8.13.2009

O Vinho de Volta

O propósito do Infante D. Henrique ao enviar navios à Sicília, na Itália e à Ilha de Creta, na Grécia, logo após o início da colonização da Madeira, foi o de obter para Portugal o comércio de açúcar, por um lado, e, por outro, o de vinhos doces, que até então tinha sido privilégio dos genoveses e venezianos. Como o clima e o solo da recém-descoberta ilha pareciam propícios para a plantação de determinadas castas nobres usadas no fabrico do vinho doce, o Infante decidiu entrar na concorrência com os italianos, sob os auspícios da Inglaterra. Primeiro vieram cepas de malvasia. Mais tarde plantaram-se outras castas: sercial, boal e verdelho. Todas com bastante sucesso.

A produção de vinho na ilha da Madeira começou então a ser feita em larga escala, de forma a atender não apenas o mercado inglês, mas também o de outras terras. Embora a exportação, em geral, fosse bastante bem-sucedida, nem todo o produto final era necessariamente vendido. Muitas das naus que se dirigiam para Oriente repletas de vinho, regressavam ao Funchal intactas. Notou-se então que algo de curioso acontecia com os vinhos que regressavam dessas empreitadas desafortunadas: por conta das altas temperatura a que eram submetidos durante a viagem, o processo de envelhecimento dava-se de maneira suave, o que resultava num vinho com uma qualidade muito superior. Este vinho, que passou a ser conhecido como "Vinho de Volta" ou de "Roda da Índia" ou simplesmente "Vinho de Roda" ou ainda "Vinho de Torna Viagem", passou a ser disputado no comércio, e eram comercializados a peso de ouro. Essa é a origem do hoje célebre Vinho Madeira.

Célebre, célebre. O vinho era tão apreciado no Século XV, que chegou a ser usado como perfume para os lenços das damas da corte. Pois não foi o Falstaff, ademais, que, na peça "Henrique IV" de Shakespeare, vendeu a alma ao diabo em troca de um pedaço de capão frio e um cálice de "madeira"? Contam ainda que em nos idos de 1478, o Duque de Clarence, da Inglaterra, tendo sido condenado à pena capital pela Câmara Alta, e tendo se lhe dado à escolha o gênero de morte que preferia ter, acabou optando por afogar-se num tonel de vinho madeira, o que efetivamente ocorreu.

Tudo isso serve para dizer que se não saímos naquela noite de terça-feira, como havíamos combinado, foi por uma causa nobre. Como estivesse muito tarde, e a música fosse tão boa, resolvemos que ficaríamos em casa mesmo. Mas a verdadeira razão para a mudança de planos foi mesmo o vinho madeira. Angelus decidiu abrir uma das garrafas de safra especial que guardava na adega para que eu conhecesse o sabor autêntico da bebida. Conversávamos sobre o passado e acabamos por abrir uns álbuns de fotografia antigos. As histórias que estavam associadas a algumas daquelas fotos eram contadas ora com desinteresse, ora com renovada alegria. Em pouco tempo, era como se eu o conhecesse já há pelo menos vinte anos.

Depois da terceira ou quarta rodada de madeira, o assunto, que tinha percorrido os caminhos da literatura, da crítica de arte, da música, das trivialidades e da culinária, tomou outro rumo. Evidentemente que ele se propunha a encontrar possíveis respostas para questões pouco novas, mas eu não me importava em tentar seguir os seus passos. Quando cheguei à conclusão de que talvez fosse bom pararmos por ali, Angelus já estava vomitando pelas escadas...

Fui levá-lo ao quarto. «Tens a certeza de que estás bem?» Ele olhava para mim, lívido, envergonhado. «Eu posso ficar aqui um pouco, se quiseres.» Permanecia calado. Nesse momento, olhei para o quarto com atenção, pela segunda vez desde que chegara ali. Os livros, os objetos, as roupas espalhadas pelo chão, os sapatos, a bolsa suspeita... «Queres que eu saia?» Sem tirar os olhos da parede, respondeu, quase entredentes: «Prefiro.» Fechei a porta com cuidado, sem dizer palavra.

Talvez tenha sido esse espisódio que justificou aquilo que eu faria a seguir.

