abdominais; há obviamente os que lutam disfarçadamente pelas esteiras sempre ocupadas. Homens fazem caretas e gemem; mulheres leem revistas e suam. A música, tum-tum-tum. Conheço um membro saradíssimo que, no intervalo entre um set e outro, vai para o vestiário comer bananas e tomar uma mistura aí muito suspeita. E o cheiro nos vestiários, meus amigos? Bem, há o que se diga do cheiro nos vestiários.

Eu espero, muito francamente, que saiamos satisfeitos e recompensados, se é que há alguma verdade em minha hipótese. Claro está: como toda hipótese, esta precisa ser testada, avaliada e replicada em laboratório. Não sei o que dizem os sociólogos a respeito das academias de ginástica, nem se o Darcy Ribeiro terá escrito alguma dissertação a respeito. Eu não me animo em buscar explicação aos psicólogos, porque esses não entendem de nada. Os gregos entendiam de alguma coisa, sobretudo de músculos e da importância estética que têm. Eu cá para mim tenho a impressão de que os gregos é que são culpados por isso tudo, embora a minha irmã insista que a culpa caia sobre a Jane Fonda e os anos oitenta.

Não sei o que pensará a batukada, nem tenho respostas paras as suas possíveis perguntas. Meu posicionamento em relação a tudo isso é que às vezes há mais vantagem em pôr de volta os fones de ouvido e esquecer a sensatez.

4.23.2008

iPod

Eu, em geral, não gosto do ambiente das academias de ginástica. Não é tanto pela música, reparem. Nem mesmo pelos adolescentes apavoneados ou pelas agitadas menininhas que vão às unhas por aquela esteira. As músicas são detestáveis, os frequentadores, irritantes, e as academias de ginástica merecem uma matéria à parte. Sim, porque hoje estou mais inclinado para falar dos iPods.

Ora, a minha experiência com esse brinquedinho de luxo que virou necessidade básica de frequentadores de academias de ginástica não é das melhores. Entretanto, não estou sozinho - o que me serve ao menos de consolo. O meu iPod não durou nem um ano. Morreu e foi substituído por um novo, por conta da garantia. Esse morreu também em menos de um ano - mas, alas, a garantia já não cobria o iPod substituto. E, pronto. Eu, como milhares de consumidores all over the world, fiquei bastante frustrado.

Frustrado, sim, porque sou grande fã dos produtos da Apple. Já uso computadores da Apple há bastante tempo e quase nunca me queixava. Exceto pela mesma razão de que agora me queixo do iPod. A Apple faz produtos descartáveis. Isso assim, meus amigos, não dá. Quer dizer, tive dois laptops da Apple. Os dois - ambos - apresentaram falhas graves em menos de dois anos. Isso assim, meus amigos, é terrível. Afinal, os produtos da Apple são caros, caríssimos. Deveriam durar mais.

Agora já não estou bem certo. Depois que o Jobs resolveu aderia aos processadores Intel, o Mac OS X tem se comportado de maneira bem escrota. Ora, até já congela e tudo! Eu não sei, não sei... Estou quase pronto para aderir de vez ao Linux. O futuro, meus amigos, eu vi. O futuro é o Linux, digo-vos já.

Entretanto, voltemos ao iPod. Hoje cruzei a caminho de casa com uma senhora muito senhoril; uma senhora com acento circunflexo no "o". Agarradinho lá na lapela do casaco de gabardina da senhôra, estava um iPod shuffle azul-bebê, à mostra. Mas então o que é isso agora, esse prazer de mostrar um iPod azul bebê grampeado num casaco de gabardina? Eu francamente não entendo. Pouco depois, passada a minha estupefação, fiquei a imaginar o que escutava a senhôra.

O que não sabem os pavões da academia e os casacos de gabardina é que há alternativas muito melhores ao iPod, sobretudo à essa versão minúscula, o shuffle. Outro dia recebi o meu Sansa Clip e estou muito contente com o brinquedo. É minúsculo, bonito, robusto, potente; tem funções que o Shuffle sequer considera; promete o que faz, é durável (de acordo com opiniões que encontrei na internet); sobretudo - e isso é importante -, é bem mais barato que a mais barata das versões do iPod.

Chega um dia que é preciso tirar os fones de ouvido e escutar algo mais sensato.

4.22.2008

In memoriam Victor Hugo Pt2 - A Ponte

Ouvir!Dentro da categoria dos documentários, poucos há que consigam ser profundos. Quer dizer, um documentário é uma coisa que por definição serve para documentar a natureza humana.

No entanto, hoje em dia há uma certa tendência para fazer documentários sobre tudo e mais alguma coisa. Por exemplo: aquele vídeo sobre um mês de dieta no MacDonald's. É óbvio que não podemos comparar um filme desses a um documentário como a Captura dos Friedmans.

Felizmente a Ponte é uma dessas películas que logram atingir a categoria de documentário profundo. Aqui, tal como na música do Tiago Maia, o veículo de expressão não é a abstracção em absoluto, muito pelo contrário.

Visivelmente, o realizador está menos interessado em mostrar uma qualquer perspectiva pessoal sobre um problema tão abrangente do que em compreender um fenómeno que já todos sabemos ser extremamente complexo e que jamais alguém poderá reduzir a um punhado de frases ou versos. E aquilo que guia o filme, tirando a fluida progressão temática e outros pormenores da edição, é mesmo a tentativa de descobrir algo mais, por menor que seja, sobre aqueles que decidem desaparecer da face da terra.

A Ponte é, assim, um documentário sobre algumas das 24 pessoas que no ano de 2004 se atiraram da Ponte da Porta Dourada, de São Francisco. A Ponte da Porta Dourada, além de ser mundialmente famosa, tem, convenhamos, um dos mais belos nomes que alguém jamais inventou para uma ponte.

Ficamos a conhecer em detalhe sobretudo as vidas de três, o Gene, a Lisa e o Philip, que nos são apresentados e retratados pela família ou pelos amigos. Transparece desses testemunhos sobretudo uma tentativa de exegese do acto, particularmente explícita no caso do Gene, que já não tinha família.

E é de facto meritória a exposição dessas vidas em filme: essas pessoas não ficaram mais pequenas porque se lhes vê a cara e o corpo cadente durante o (in)evitável mergulho. Passaram, pelo contrário, a fazer parte de um esforço de contextualização bem maior.

Todos os rios correm para o mar, já se sabe, e o mar nunca se enche. Assim ao menos passaram pelos nossos olhos e pela nossa cabeça alguns daqueles que decidiram acabar a sua vida prematuramente. Talvez seja uma forma de nós próprios lhe darmos ainda mais valor.

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Esta é a segunda parte de uma longa série de textos que escreverei em honra da memória do Victor Hugo, que se atirou da Ponte dos Socorridos no Verão de 2006.

REQUIESCAT IN PACE

4.17.2008

A Polidez Britânica

Hoje, andando por calçadas estreitas na Grã Bretanha, deparei-me com um acontecimento curioso. Lá vinha o casal de velhinhos, em passos lerdos, atrapalhando o caminho do jovem lépido e apressado. O jovem tentou driblá-los; não conseguiu. Chamou, entretanto, a atenção do velho, que deu passagem ao jovem lépido. Contente e apressado, o jovem sorriu e agradeceu: "obrigado". Não ouviu depois o comentário do velho: "ora essa, devia ter dito com licença, por favor e perdão!" Assim funciona o sistema de polidez na Grã Bretanha - atenção.

