10.27.2009

Não Sou Eu

Querida Maria de Fátima,

Quando abri a janela, olhei estupefacto para as coisas, sob a manhã cheia de sol, como se elas estivessem loucas. Todos os dias tenho acordado com os gritos das crianças daqui ao lado. É uma escola, uma creche, nunca percebi esse pátio de piso vermelho. O curioso é que o número de crianças que vejo através da cortina diáfana não justifica o barulho que sempre me desperta, como um desses relógios precisos e frios. Não há nada mais aborrecido do que ser acordado assim, sem trégua.

Eu tenho essa idéia desde sempre. Lembro-me particularmente do cachorro que me acordava todos os dias, quando eu morava com a Maria. Eu saía da cama tão ensadecido que prometia jogar veneno. Depois foi um passarinho. Quis comprar um bodoque. Acontece que no decorrer do dia, esquecia-me quão desagradável tinha sido o despertar, e todos os planos homicidas eram desfeitos. Até a manhã seguinte.

Ora, quando se tem, afinal, uma Smith&Wesson modelo 15, calibre .38, de ação dupla, com capacidade de 6 tiros e miras ajustáveis, a coisa muda um bocadinho de figura. O James apresentou-me o Carlos, e a arma saiu por um preço bastante acessível. Não me parece ser nova, mas se estamos lidando com a ilegalidade, também não tenho autorização para porte de arma.

Há aqui perto da Freguesia de Nossa Senhora de Fátima um desses lugares que só se conhece através de gente como o Carlos. Os caras te ensinam o que é preciso saber, tipo como segurar a arma: é uma extensão de teu braço, como num filme. O importante é que lá tem aqueles corredores escuros em que podemos praticar tiro ao alvo. Uma hora por sessão é suficiente. Pago, escondo a arma, e saio com a sensação de inevitabilidade.

O sangue que sai dali pode ser de que cor? Em que quantidade? A bala entra e perfura o que exatamente? Queima? Deixa a pele chamuscada? Na cabeça, ouvi dizer, ainda tem o cérebro que se espalha em pequenos pedaços vermelho-acizentados por toda a parte. E depois? Se é na cabeça, quanto tempo até a morte? Tempo suficiente para falar? Onde produz a menor sujeira sendo, ao mesmo tempo, eficaz, rápido? Eles respondem com o fastio de quem embrulha pães. Sabem tudo, não olham pra tua cara, porque têm a certeza do que vais fazer. Mas já habituados, não olham.

Existem coisas que precisam ficar adormecidas, e aquelas criancinhas ali fora gritam pra caralho. A Smith&Wesson fica na cabeceira, num armário muito pequeno, quase escondido, ao lado da cama. Hoje, quando acordei e olhei através da cortina, tive a certeza de que não sou eu. As criancinhas ficam para depois. Primeiro vai ser o Tiago.

Beijos.

Lisboa, 27 de Outubro de 2002, 18:33h

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