8.12.2009

O Bailinho da Madeira

Na descida do Pico do Areeiro há um famoso bar chamado Meio, onde fazem a não menos célebre misturada. Paramos e cada um de nós serviu-se de uma porção. Estava fresco o dia lá fora, e havia névoa naquela zona. Pedro explicava a razão do nome do bar: antes da construção da Via Azul, aquela estrada era quase a única opção para quem quisesse se deslocar do norte para o sul da Madeira. Como aquele ponto ficasse quase ao meio do caminho, e o percurso era bastante mais longo, as pessoas costumavam parar ali para descansar. Em se considerando a relativa altitude do lugar, o clima em geral era mais para o fresco durante todo o ano. Daí a razão da misturada: metade poncha, metade café. Ora, quem prefere a poncha pura, não precisa ir mais longe. Mas a misturada vinha mesmo a propósito. Afinal, era suposto que as pessoas depois se sentissem sóbrias o suficiente para voltar à estrada. A misturada só pode mesmo ser encontrada em toda a ilha ali, no Meio. Já a poncha não.

A poncha, uma bebida associada no passado aos pescadores, homens das montanhas e outros ilhéus que tais, é hoje tão popular na Madeira quanto os bordados e o bolo de mel, sobre os quais não intenciono falar. A receita é muito simples: pegue uma boa medida de aguardente de cana sacarina, junte-lhe mel também de cana e sumo de limão. Misture bem com o pauzinho apropriado, chamado pau-da-poncha, que se faz rolar, rapidamente, entre as palmas das mãos, e já está! Obviamente o resultado pode variar de acordo com a mão que rola o pau. Há também medidas exatas para tudo, e isso é um fator determinante para o resultado final da bebida. A melhor poncha que tomei na Madeira foi mesmo a que Pedro fez. Mas se lá o Pedro não estiver, pode-se ir também à Câmara de Lobos, onde se faz, para além da poncha tradicional, excelente, uma série de variantes, entre as quais a poncha de absinto, cuja história a ela associada logo se saberá.

Esperamos que a conversa entre Angelus e o tal homem de cabelos longos, branco, ainda mais branco que Pedro, barbas ainda mais longas que os cabelos e tatuagens por todo o lado, enfim, chegasse a um termo. E partimos para Machico.

Antes é preciso dizer que existe no caminho entre o Pico do Areeiro e o tal bar onde paramos para a misturada uma casinha de pedra muito parecida com um iglu. Em tempos passados, aquela casinha era usada para armazenar neve! Como não existisse na Madeira energia elétrica, e muito menos refrigeradores, dali vinha todo o gelo que precisassem no hospital para manter certos medicamentos conservados durante o verão. Eu achei essa uma história tão engraçada!...

Quando saímos de casa em direção a Machico já era perto das dez da noite. Tínhamos usado o resto da tarde para fazer algumas fotografias, ali mesmo em casa do Angelus. Pedro, sempre pontual, chegou na hora que prometera, e lá fomos experimentar o gaiado na Feira Gastronómica de Machico.

Há quem prefira atribuir o nome daquele concelho de cerca 11.916 habitantes a um outro episódio talvez menos curioso. Trata-se da história de amor entre um pobre porém gracioso inglês chamado Machim e uma bela porém nobre donzela chamada Ana d’Arfet. Os pais, obviamente, descobrem tudo e, ainda mais obviamente, impedem que se vejam. Um casamento é então arranjado às pressas para a menina Ana. Machim planeja uma fuga para a França. Embarcam os dois num navio de mercadores, o qual naufraga sob uma tempestade e vai, à deriva, parar numa terra desconhecida, toda coberta de arvoredo, mas desabitada. Viveram uns poucos dias muito felizes naquela ilha, sem nunca terem topado com São Brandão ou com Landon, o terrível dragão de cem cabeças que, naquela altura, ainda não tinha sido derrotado por Jorge. Mas Ana, afeitas aos luxos da corte, morre em pouco tempo, o que deixa Machim completamente transtornado. Enterra o corpo de sua amada num vale muito frondoso da ilha e dali não sai. Com o passar do tempo, a chuva, o frio, o vento, a fome, o sol, o dia, a noite, Machim acaba por morrer. Teria sido o próprio João Gonçalves Zarco, o tal português que é considerado, juntamente com o Tristão Vaz Teixeira, o descobridor do Arquipélago da Madeira, que primeiro encontrou o túmulo onde jazia os dois amantes, e o relato da história tal como se conta aqui foi mesmo originado a partir dos pertences que revelariam a origem dos corpos. A palavra Machico é pois uma corruptela do nome do jovem inglês apaixonado.