Não é muito raramente que ouço dizer dos brasileiros que somos um povo mal-educado. Não há nada disso no Brasil. Não agradecemos ao motorista de ônibus por fazer o seu trabalho, não pedimos perdão a anônimos nas praças por ter espirrado ou tossido, não pedimos licença a cada velhinho que nos atrapalha o caminho. A coisa assim parece ser meio anárquica, mas funciona. Funciona tão bem que, chegando um incauto em terras onde os pássaros gorjeiam como em nenhuma outra cheio de frescuras, há de ser motivo de piada. Ou de estranheza. Ou de profunda antipatia. Ou de tudo isso junto.

Eu não sei o que dizem os sociólogos a respeito do sistema de polidez no Brasil. Também não me ocorre agora se o Darcy Ribeiro já teceu alguma análise aprofundada sobre o assunto. O certo é que penso ser a prosódia uma grande pista para se entender como nós os brasileiros mostramos cordialidade no trato social. O resto há de ser redundante. E, em matéria de linguagem, somos famosos por detestar a redundância.

Voltando, todavia, aos sociólogos, quero imaginar se não há uma explicação mais complexa para o fenômeno da polidez sucinta (ou da completa fata de polidez, para quem nos vê de fora) do brasileiro comum. Seria mesmo um consciente desapego a convenções, resultado de uma história de lutas por libertação de um velho mundo? Ou seria pura falta de requinte mesmo, característica das classes econômicas menos privilegiadas?

Eu não sei ao certo. O certo é que estou mas para que se fodam todos esses velhinhos britânicos, presos a um sistema de regras ditadas por uma hierarquia estúpida, que andam a passos de tartarugas em calçadas estreitas por onde caminham jovens lépidos e apressados.

4.11.2008

Praia do Larano - Madeira's Most Dangerous Levadas and Mountain Walks Pt2

Ouvir!By popular demand, here is a feature on the infamous Praia do Larano, known by local people as Praia das Areias. Here's the location:


I wasn't so sure about including it in this perverted guide, because I really don't consider it a 'dangerous mountain walk', but then some people have sworn me it's as dangerous as can be, and the popular demand has been so overwhelming that I decided to write about it.

And hey, it is by far the most interesting and most beautiful beach inside Madeira island, so there's one good reason for writing about it.

Surprisingly, you won't find it mentioned in any of Portugal beach guides, like [1]. It's understandable: who's willing to bear 2 (to 4) hours of very tiresome walking just to get to a beach? Might as well go to Lido and perhaps enjoy the views of two or three blonde foreigner girls doing topless. It'll save you plenty in gas and hooker money.

Now to the hardcore wild black sand beach lover I'll be leaving some instructions. Before you go, one important thing you should check (aside from getting a towel, a big bottle of water and sunscreen into your bag) is the sea level times. This is a walk you are advised to take when the tide is low. This is an important safety instruction. You can check the sea level maxima timings by grabbing yourself a copy of the free Jornal da Madeira. Look for the tide information box and then check out the G and I columns:

These columns indicate the precise time in the morning and afternoon when the tide is at its lowest. You should preferably leave Funchal 2 to 3 hours before that time.

Head to Porto Cruz using Via Rápida, oficially known as Via Expresso. Coming from Funchal, you will have to take the first exit in Porto Cruz which is just beside a Galp station. This is a tricky exit, so you must drive slow as soon as you leave the tunnel and start seeing the Galp station in a slight descent.

The exit will take you to a very narrow road and you will find a bifurcation 50 metres ahead. Take the road left, which will lead to an entrancing descent. After taking this merry-go-round in the form of a road through its entirety (i.e. to its bottom), you will see two leads to the right. One is a very steep climb and the other is plain. You take the very steep climbing road, unless you decide you might as well give up, and settle for the already amazing partial black sand beach of Maiata de Baixo.

Some two or three minutes after taking the steep road up, you will find a recent asphalt lead to the left. Take that one, and beware that you only drive for 15 seconds in it, as you will have to start climbing again in the non-asphalt road to your right which is just next. Climb as much as you can with the car and park it wherever you can inside that road.

Now you will follow the little hiking trail which goes up, and this will take you to an iron balcony painted green. That's where the fun starts. Enjoy the vista there:


You will see some inviting ladder going down from that point, so that's your departure.


Afterwards it is really easy: just follow the hiking trail downwards.


It will take you to a recently renewed (and un-vandalized) wine tank. You will proceed further down the trail, and you will soon afterwards get to the stone beach. You have to take the right.

Personally I wouldn't venture to swim on the waters of Larano Stone Beach, but it's up to you:


You will keep walking on this stone beach for about 10-20 minutes, until you enter the tricky part of the path. That's the part where you have to proceed using mostly the inner (or upper) edge of the beach, so you distance yourself a bit from the shore. Soft climbing will be needed at some of the points, but the hardest you will ever find is this little stretch:


After it you will actually find the most demanding part of the whole thing, which is a very steep climb. You might want to take a good breath before going for it:


On surmounting it you catch the very first glimpse of your destination. Then you have to go down in the same steep manner. After that you meet your first tiny bit of black sand of the area:


Don't leave your towel there! You have to keep going, and you'll do again a little bit of climbing. Beware if you decide to walk over the watery stones. They are extremely slippery. Take my word for it.

So finally you will encounter the great black mass of sand:


Amazing! Just look at your left:



Your right:


Look all sides for God sake! There's even a beautiful stone in the middle:


You can go for a dive there. The sea is not very dangerous unless there's a storm going on or unless you swim away from the shore. There the undertow can be quite strong.


Otherwise you're good. It's actually a very strong sensation to be in the water contemplating the massive mountains surrounding you:


There's also a cave you can explore further to the right:


This is actually a nice beach for the nudist in you. Probably one of the very few public ones inside Madeira. The maximum amount of people I have ever encountered there on my way in was zero.


So the only way people can spot you is by boat (extremely unlikely) or by using some binoculars all the way up from Levada do Larano:


Okay, so enjoy it as much as you can but remember you should not stay more than one hour after the sea level minimum is reached (G and I column tide timings of Jornal da Madeira). So take one last good look at the sheer beauty of it, and then prepare yourself for the way back.







You should not come after dark unless it is full moon night.

REFERENCE

[1] Lobo, C. e P. Chitas (eds.) (2002) Guia de Praias Visão. Lisbon: ACJ.

DISCLAIMER

You are advised not to take these walks. Don't be stupid, these walks present real life threat, and have resulted in past deaths. You may fall down or you may get lost. Experience them at your own risk. The author assumes no responsibility whatsoever for any injury or loss if you decide to go for one of these.

For policy issues, you're referred you to the interview granted by Rocha da Silva on these matters.

For safety instructions, including some commercially convenient advice like «always be in company of a qualified guide» (oh boy, would I rather take one of these in company of a nice female guide, he he!), you're referred to Blog Thoughts Madeira Safety Precautions list.

4.07.2008

In memoriam Victor Hugo Pt1 - a brief interpretation of the song 'Foi-se Embora' by Tiago Maia as played in the André Fernandes' Quartet

Ouvir!This is a song released in André Fernandes' latest album, and one which I've seen rendered live quite a few times.

