10.19.2009

Ser Feliz É Para Se Conseguir O Quê?

Caríssimo Manuel,

Pois é exatamente assim. Para início de conversa, agora estou morto. Porque se estivesse, dava na mesma. O frio, lá fora, o frio: um frio que nem um café di roma, nada. Mas há de ser uma dessas ondas que vêm do norte. Os eskimós têm tantos nomes para coisas que desconhecemos. Como deve ser morar num igloo, Manuel?

[Eu nunca pensei que a Ella Fitzgerald tivesse alguma vez gravado You´ve Got A Friend. É ela quem está cantando agora, a propósito de nada. Pelo menos tenho a música, e a Ella Fitzgerald].

Não queira saber porque não fui à tal academia travar conversa com quem não me inspira absolutamente nada. Eu não/ A pena não me interessa. É por isso que desci e fui comprar um pacote de comida congelada e um vinho, um bom vinho de mesa. Não quero, não vou, não quero. Tem uma música do Cartola assim, mais ou menos assim, eu acho.

Como eu disse no início, agora estou morto. É favor não mandar flores, porque elas só me interessariam antes disso. Nunca recebi flores e não vai ser a propósito disso que eu vá querer/ O hiato pode ter sugerido mesmo alguma coisa, mas de nada serviu, a não se para constatar que o dia pode/ o dia arrasta-se quando queremos apenas que chegue o sábado, por uma razão que desconheço.

Lembro-me bem do episódio em sala de aula, quando a professora terminou a história com o implacável foram felizes para sempre. E depois, o que é que se consegue quando se fica feliz? A professora, é claro, não queria acreditar: não ouvi muito bem... O que vem depois? Depois que se é feliz? O que acontece? Que idéia! A professora ajeitava o cabelo, pensava numa saída. Repita a pergunta com outras palavras. Eu, obstinado: ser feliz é para se conseguir o quê? A professora então ficou vermelha. Nunca percebi muito bem porque enrubescia assim, sem propósito. Na hora do recreio, chamou-me à parte. Miguel, o que quer ser quando for grande? Não sei, disse-lhe. E ela corou mais uma vez. Eu tive uma idéia. Escreva num pedaço de papel a pergunta que me fez hoje e guarde-o por muito tempo. Quando for grande, abra, leia. Quem sabe? Talvez um dia você mesmo possa respondê-la... Perdeu o ar sério, corou. Ou... Ou ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com... Não, interrompi, incrédulo de estar tendo aquela conversa. Não o quê? A professora parecia assustada. Não gosto de me divertir. Ela então ficou rosada mais uma vez e mandou-me de volta ao folguedo. Quando eu já estava a meio do caminho, chamou-me de novo e, dessa vez corada até o pescoço, os olhos baixos, remexendo papéis sobre a mesa: você não achou... engraçado eu mandar você escrever a pergunta para guardar? Não, respondi e voltei ao parque.

Um abraço.

Lisboa, 23 de Outubro de 2002, 11:45h

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