A Feira Gastronómica de Machico tem ser tornado, gradualmente, um evento de grande porte na ilha. É para lá onde vão os habitantes sem opções numa noite de terça-feira em princípios de agosto. Embora esse não fosse o nosso caso (estávamos ali porque era mesmo caminho para o aeroporto), a visita mostrou-se de relativo interesse. Entre raparigas usando roupinhas de domingo, e rapazes fingindo desinteresse, havia também apresentações folclóricas, como o Bailinho da Madeira, tradicional manifestação de rua onde, vestidos de trajes coloridos, um grupo de pessoas canta e dança ao som do brinquinho.

O brinquinho é na realidade um conjunto de sete bonecos de pano e traje regional, portadores de castanholas e fitilhos, dispostos nas extremidade duma cana da roca, em duas séries circulares e de diâmetro desigual, uma com quatro e outra com três daqueles fantoches. Este acessório musical, animado de movimentos verticais à mão do seu portador, serve a bater compasso aos bailadores. (Na realidade, o brinquinho não é de origem madeirense e foi introduzido na ilha há menos de um século, sendo instrumento do folclore continental português e um dos mais típicos das romarias do Minho e Douro, onde se chama charola ou cana de bonecos. Ora, quem não conhece a canção? Milho verde, milho verde, ai milho verde, milho verde, ai milho verde miudinho; à sombra do milho verde, ai à sombra do milho verde, ai namorei um rapazinho...)

Mas o propósito de ir a Machico naquela altura é mesmo o de comer qualquer coisa, afinal. E opções é o que não falta: tem a sopa de trigo, a sopa de couve, a sopa de moganga, o cuscuz, o bife de atum com milho frito, o milho cozido com chicharos, ou espada ou atum fritos, o polvo de escabeche, a tripa de porco recheada, o gaiado seco, o gaiado de escabeche, o atum de escabeche, as lapas grelhadas e as lapas de escabeche, entre outros petiscos. Optamos pelo gaiado seco, especialidade do local, e o polvo de escabeche, muito bom. O gaiado, cujo nome científico é Thynnus pelamys, é um peixe da família Escombrida e é consumido geralmente depois de salgado e seco ao sol. Tem um sabor bastante acentuado, mas cai bem com a boa cerveja Coral.

Tia Eva e Sara desembarcavam às 11:45, de sorte que devíamos nos apressar. Quando lá chegamos ao aeroporto, elas já nos aguardavam na sala de recepção. Sara parecia bastante cansada, Tia Eva parecia somente melancólica. Angelus queria saber se apetecia a Sara sair logo mais à noite, e ela nem se deu ao trabalho de responder. Pedro nos deixou em casa e seguiu adiante, com as duas. Sara nunca olhou para trás, e até hoje vive muito bem.

8.11.2009

Machico

Na época em que D. Afonso Henriques andava a conquistar as terras portuguesas aos mouros, havia um nobre chamado D. João Froiaz, que vivia no Minho, num belo castelo ao pé do mar. Certa manhã partiu com os seus homens para a caça, como habitualmente fazia. Dirigiu-se para a foz de um ribeiro, na esperança de aí encontrar algum veado a matar a sede. Mas o que viu deixou-o espantado: no ponto onde as águas do mar e do rio se encontravam estava uma linda sereia, de cabelos soltos e mal coberta por um vestido de algas. Dormia tranquilamente, gozando o sossego da manhã, com a cabeça apoiada nas plantas da margem.

D. Froiaz estava decidido a apanhá-la e por isso mandou os seus homens pararem. Com pezinhos de lã dirigiu-se para a mulher, mas ela deu pela sua presença e desatou a correr para o mar. Não chegou a tempo, pois o cavaleiro agarrou-a antes. Ela esbracejava e debatia-se, mas nem uma palavra dizia. O fidalgo levou-a para o seu castelo, apaixonou-se por ela, baptizou-a com o nome de Marinha e desposou-a. Com medo que ela fugisse para o mar, levou-a para outro castelo nas montanhas, onde tiveram vários filhos.

D. Marinha, apesar da evidente afeição que tinha pelas crianças, andava sempre a suspirar com as saudades do mar. Embora o seu marido a tratasse com muito carinho e a rodeasse com delicadezas e cuidados, ela continuava a não falar. O silêncio da mulher enchia D. Froiaz de desgosto. Um dia, então, armou uma grande fogueira, pegou no filho mais novo e fingiu que o arremessava para o lume. A mãe, numa grande angústia, gritou, tentando impedir o marido: «Ai, o meu filho!». D. Froiaz, eufórico, entregou-lhe a criança e disse que tudo tinha sido um estratagema para que ela falasse. Depois disto D. Marinha ficou totalmente humana, e por isso puderam voltar para o castelo à beira-mar. Aí os filhos, os Marinhos, ocupavam grande parte do seu tempo na praia a explorar grutas e reentrâncias da costa ou a nadar pelo mar dentro.