One can interpret the lyrics of Foi-se Embora as an account of suicide. This is a frequent subject in pop-rock and alternative music lyrics. Another recent song about the suicide of a friend that I know of is Arcana 1996's Song of Mourning. The thing with Arcana is that they seem to take more of a Catholic approach to suicide, and so the chorus goes something like 'is it really the solution / to all our problems?'.

There are several hints that Jacob's song is an account of suicide in verses like 'para lá de tudo' or 'ninguém pode ir / para onde ele foi' (these I didn't actually find recorded, and are probable artifacts of my subsequent interpretation).

But then one can always ask: is suicide really the solution? A way of solving the puzzle?

One sure way of trying to solve problems in life is by trying to strip all things down. That's probably the hardest thing one ought to do: analyse things, reduce them... or rather expand them to the core.

So Jacob Maia conceived this very simple song with a basic 4/4 beat and plain simple harmonics. It is construed Nirvana style: as bare-bone as can be (it is interesting to hear it played by such advanced players - something which we have already witnessed in projects of André Fernandes like Spill, including In Bloom presented with the voice of Marta Hugon).

It has a kinda chorus, like Nirvana songs have, so you can easily sing and remember it out. It even has a beatiful simple hook you can hum to.

So this is probably the best way to get people thinking about the problem: present things as straight as they are. Things are objects. Life can be an object you can object to, but it is the object of yourself. Of course this last period is only pseudo-philosophical bullshit, so I'd better get things going, and start talking again of real things.

There is a kind of peace emanating from Maia's song. This is a peace you can identify with people who have suffered so much through life that you think they're really better off with the angels. And yes, there's the famous quote presented in Morthound's Spindrift which goes like:

If you've made your peace
Then the Devils are really angels
Freeing you from the Earth

This is a quote taken from an interesting film by Adrian Lyne called Jacob's Ladder which most people seem unable to grasp, including meself. Obviously it was not borne out of the mind of Bruce Joel Rubin, the script writer, but it is a nice quotation of Master Eckhart.

So the last question today is whether suicidal people have made their peace. Catholic accounts say they do not. It is sin.

Is suicide an accomplishment or is it just an escape, like the escapes you have in Levada dos Balcões in case it just gets unbearable?

Well, I don't know. The only thing I know is that I miss my good friend. And I recollect in grievance some moments we had such as the first time we did Levada dos Balcões together: how unbearable it was on the way in and how we achieved that feeling of resolve on the way back. I sure wish we would pass that way again.

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This is the first part of a long series of texts in which I pay tribute to the memory of Victor Hugo, who has decided to depart from us on the summer of 2006.

REQUIESCAT IN PACE

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E um dia
Foi-se embora, foi
Para muito longe, ele foi e foi
Para não voltar, ele foi e foi
Ninguém o viu, foi como foi

Quando partiu
Ninguém esperava
Não se esperava
Que fosse assim

Foi, ele partiu
Ninguém esperava
Nada o esperava
Foi-se e ninguém o viu

[humming]

Para lá de tudo
Foi e foi
Sem nunca olhar para trás
Ele foi

Seguiu [o] caminho, foi para onde foi
Para outro lado, ele foi e foi

Quando partiu
Ninguém esperava
Não se esperava
Que fosse assim

Foi, ele partiu
Ninguém esperava
Nada o esperava
Foi-se e ninguém o viu

E um dia
Foi-se embora, foi
Para muito longe, ele foi e foi
Para não voltar, ele foi e foi
Ninguém o viu, foi como foi

[solo: Fernandes 2:26-3:33]

E um dia
Foi-se embora, foi
Para muito longe, ele foi e foi
Para não voltar, ele foi e foi
Ninguém o viu, foi como foi

[humming]

4.01.2008

Lies Z Truth

Ouvir!I recall Saavedra once had this brilliant idea à propos de la prosodie on April's Fool.

Yes, by now you should have a pretty good idea of how much we care about prosody. The problem with the stuff we do is that it is so binary that you may actually never know whether it's lies or truth. Anyway, most people teach lies as truth, so what?

It's not a problem, it's more of a challenge, and everyone has to be engaged in it in order to manage human communication in everyday life.

And if you think you can't be bothered with such trivialities, then perhaps you should consider suicide. Some have argued that suicide is mostly a problem deriving from human communication (or lack thereof), so there's a hint.

I for one will try to help Saavedra if he ever decides to resume his insightful prospect. Disentangling the trigo do joio has never been an easy task.

3.22.2008

Irlanda do Norte

Já li alguns relatos de mochileiros na Europa com alguma curiosidade, mas nunca havia antes tentado uma aventura dessas. Eu, como o Angelus, prefiro mas o conforto de quartos limpos e fartos desjejuns. Entretanto, achei apropriado experimentar a vida dura de mochileiro na Irlanda do Norte, o país mais pobre do Reino Unido. Aqui o relato há de servir como guia; anotem tudo - atenção.

Primeiro é buscar uma passagem de avião muito baratinha, porque não dá para chegar na Irlanda do Norte de outra maneira. Quer dizer, até dá. Mas aí vai sair bem mais caro e vai tomar muito mais tempo. Ninguém quer nada disso, nem eu nem mochileiros. A Ryanair oferece umas pechinchas imperdíveis. Tipo, se mora o leitor na Escócia, paga oito libras e, porque é nova a rota, vai até o aeroporto - de qualquer parte da Escócia - de graça. Sim, de graça. Ora imaginem que para ir de Edimburgo para Glasgow paga-se muito mais.

Depois é preciso pensar onde ficar. Há umas duas ou três pousadas da juventude em Belfast. Fique na mais barata delas, que há de custar oito libras por noite (atenção - o mesmo valor que pagou para ir e voltar para a / da Irlanda do Norte a partir da Escócia). É um quarto pequeno, escuro, onde se amontoam 11 beliches, ou seja, 22 camas. Os tipos no quarto são estranhos e vários: desde turistas franceses gripados a trabalhadores braçais de sítios mais ao leste. Numa das camas estava uma velhinha estrangeira que falava um inglês muito precário com o possível filho. Nunca cheguei a entender muito bem aquilo, porque se eram estrangeiros e possivelmente parentes, valia mais a pena falar em grego. De madrugada a velhinha vai-se acordar e dizer ao filho (um homem já para lá de seus quarenta anos) que ele devia ir para a escola. "Cale a boca" - dizia o grego em um inglês de quem nunca foi para a escola mesmo. "Você cale a boca" - respondia a velhinha muito irritada, ainda em inglês. Ninguém reclamou dessa conversação às três da madrugada. Os mochileiros devem estar acostumados a todo tipo de vida, ou são simplemente uma categoria muito polida

Esse episódio há de ser à noite. Como hás de chegar em Belfast lá para a hora do almoço, aconselho-te que faças um percurso a pé pelo centro, que é compacto e giro. Aliás, aproveito agora para dizer que achei o centro de Belfast muito mais interessante que o centro de Dublin. Quer dizer, basta ver o movimento em frente à prefeitura e não há de ser difícil chegar à mesma conclusão que cheguei. Quantos jovens ali! Uns tantos. Todos em grupos, conversando não se sabe o quê. Já isso por si só dá uma alegria sem tamanho. Depois, bem à frente da prefeitura, está a Estrada Real, cheia de lojas e mais jovens. Sim, os jovens estão por toda a parte. Sobretudo no Waterfront Hall, que é uma zona curiosíssima. Ali a coisa que se vê em frente à prefeitura é mais séria e muito mais organizada. Os jovens ali são meio barra pesada, mas muito na deles. Se tiver medo, é voltar em direção ao centro. Nessa altura, aconselho-te já a dar uma breve paradinha no tradicional pub The Kitchen Bar e tomar uma Guiness.