Uma vez D. Froiaz deixou escapar por distracção o filho mais novo, que trepou a uma rocha e foi levado por uma onda, que o arrastou para longe da praia. Louco de aflição, o pai já se preparava para se atirar à água, embora não soubesse nadar, quando uma coisa extraordinária aconteceu: o mar acalmou de súbito e uma onda enorme, como uma grande mão, veio depor a criança suavemente sobre a areia.

Quanto mais cresciam mais se notava que os filhos de D. Froiaz e D. Marinha eram netos do Mar: escutavam as histórias do oceano nos grandes búzios que apanhavam na praia, ouviam e falavam com as ondas, conheciam os segredos do mar como ninguém. E, quando cresceram, ganharam fama de serem os melhores mareantes do seu tempo.

O mais novo dos Marinhos, Machico, ouvira falar das ilhas encantadas e de que numa delas encontrara São Brandão o paraíso. Aprestou uma barca de mantimentos e aparelhos e partiu com alguns companheiros. Quatro ou cinco dias depois de seguir pela rota que lhe haviam ensinado viu no horizonte nuvens que pousavam sobre o mar, sinal de terra próxima. Quanto mais se aproximavam, mais a névoa se adensava e ouviam-se estrondos enormes. Os marinheiros, cheios de medo, pensaram que ali era a entrada para o Inferno e pediram a Machico que voltasse para trás.

Mas de súbito, o nevoeiro descerrou-se e viu-se um espectáculo belíssimo: as rochas erguiam-se a pique sobre o mar; bosques de grandes e belas árvores desciam até à água; mais adiante estendiam-se montes que pareciam não acabar e um suave perfume espalhava-se no ar. Machico, perante o esplendor da ilha, convenceu-se que tinha chegado ao paraíso de São Brandão e, como a terra era toda coberta de florestas, chamou-lhe a Ilha da Madeira.

8.10.2009

O Pico Ruivo

Quando chegamos ao Pico Ruivo, as nuvens estavam, afinal, abaixo de nós. Durante todo o percurso, feito a partir da Achada do Teixeira, estávamos entretanto no meio do nevoeiro. Era no mínimo invulgar ver aquele mar nebuloso sob as nossas mãos. Não tinha sido difícil o trajeto até ali, de sorte que estávamos mesmo ansiosos para partir em direção ao Pico do Areeiro, a nossa meta. Em geral, o percurso é feito a partir do Pico do Areeiro, o segundo mais alto da ilha, até o Pico Ruivo, mas resolvemos fazer o caminho contrário, que, de acordo Angelus, é mais fácil.

Começamos por uma vereda sempre a descer, permeada por uma álea de urzes molares. As urzes, que podem atingir até três metros de altura depois de várias centenas de anos, engalfinham-se umas às outras, criando um cenário ao mesmo tempo poético e intimidante. Em pouco tempo, estaríamos novamente entrando no nevoeiro. A trilha também começaria a ficar mais difícil e arriscada. Havia precipícios por todo o lado. A certa altura, perguntei se passaríamos mesmo por aquele caminho estreito e absolutamente sem proteção logo ali adiante. Angelus olhou para mim com uma expressão quase sombria, quase trocista, à guisa de resposta.

À medida que descíamos, o cenário tornava-se mais e mais lôbrego. O sol estava sempre escondido por trás do nevoeiro. A vegetação mudava significativamente. É na Madeira onde se encontra a maior área de Laurissilva do mundo, com cerca de 15.000 hectares, considerada como Patrimônio Mundial da UNESCO. Entre as variadas espécies exóticas da flora local, uma das mais bonitas talvez seja mesmo a Echium candicans, vulgarmente conhecida como massaroco. As flores lilases dessa planta, que só aparecem no fim da primavera e princípio do verão, são de uma beleza nada trivial. Estávamos já na metade do caminho quando resolvemos comer qualquer coisa. Eram os sanduíches que a Tia Valentina tinha preparado tão gentilmente.