A Estrada Real leva até uma praça curiosa, a Writer's Square. Pequenina a praça, cheia de estranhas esculturas e florinhas coloridas. Ali perto está a biblioteca central, um prédio de arquitetura vitoriana imponente. Em termos de arquitetura, Belfast não oferece nada de especial. No entanto, é preciso ver o Crown Bar. Toda a gente vai recomendar o Crown Bar, com sua entrada peculiar de azulejos verdinhos, amarelos e o quê. É obrigatório. Tentei ir lá duas vezes para tomar uma cerveja, mas o lugar está sempre cheio. Muito cheio. Ademais, lá dentro estão todos acompanhados e felizes.

Há um mito vigente (na Escócia pelo menos) de que os irlandeses são muito camaradas, acolhedores, bonacheirões. Aproximam-se com curiosidade dos estrangeiros e oferecem sempre um sorriso. Acreditam em gnomos e fadas. Muitos acreditam também em Deus. Toda a gente sabe que a religião na Irlanda do Norte é um tema delicadíssimo, e eu prefiro cá meter-me com as fadas, que são muito mais fiches. Basta conversar com o John, no pub ao lado da pousada. Ele explica tudo. Não cometa, no entanto, o gravíssimo erro que cometi e, em suas generalizações - ainda que inocentes, chame o John de irlandês. Ele há de virar-se, um bocado ofendido, e replicar: "sou britânico". Por mim, fosse leprechaun, daria na mesma.

Uma dica para o domingo. Acorde-se cedo e finja estar esperando algo no saguão da pousada, como estão uma dezena de outros hóspedes. Preste bem atenção ao que dizem. Se tiver sorte, pode ser um grupo de turistas pronto para embarcar numa dessas centenas de viagens organizados para a Giant's Causeway. Se não tiver nada programado, junte-se a eles. Entre no ônibus como se fosse parte do grupo e vá para a Giant's Causeway de graça - porque um bom mochileiro tem de encontrar alternativas sempre muito baratas para tudo. Quanto mais baratas, melhor. A Giant's Causeway não chega a ser nada que valha o conto, mas é de graça uma experiência espetacular. Depois o ônibus, de quebra, há de fazer uma parada em Derry, cidade cercada por um muro imenso, cuja graça varia de acordo com o sol e a disposição de quem a visita.

O ônibus volta somente ao fim da tarde. Dá tempo de trocar a roupa e ir para a noite de Belfast, que é bastante agitada.

Se sobrar uma manhã, visite a região mais ao sul da cidade, onde fica a universidade. O prédio central da Queen's University é bonito. Ali perto fica o Parque Botânico, que vale uma espiada. Depois, por trás da universidade, está a animada Botanic Avenue, com bares, restaurantes e cafés, barbearias e lojas exotéricas muito instigantes. Teria passado a noite anterior aí, que deve ser muito mais interessante que no centro da cidade. Entretanto, isso há de ficar para uma próxima vez, quando voltar sem mochila.

3.19.2008

There Are So Many - Pt3

Ouvir!Got nothing left to say
It's only words
And what I feel
Won't change

Everything you want
It's too much
It's so heavy
There is no peace

All you want from me
Isn't real
Expectations
So surreal

Lingua on Standard Generative Phonology

Ele Há Tantas - Pt3

Ouvir!Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Transformacionais

Lingua sobre Fonologia Generativa Clássica

3.17.2008

Uma opinião fonológica sobre o Novo Acordo

Ouvir!Como jovem aprendiz de fonologia, que é a arte já bem antiga de compreender e explicitar as relações entre os sons, é natural que as pessoas me perguntem o que é que eu penso da aprovação do novo acordo. Pois vou dizê-lo, então, e vou dizê-lo provavelmente ofendendo uma velha tradição (ou pelo menos uma tradição instalada entre os linguistas no século passado) que é a de que os linguistas são pessoas de índole permissiva, portanto anti-conservadora, e que por natureza toleram tudo. Mas vou dizê-lo com as letras todas: ACHO QUE O NOVO ACORDO É UMA BOA MERDA. E já agora explico porquê.

Falam da unificação da escrita Portugal-Brasil, mas afinal eletrónico e eletrônico vai continuar a escrever-se de modo diferenciado. Ora, se há coisas que de facto fazia sentido mudar na escrita do português, uma delas é com certeza a acentuação das esdrúxulas: devia deixar de existir. Não só isso é uma indesejável marca de diferenciação nas ortografias de Portugal e Brasil, portanto contrária ao espírito de unificação que tanto apregoam, mas é também uma marca completamente espúria face a palavras como pudico, que ninguém no seu perfeito juízo pode acentuar na segunda sílaba, período, que já quase toda a gente do PE deixou de acentuar no i, e rubrica, entre muitas outras, como os célebres casos túlipa e tulipa, alcoolémia e alcoolemia, nomes próprios como Flórida e Florida, und so weiter.

Quer dizer, as coisas que deveriam ter sido subespecificadas na nova escrita (pensando naturalmente subespecificação como uma forma de alcançar neutralizações representacionais desejáveis), com o novo acordo, como essa história das esdrúxulas, afinal continuam a escrever-se de maneira diferente em Portugal e Brasil, e aquelas que são realmente úteis, como o diacrítico trema, que é importante para as pessoas saberem se devem dizer tranq[u]ilo ou não, deixam de existir. Ora bolas!

Já a anterior resolução tinha sido destrutiva no sentido em que acabava com o acento grave de pàdeiro e frèguês, também útil por exemplo para os estrangeiros que agora têm de aprender a nossa língua, e deixava todos esses casos de marcação fonolexical ao critério da consciência e lembrança étimo-morfológica dos nossos falantes.

Agora vêm estes acordadores e põem-se a tirar os cês e os pês das palavras escritas, se as pessoas assim o quiserem, consoante a pronúncia contemplar essas articulações ou não. Bom, se é para termos uma escrita fonética, ou remotamente baseada na fala real das pessoas, então mais vale que palavras como couro passem a ser escritas como coro, visto que ninguém do Norte para baixo lá põe um [u] na pronúncia. E, já agora, mais valia também acabarmos com esta história de escrevermos paço e passo de modo diferenciado, já que também praticamente nenhuma pessoa produz o primeiro com uma sibilante apical. Que se escreva portanto paso independentemente de ser uma coisa do andar ou uma coisa do concelho. Já agora, também não vejo nenhum problema em escrever conselho quer se trate de uma região quer se trate daquelas coisas que nem sempre gostamos de ouvir dos amigos. Quer dizer, só pessoas com uma consciência fonológica muito pouco desenvolvida é que ainda não repararam que o português tem milhares de homógrafos e homófonos. Sim, e entre esses estão aqueles que no passado se puseram a dizer que teriam muitos problemas em escrever cágado como cagado. E aos opositores de uma grafia como paso responderia eu que também já é tempo de se acabar com a distinção entre palavras como vasa e vaza, já que serão igualmente residuais (pensando pelo menos em termos de estatística geral do português em todos os seus continentes) os falantes a produzir uma sibilante apical vozeada.