É preciso nesse ponto do relato dizer que Tia Valentina conhecera o Genaro quando em viagem a São Miguel. Ela, que na época morava em Barcelona e trabalhava numa loja de velas decorativas, ficou imediatamente apaixonada pela conversa despropositada, casual e, no entanto, arrebatadora do ítalo-chino-macaense, e assim não houve como escapar: o casamento se deu em menos de cinco meses. Entrementes, Tio Genaro abandonou o doutoramento em Engenharia Florestal, vendeu tudo o que tinha nos Açores e aceitou a proposta de Tia Valentina, que era morar na antiga casa dos pais dela, em São Jorge. Isso tudo quer significar que são, para mim, um dos casais mais felizes que jamais encontrei. Portanto tiveram o maior prazer em nos acolher novamente por mais uma noite, e ficaram ainda mais contentes em poder nos levar até a Achada do Teixeira, o nosso ponto de partida.

Explicados os sanduíches, voltemos agora à escarpada onde havíamos parado para almoçar. «Hoje à noite vamos ao aeroporto buscar a minha Tia Eva e a Sara.» Então eu ia, afinal, conhecê-las. «E depois podíamos fazer qualquer coisa. O que pensa?» Eu achava tudo ótimo. «A Felippa telefonou.» Talvez devêssemos retomar a caminhada? «Quer saber se gostaríamos de ir vê-la cantar amanhã à noite.» Eu achava tudo ótimo, mas talvez devêssemos retomar a caminhada. A bruma estava adiante, esperando o desafio.

Quando chegamos ao pico do Gato, com os seus 1780 metros de altitude, eu já estava cansado, e pedi que parássemos um pouco. Não faltava muito para alcançarmos o Areeiro, onde Pedro nos estaria esperando. Conversamos bastante durante todo o trajeto, e Angelus, muito experiente nesses percursos, teve paciência de me esperar, cuidado para indicar onde eu devia pisar, apreensão com a minha evidente vertigem. Acho que se não tivéssemos tido aquele debate linguístico no restaurante, pouco depois, no Pico do Areeiro, enquanto aguardávamos Pedro, o dia teria tido um remate muito mais simpático. O fato é que Angelus resolveu que não esperaria mais, e saiu andando pela estrada, descendo o Pico como quem quer fugir de uma discussão sem propósito. Obviamente não poderíamos ir muito mais adiante, porque o nevoeiro avançava à medida que descíamos, e isso incorria no perigo de sermos atropelados. Portanto paramos ao pé da estrada até que o Pedro aparecesse.

8.09.2009

O Jardim do Mar

Júlio Cortesão, escritor e historiador português do Século XVII, reuniu, numa pequena obra intitulada Romança da Ilha Encantada, crônicas baseadas em fatos históricos acerca do Arquipélago da Madeira. É nesse livro onde se encontra o relato de como São Brandão, um monge irlandês que viveu no Século VI, desembarcou pela primeira vez na Madeira, juntamente com outros setenta e cinco monges, já naquele mesmo Século VI. A fonte de tal episódio é, nas palavras de Cortesão, o livro autobiográfico Vita Sancti Brandani Abbatis, Navigatio Sancti Brandani, cujo único exemplar se encontrava na Biblioteca Nacional de Daomé, antes do incêndio criminoso de 1679 que destruiu por completo o seu acervo.

De acordo com o relato de Cortesão, São Brandão, idealista e visionário, teria se lançado numa aventura marítima com o propósito de encontrar o paraíso terrestre. Apanhado numa tempestade, fora levado por ventos misteriosos até abordar uma das ilhas do Arquipélago, na qual ficava, enfim, o éden. Lá teria escrito o seu livro de memórias, que, jogado ao mar em uma pequena embarcação aquando de sua morte (sobre a qual se falará mais adiante), fora parar em mãos de um pescador beninês.

Acordei naquela segunda-feira com a música do Lully mais alta do que o habitual. Levei algum tempo até me aprontar. Olhava as caixas no topo da estante como quem busca uma resposta para a morte de São Brandão. O livro de memórias, queimado com a Biblioteca de Daomé, jamais teria sido mencionado em outra obra que não na do historiador português. Angelus apareceu de súbito, perguntando se eu tinha alguma intenção de descer para o pequeno almoço. Tentei disfarçar o embaraço da curiosidade, e disse que já estava descendo.

Naquele dia iríamos dar uma volta pela região costeira sudoeste da Ilha, do Funchal até São Vicente. A primeira parada seria na Ribeira Brava. O entusiasmo de Angelus do sábado aparentemente tinha-se esvanecido. Era provável que a noite do dia anterior pudesse explicar aquela renovada indisposição, mas preferi abster-me de fazer qualquer tipo de comentário. Não nos demoramos na Ribeira Brava. O próximo ponto seria o Pico do Sol, assim chamado por ser a zona da Madeira onde o sol costuma incidir durante o maior número de horas. Há imensos turistas na área costeira. A praia costuma ser bastante apreciada por conta da temperatura da água do mar e da fraca ondulação. A seguir, paramos em Calheta, que é o maior concelho da Ilha.