Eu por mim, que não percebo quase nada de fonologia, acho que na verdade a ortografia poderia muito bem ter ficado mais complexa, e que se poderia ter reposto por exemplo os antigos acentos graves de sòmente e sòzinho. Quer dizer, se a escrita alfabética é por natureza um sistema de representação fonológica que foi evoluindo ao longo dos tempos como forma de explicitação do conhecimento linguístico (e passou a haver espaços para marcar a fronteira entre as palavras, passou a haver diacríticos para marcar proeminências e outras coisas, passou a haver pontuação e parágrafos para estruturar a informação discursiva), então não vejo razão para que não se torne agora mais complexa, numa altura em que já quase toda a gente está alfabetizada (ou pelo menos os índices assim o indicam, independentemente de as pessoas serem
ou não mais letradas).

Ou então, se é para simplificar as coisas ao máximo, que se deixe de escrever os acentos e as cedilhas e essas porcarias todas, como acontece no inglês e passou a acontecer no alemão, e aliás como as operadoras de comunicações em Portugal cedo decidiram fazer, visto que poucas serão as pessoas neste país que conseguirão mandar SMSs com esses obsoletos diacríticos.

Sinceramente sinceramente, e realmente ofende-me um bocado ser conservador neste sentido, não vejo razão nenhuma para deixar de escrever como escrevo. Muitas inovações são boas, e são boas por exemplo porque representam o progresso do conhecimento. Ora, eu não vejo como este novo acordo reflecte as inovações que se têm feito no conhecimento fonológico do português em nada. E se ainda há tão pouco tempo houve tanta gente que se virou contra a TLEBS (muita dela gente que não percebe patavina de gramática ou de linguística, como o RAP e o VGM), que é de facto um documento inovador e que acompanha muitos dos progressos vividos na linguística das últimas décadas, não percebo sinceramente porque é que não há agora uma vaga desse tipo a atacar o novo acordo. E chateia-me ter de concordar com o VGM em relação a isto.

Apregoo, portanto, o aumento dramático dos homónimos do português, que seria a chamada solução radical, ou a complexificação do actual sistema de escrita, tendo em conta a evolução do saber fonológico que entretanto se verificou. Mas prefiro a primeira, de facto, porque poderá vir a facilitar em muito alguns tipos de expressão artística.

E que se unifique, sim, mas de uma forma inteligente e intuitiva. Pois se somos dois e vamos vivendo os nossos dias com isso, dois seremos até prova de que a unificação está conforme as nossas expectativas linguísticas e a nossa inteligência fonológica.

3.07.2008

Meshuggah, obZeno, 5*

Ouvir!Hoje é a data de lançamento oficial do novo álbum dos Meshuggah (maluquice em ídiche, que, como se pode ver por estas semelhanças, é uma língua muito parecida com a nossa), o que para muitos constitui particular motivo de celebração e regozijo. Até pensei ir ao Pingo Doce comprar uma garrafa de Moet & Chandon, e ainda sou bem capaz de fazê-lo. Talvez possa abri-la efusivamente no próximo dia 11, que é a data oficial de lançamento do álbum nos Estados Unidos.

Pois é, pá, não é todos os anos que os rapazes lançam um álbum, nem sequer de dois em dois anos, e muito menos uma coisa deste calibre. Mas afinal de contas, quem é que não é preguiçoso?

Em 2005 haviam-nos dado a sofrível Malha33, que no fundo era a progressão lógica do [ai], que como sabem em inglês tanto pode significar 'olho' como 'eu'. Digo progressão lógica porque de facto não posso dizer muito mais, e não fomos poucos os que ficaram com aquela sensação que já deu um célebre refrão do Sérgio Godinho.

A Malha33 terá, enfim, pelo menos o mérito de ter um grande título, eventualmente o melhor de que os Meshuggah já se lembraram (ah, mas não esqueçamos a Fútil Máquina de Fazer o Pão como versão acústica desse outro hino do metal contemporâneo que dá pelo nome de Fútil Máquina de Fazer Bebés - provavelmente já em 1997 os Meshuggah previam a proliferação destas máquinas de panificação domésticas). Embora aquilo que aqui me traga hoje seja o obZeno, eu não resisto a dizer algumas palavrinhas mais sobre a designação Malha33. É difícil falar disto em português, visto que obviamente se trata de uma brincadeira linguística em torno da expressão americana 'catch 22', expressão que ouvi pela primeira vez da boca do Chuck Shuldiner, esse outro grande guitarrista do metal moderno, que Deus o tenha. Mas a interpretação que eu na altura fiz do título Malha33 dos Meshuggah prendia-se obviamente, por um lado, com a fixação que o Sr. Thordendal (discípulo de Thor, reparem) tem com o número 33 e com o gosto que o grupo em geral alimenta por levar as coisas um passo adiante, e por outro lado com a complicada relação que eles tinham com a editora Nuclear Blast, e que também poderá ter estado na origem de outros títulos desse álbum como o erudito mas igualmente bonito Personae Non Gratae. O título Malha33 encerra uma concepção profunda e que tem tudo a ver com a forma de ser e de estar dos Meshuggah. Assim, se a expressão 'catch22' poderia eventualmente ser traduzida pelo nosso 'preso por ter cão e por não ter', já 'catch33' não terá tradução possível a não ser a pouco mais que aleatória Malha33. E o engraçado é que os Meshuggah, não obstante os títulos, decidiram mesmo renovar contrato pela Nuclear Blast.

E é então com essa chancela que nos chega este obZeno. Como disseram alguns, esta história de brincar com a capitalização dos títulos já os Korn (massaroKa) a têm há muito tempo, e não é para todos os gostos. Mas eu devo dizer que não tenho assim tanto ódio ao chamado metal nouvo, e a verdade é que uma das minhas canções preferidas dos Meshuggah é mesmo a Espasmo, ali com a voz laringalizada do Tomás Haake a marcar muitos pontos sobre a malha minimalista (e que, convenhamos, é massaroKinha chapada) do Sr. Thordendal. Sim, e também não vamos esquecer a grande grande remistura que este fez dos Rammstein, da música que se chama Benzina.

Mas enfim, estaríamos muito longe da verdade se disséssemos que este obZeno é um opúsculo de metal nouvo. Será sem sombra de dúvida novo metal, e conceptualmente estará anos-luz à frente de qualquer obra parida nos últimos tempos sob os auspícios do género. E devo dizer a todos os cépticos que, do ponto de vista técnico (ou teórico, se quiserem, do ponto de vista da teoria musical), será muito fácil provar esta afirmação.

Mas não estamos aqui para embarcar em desinteressantes considerandos teóricos, e a verdade é que até agora ainda ninguém me mandou uma transcrição do solo da Concatenação, não obstante eu oferecer mais de cento e cinquenta euros em troca, pelo que o melhor será falar do valor desta nova obra do Frederico e amigos em termos artísticos. Alguns hão-de espantar-se com as cinco estrelas, hão-de achar demasiado, e eu dou a mão à palmatória àqueles poucos que eventualmente terão o privilégio de conhecer os rapazes da maluquice melhor do eu. Para mim, este é de facto o melhor álbum que eles fizeram desde o Destrói Apaga Melhora.

Não é um salto criativo tão grande como o que deram nesse álbum (que aliás, na prática, havia sido dado do Colapso das Contradições para o Nenhum, a grande semente concentradora do modelo de trashalhada contemporânea dos Meshuggah), e na verdade funciona mais, como os próprios já têm vindo a dizer, como um apanhado dos vários momentos e estilos que eles têm vindo a cultivar desde 1995.

As referências são óbvias: a Combustão é uma composição de thrashalhada linear, com um crescimento guitarrístico superfertilizado, à moda daquelas faixas mais curtas do Destrói Apaga Melhora (e reparem, tem também algumas semelhanças estruturais com a Nem Me Digas Nada, uma canção que sempre apreciei das Faixas Raras). Uma descarga de batimentos-relâmpago (enfim, condesçam, foi a melhor tradução que arranjei para 'blast beat') à moda da Festa do Horror também não teria ficado mal nesta música, mas assim acho que está muito bem. Creio que a única vez que usaram batimentos-relâmpago numa música foi quando fizeram a homenagem aos trinta anos do Frederico, e esses nem saíram das mãos do Tomás.

2. O Vermelho Eléctrico traz à memória a Escamação e a Exótica Maquinaria de Tortura, com um crescimento baseado numa frase de timbalões.

3. A Sangra, enfim, já toda a gente sabe o que é, e nem vale a pena gastarmos tempo em conversas sobre isso. É claramente uma música em relação à qual as palavras não podem expressar muito. Atenção, quem me mandar uma transcrição do solo que o Frederico faz nesta música, entre os índices 4:45 e 5:53, poderá também receber um exemplar original do Sol Negro por Dentro. Mas para tornar a tarefa ainda mais difícil (porque na verdade o que eu quero ver em pauta é o solo da Concatenação), neste caso terão de fazer a transcrição indicando em linhas paralelas o alinhamento do solo com a base rítmica da música, a tal imparável frase de fusas-semicolcheia-fusas. Ah, só preciso que indiquem os batimentos do pedal duplo, não se cansem com as notas dos pratos-de-choque e da tarola. O primeiro ou primeira a enviar-me a transcrição disto ou do solo da Concatenação para o meu correio eléctrico receberá, então, um exemplar original do Sol Negro por Dentro versão três ponto trinta e três, que já todos sabem quanto vale.

4. A Letárgica, como o próprio nome indica, é uma piscadela de olhos aos momentos mais meditativos do Nada: é a Obsidiana chapadinha em todo o seu esplendor negro.

5. O obZeno é como se fosse uma reformatação das Palhinhas Tiradas ao Calhas, mas sem aquela inesquecível catarse final que ainda hoje é capaz de tirar o sono a alguns, e portanto sem grandes elementos que o redimam.

6. Esta Serpente Cheia de Peçonha é uma espécie de mistura entre as cenas que fizeram no Nada e depois na Malha33, mas com um solo mais à moda da Esfera do Caos. Nada de especial.

7. A Óptica da Glande Pineal é um trabalho interessante pelo facto de explorar aqueles rifes industriais que o Frederico tanto gostava de fazer na Esfera do Caos. Tem também um solo curioso, exercido sobre uma base parecida com aquelas bases loucamente sincopadas (oh que saudades!) que eles faziam no [ai].

8. A Pravus é, bem se vê, uma depravação à maneira de algumas cenas que já nos tinham feito na Esfera do Caos, pensando por exemplo na Bocarra que Lambe o que Vós Haveis Sangrado... com o bónus de ter umas frenéticas cordas sujinhas só para enganar os fiéis.

9. E a Dançarinos Dançando sobre um Sistema Discordante já toda a gente conhece, é uma loucura de música que vai buscar as melhores cordas limpas do [ai] e da Malha33 e impinge sobre elas uma descarga total. A resolução estrutural provavelmente não será a melhor (oh, e como poderiam eles conseguir ultrapassar a Sangra?), mas o solo e o dedilhado final à moda do metal negro redimem a cena por completo. Contendo ainda algumas frases a belíssima voz de serpente recitante do Tomás, poder-se-ia dizer que esta música é na verdade uma espécie de compilação dentro da compilação que o obZeno constitui só por si.

De facto a única coisa de que continuo a ter saudades é mesmo de uma malhas supersincopadas como as que ouvimos no [ai] índices 3:35-4:51 e 12:01-14:07. Mas se calhar já estão reservadas para os próximos álbuns. Aí o trabalho da secção rítmica é tão louco tão louco que às vezes até dá vontade de chorar... e fará chorar certamente o aprendiz de baterista que tentar reproduzir ou sequer transcrever a pedalada do Tomás no primeiro dos segmentos.

Lia um dia destes numa destas críticas da internet que os Meshuggah são uma daquelas bandas que ou se ama ou se odeia. Pois eu só tenho pena, agora que anda tanta gente por aí a amar a massaroKa e a Marilina Manson, daqueles que não sentem nada ao ouvir estas colossais paredes de guitarra eléctrica, da mesma maneira que eu antes ouvia uma ópera como a Traviata e não sentia nada.

3.05.2008

Ele Há Tantas - Pt2

Ouvir!Mas é provavelmente por causa do chouriço que encontraremos já tarde da noite muitas peruas entoando este hino pelo Jam adentro e afora. Na verdade, um dos esparsos aspectos que redimem esta música da Vanessa da Mata é o facto de chamar a atenção para um interessante problema conversacional: como é que o pessoal formata as suas derradeiras falas numa relação, isto é, o que é que as pessoas dizem quando querem dizer ao seu interlocutor (ou especificamente ao seu companheiro) que não querem ter mais nenhuma conversa com ele nunca mais?

Trata-se de uma questão já abordada na literatura da especialidade, e que eu volta e meia me ponho a discutir com o meu amigo Michel.

Segundo a Vanessa da Mata, a maneira de dizê-lo em PB é desejando 'boa sorte'. Já no nosso PE, creio que uma das formas comuns de dizê-lo será com um menos assertivo 'espero que sejas muito feliz'.

Mas o que é interessante é que as mulheres portuguesas parecem detestar semelhantes usos para essas expressões. O que se compreende: quer dizer, por um lado encerram um voto de certo modo filantrópico e por outro expressam o desejo de nunca mais se ver aquela pessoa com quem se está a falar. Eu como homem (ou como rapaz, ainda de acordo com a tal menina da TAP) estou convencido de que um igréjio (sic) e cordial 'adeus' bastará na maior parte dos casos, muito obrigado.

Portanto a pergunta que persiste é a seguinte: a que propósito é que a bela da Vanessa me foi escrever uma canção descaracterizada sobre esse assunto?

Pá, realmente não percebo.

There Are So Many - Pt2

Ouvir!But it's probably because of the chouriço that you'll hear so many cougars on a crowded night at Jam singing out this anthem. Actually one of the few redeeming features of this song of Vanessa da Mata is that it draws attention to a somewhat interesting conversational issue: how do people make their absolute terminal speech exchanges, that is, what do they say to a person (or specifically their lover) when they want to verbalize that they do not wish to speak to that person ever again?

This an issue which has received some attention in the literature, and which I have been discussing recently with my good friend Michel.

According to Vanessa da Mata, saying 'boa sorte' is the right way to do it in BP. Now in EP, and this is debatable, I think one way of saying it is 'espero que sejas muito feliz'.

Now the interesting thing is that women usually hate these expressions because obviously they express two very different things: a somewhat philanthropic motto embellishing a disaffected intention of no longer wishing to see the person you're talking to. Personally as a man (or a boy, still according to that TAP hostess), I'm convinced that a cordial and religious 'adeus' will suffice, thank you very much.

So the question that subsists is this: why would Vanessa make an unremarkable song about such usage?

Boy, it sure beats me.

3.04.2008

Maria Dawn and the Literature Scene in Madeira

Ouvir!I recall when I was a boy, and I used to have these (ill-)literate afternoons with my good friend Vítor. We would laugh our rears off making fun of Maria Dawn and some not so eminent youngsters of the Madeira literature scene. Yeah, you know these larger than life pseudo-intellectual teenagers who think because they can pick up a book and read some Dylan Thomas and write a few stanzas they're already better than the whole world. That was who I am.

And while I might still be a boy (at least according to the TAP hostess who checked me in this week), the teen years are long gone, and by now I no longer appreciate in such graphic detail the great tirades of Mr. Mammarella of the mighty Monumentum. The few spiritual catharsis I now have is when I listen to Mr. Thordendal playing the solo in Bleed or Marta Hugon singing River Man.

I still make fun of Maria Dawn though, and me and some friends actually thought of writing together with her a Madeira TV soap opera. It would be the Madeiran answer to the Continental Morangos com Açúcar. And we thought of calling it Tabaibos da Ribanceira.

You can think of it as a juvenile version of the infamous Homens de Passagem which Gatos Fedorentos covered last year.

We already had part of the plot worked out, but of course a lot of it would be changed under the supervision of Maria Dawn. This is probably a good time for thinking about that production, now that everyone is looking forward to seeing what will come of Corte do Norte. I wonder whether this will be a total adaptation of the novel Agustina did, including repeating the scenes just like she accidentally repeats some of the chapters, he he!

But seriously, I've actually come to be grateful for all the work Maria Dawn does in promoting some of the arts and literature that come out of Madeira. And it saddens me that I am no longer up-to-date on the Madeira literature scene as I was as a teenager.

So I paid particular attention when she was on the news last week claiming that the modern stuff by Madeiran writers is mediocre aside for the editions subsidized by the 500 Years of Funchal. Not so bad: turns out I haven't been missing much on this side of the Atlantic.

Which makes me think that we really have to unite our forces and get together for that Tabaibos da Ribanceira feat. I'm sure the 500 Years of Funchal Comission would be more than willing to sponsor such a venture!

2.29.2008

Ele Há Tantas

Ouvir!Pois é, provavelmente a principal diferença entre as pessoas é que umas pessoas estão normalmente erradas ao passo que outras estarão erradas quase sempre. Sim, porque só por uma questão estatística não o podemos estar sempre. E, enquanto eu explicitamente me enquadrarei no segundo grupo, devo acrescentar à lista mais uns quantos.

Então não é que a bela da Vanessa da Mata tem esta música com o Bernardo Harpista alegando que há tantas pessoas especiais no mundo? Ah é? Bom, o que vale é ter pensamentos positivos!

Eu por mim seguiria mais a linha dos XPTO e diria, para começar, que "é chouriço".

There Are So Many

Ouvir!Right, I guess the main difference between people is that some are normally wrong whereas others will be wrong almost all the time. Yeah, because of course statistically we could never be wrong all the time. Obviously I fit the second group, and here I'll be pointing some names which should be dragged there too.

Turns out the beautiful and fresh Vanessa da Mata has this song with Benny Harper claiming that there are so many special people in the world. Right! Well, it's good there are people with such a great vibe though.

Or maybe it's more like XPTO claim in the beginning of their cover: "it's chouriço".

2.27.2008

Before the Devil Knows You're Dead

No novo filme do Sidney Lumet, Before the Devil Knows You're Dead, a Marisa Tomei faz o papel de uma brasileira. Uma brasileira como deve ser: morena, boazuda, casada com um americano gordo, feio, velho e nojento - o qual inevitavelmente trai. Vi o filme com alguma curiosidade, mas não pude deixar de me questionar a cada instante: o que terá levado os produtores do filme a escolher a Marisa Tomei? Terá sido o fato de não terem encontrado uma atriz brasileira que pudesse fazer o papel? É verdade, a Sônia Braga já não tem idade para essas coisas, depois de ter representado umas quantas putas em Hollywood. E essas moças todas tão bonitas que fazem parte da nova geração de atrizes brasileiras? Nenhuma delas teria talento para fazer um filme comercial norte-americano? Ou, talvez, inglês fluente? Ah, duvido. É possível que não tenham o green-card (coisa que a Marisa Tomei já deve ter há muito tempo). Mas por que a Tomei? Por que ela? A certa altura do filme, o marido gordo, feio, velho e nojento da Tomei promete que vai para o Brasil, sim. A Tomei duvida. Duvida até que o homem sequer saiba a língua que se fala no Brasil (a despeito de estarem casados há mais de 15 anos no filme). O homem, para provar que é inteligente, responde na hora: português. Estaria aí a pista, a justificativa enfim para a presença da Tomei naquele filme? Teriam escolhido a Tomei por conta da língua? Claro, era isso! A meio de um filme tão sério quanto quer ser, não pude deixar de rir. Quer dizer, esses americanos em Hollywood não têm mesmo noção de nada. Talvez tenham julgado que a Marisa Tomei convenceria um (improvável) público exigente por conta do... sotaque. Afinal, quem fala português - independentemente da variedade - deve ter o mesmo sotaque quando está falando inglês. E por aí caminham em erro as generalizações.

Aqui há dias conversava com um amigo meu acerca do perigo por trás da inocente pergunta: "de onde você é?" - comumente feita nos mais variados contextos em um primeiro mundo tão cheio de estrangeiros. Eu geralmente respondo "do Brasil", para logo em seguida ouvir algo do tipo "cool". Deve ser por conta do carnaval, eu não sei. Ou do futebol. Ou então por conta das mulatas gostosas, das praias tropicais, da música axé. Quase de imediato começo a ver em mim tarjas: eu sou brasileiro e tudo aquilo que um brasileiro representa para o comum dos cidadãos europeus. Malandro. Bom de bola. De ginga. Preguiçoso. Bom de cama. Desonesto. Festivo. Extrovertido. Impolido. Provável imigrante ilegal. Não é à toa que os oficiais de imigração sempre me param cheios de desconfiança. Olham para mim, para o passaporte, para mim de novo, para a foto no passaporte, para a capa do passaporte, para cada folha no passaporte. E as pessoas na fila atrás começam a ficar ensimesmadas, naturalmente. Porque há ainda o fato de serem os passaportes brasileiros dos mais falsificados do mundo e de termos muitos de nós, como o Jean Charles de Menezes, as feições dos beligerantes árabes. Um árabe em aeroporto é sempre um perigo em potencial. Em estações de trem também. Às vezes penso o que haveria de ser se respondesse aos inocentes curiosos de cá que sou do Afeganistão. Sairiam correndo? Um dia eu experimento... O certo é que, a despeito de tudo isso, estamos aí. Aqui. A brasileira no filme do Lumet sonha em voltar para o Brasil, qual Iracema numa música do Chico Buarque. Talvez, enfim, seja isso que nós os brasileiros somos, afinal: um povo necessariamente em diáspora. Aqui, ali. Buscando o paraíso antes que o diabo saiba que estamos mortos.

2.22.2008

Porque deveis vós amar o Frederico Thordendal?

Ouvir!Porque ele é um génio da guitarra eléctrica contemporânea. Porque, além disso, tem cara de extraterrestre, e porta-se como se estivesse bem ciente desse facto.

Mas, essencialmente, porque, de cada vez que faz um solo, consegue traduzir um pouco dessa beleza alienígena para sons humanamente inteligíveis e trazer-nos algo acerca de que, conceptualizando num daqueles chavões chatos e mal batidos, se poderia dizer que nos faz rir por dentro. Sim, porque se nos fizer rir por fora enquanto vamos no metro a curtir o solo da Z1-Reticulados com uns Zen-nheiser HD 25-1, então o pessoal vai pensar que marámos de vez e que nos tornámos iguais a ele.

Este amigo declarado do ácido lisérgico é dono de uma sensibilidade musical sem par. Como diriam alguns, ele tem ouvido. Mais do que isso, tem dois, e usa-os de modo singularmente original para tocar viola, produzir os álbuns dos outros e dar uns toques de bateria.

Veja-se o já celebérrimo solo que ele produz na Dançarinos Dançando ao Som de um Sistema Discordante, iniciado no índice 6:29 da faixa e culminado na malha-mãe da música, índice 7:29. Esta música, justiça lhe seja feita, é um autêntico hino do metal contemporâneo. Enfim, já tínhamos tido as catarses finais das Palhinhas Tiradas ao Acaso e o resultado da Soma, a apoteose final da Malha33, mas nada nos havia preparado para isto.

Bom, e o que dizer da malha inicial da mesma música, com aquela frenética frasezinha por sobre as etéreas esparsas cordas limpas que ele tem vindo a aperfeiçoar desde o Destrói Apaga Melhora?

Mas acima de tudo agradam-me muito as malhas dançantes do Sr. Frederico. Como poderemos nós esquecer esse solo, de 1997 mas ainda revolucionário pelos padrões guitarrísticos de hoje em dia, que dá pelo nome de Baloiçando num Poço sem Fundo?

Mas nem é preciso ir tão longe. Ouçam-me só os primeiros dez segundos da Combustão. Dizer que este gajo tem 'groove' (inglês para crescimento) será apenas um desajeitado eufemismo.

Que dizer então da Sangra? Sim, já conhecíamos estas guitarras esgalhadas do Cazares e companhia da Fábrica do Medo, estilo aliás que devem ter ido beber originalmente do Frederico fase Nenhum (não se esqueçam, meus amigos, que a Desmanufactura só saiu em 1995, ao passo que o Nenhum já era de 1994). Mas criar toda uma estrutura melódica complexa em cima de uma frenética e imparável (sete minutos!) base semicolcheia-fusas-
semicolcheia, isso já é uma história completamente diferente! É o crescimento da Fábrica do Medo elevado ao cubo.

Será outrossim uma estúpida perda de tempo querer comparar o trabalho do Frederico ao de qualquer outro guitarrista vivo ou defunto da cena do peso, tirando eventualmente o Ronaldo Jarzombeque, que por vezes se emaranha tanto nas suas elucubrações teóricas que aquilo passa a ter uma piada do caraças. Sim, o Frederico é um dos mais iluminados discípulos holdsworthianos, não haja dúvida, e com o grande mérito de ter vindo trazer ao metal essa herança que o Shawn Estrada soube levar a outras paragens.

Mas o solo do Frederico que me deixou mais banzado até hoje, apesar de só ter vinte e seis segundos, é o que ele faz na Concatenação. Não consegui transcrever nem sequer o que o baterista está a fazer nesses compassos, não obstante tratar-se de um aparentemente normal 4/4. E desafio qualquer um(a) a apresentar-me uma transcrição em pauta devidamente fundamentada do solo que ele faz com a guitarra eléctrica durante esses vinte e seis segundos.

Pagarei então ao primeiro, ou primeira, que me enviar por correio electrónico essa transcrição com um exemplar original do Sol Negro por Dentro versão três ponto trinta e três, que, vejam bem, neste momento está avaliado em mais de cento e cinquenta euros.

Enquanto não o fizerdes, amai, pois, o esplendor guitarrístico do Frederico e dissecai de ponta a ponta as inovadoras técnicas de controlo com que ele nos tem vindo a presentear nos seus trabalhos.

2.21.2008

Spit & Run!

Se tomar um ônibus no condado de Fife com a intenção de cuspir o mal-humorado motorista e sair correndo, atenção: todos andam armados com um kit da genética mais avançada para, a partir de uma gotícula da nojenta saliva, identificar o vândalo e talvez localizá-lo, sei lá, por radar. É a tecnologia a favor dos motoristas de ônibus e contra o anonimato do irado cidadão comum. O Reino Unido orgulha-se de ter o maior número de câmeras instaladas em lugares públicos no mundo. Cada passo que se dá na ilha é monitorado e registrado. O Orwell, além de bom escritor, foi profeta.

Outro dia, um escândalo. Distintos senhores ingleses foram condenados por atos obscenos em banheiro público. Desavisados, não sabiam que, enquanto as esposas cozinhavam em casa inocentes pudins de rim, estavam sendo filmados fazendo aquilo que não podiam fazer com as prendadas mulheres! Quer dizer, os senhores julgavam - com alguma razão - que estariam ali mijando na mais inacessível privacidade. Vêm uns guardiões da moral e dos costumes que julgam bons e filmam tudo às escondidas? Então sexo em lugar público é ilegal mas invasão de privacidade não é? Tudo isso faz-me lembrar aquela canção que o Raul Seixas compôs Para Nóia: "vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro, com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo vendo fazer tudo que se faz dentro dum banheiro". Mas o Raul Seixas falava de Deus, um ser temerosamente onipresente.

Eu já ando pelas ruas desconfiado. Olho para prédios, árvores: tenho a certeza de que me estão me viajando e isso me assombra. Não que esteja pronto para cometer um crime na próxima esquina. Entretanto, o fato de estar sendo vigiado por um ser onipresente (quiçá onipotente também) faz-me pensar que já não há nenhuma vantagem em ser ateu! Uma das características da paranóia é mesmo essa: a idéia de que se está sendo perseguido. Essas câmeras escondidas podem nos pôr a todos paranóicos, porque nunca haveremos de saber se estamos sendo perseguidos de fato ou não. E a vontade mesmo é de cometer um ato vândalo, para ao menos justificar a existência das câmeras, o dinheiro gasto para instalá-las e mantê-las em funcionamento. Portanto, da próxima vez que vir uma câmera de circuito fechado, não pense duas vezes: cuspa. E corra.