Possuindo um conjunto de elementos paisagísticos peculiares, nomeadamente a Floresta Laurisilva, o Planalto do Paul da Serra, Rabaçal, e uma vasta extensão de orla marítima, o Concelho de Calheta ocupa uma área total de cerca de 116 km2. Está composto por oito freguesias: Arco da Velha, Calheta, Estreito da Calheta, Jardim do Mar, Paul do Mar, Prazeres, Fajã de Ovelha e Ponta do Pargo. Foi na freguesia de Jardim do Mar onde paramos para uma sessão de fotografias. Angelus sempre busca escombros. Eu regularmente fujo deles. Enquanto Angelus entretinha-se naquele celeiro abandonado, fui ao cemitério. Alguém na vila devia ter morrido há poucos dias, mas o túmulo – um amontoado de terra tão-somente – não revelava quem teria sido. Observei que havia uma certa regularidade naquilo: poucos não deixavam de ser anônimos ali.

Em seguida dirigimo-nos para Prazeres, onde almoçamos num requintado hotel muitíssimo escondido. Lá, Angelus ensaiou uma conversa sobre a Paula, que procurei acompanhar com bastante interesse. Acho que eu talvez estivesse fazendo demasiado esforço para procurar ser solícito, e isso definitivamente não funciona. Acabamos discordando num ponto, que foi encerrado com a conta. Partimos em direção às Achadas da Cruz, passando pela belíssima região de Fajã da Ovelha. Há também nessa freguesia uma rocha equilibrada que, segundo a tradição, se encontra protegida por Santo Amaro para não cair sobre o Paul do Mar. Não sei bem ao certo porque não chegamos a ir ao Paul do Mar. Entretanto, três dias depois, estivemos todos no Paul da Serra, tendo sido esse um dos melhores passeios que fiz na Madeira. Há de se saber porquê.

No meio do caminho, paramos em uma pastelaria para comer um doce típico daquela região, cujo nome esqueci. Tivemos de esperar cerca de dez minutos para que alguém aparecesse no balcão e nos atendesse. Nada de muito especial. O próximo ponto seria mesmo Porto Moniz, a zona mais a Noroeste da ilha, onde tomaríamos banho nas piscinas naturais, formadas a partir de rochas vulcânicas. Antes de lá chegarmos, paramos o carro no meio da estrada, num ponto onde podíamos ter uma belíssima visão da zona balneária de Porto Moniz.

É preciso fazer um parêntese bastante significativo aqui para dizer que a Madeira produz uma banana muitíssimo famosa no continente, por seu sabor bastante delicado e peculiar. É ligeiramente curva, tem casca fina, amarelo-clara, e polpa branca. É extremamente aromática. Não tive, durante os nove dias em que permaneci na ilha, uma única oportunidade de provar a tal famosa banana. Ali, no meio da estrada, enquanto eu pensava em coisas bana(na)is que tal, como quando, enfim, iria provar a tal famosa fruta, Angelus olhava sempre para um ponto incerto, pensando provavelmente em algo muito mais profundo.

Descemos, enfim, e descobri uma região bastante diferente das demais. Percebe-se, logo de pronto, que a freguesia tem sido constantemente modificada em função do turismo, já pela arquitetura irregular. Mas o nosso propósito era mesmo o de tomar banho nas piscinas naturais. Então seguimos para o complexo balneário, que, apesar da hora relativamente avançada, ainda estava bem cheio. Todavia, valeu mesmo a pena visitá-lo. O mar estava agradável, embora não tenhamos passado muito tempo lá dentro. Como já estivesse ficando tarde, resolvemos seguir para São Vicente, onde paramos brevemente para um café, ou o que quer que se assemelhe a isso. A pequena povoação de São Vicente, ao norte da Madeira, é bastante simpática e agradável. Um passeio que merece ser feito mais demoradamente.

Entretanto a hora ia avançada, de sorte que resolvemos pegar a estrada de volta para o Funchal. Uma viagem que durou cerca de quarenta minutos, feitos em absoluto silêncio. Uma ou outra vez eu olhava para a estrada, mas os meus pensamentos ora estavam na primeira noite, aquela primeira noite no Funchal, ora nas caixas amontoadas no topo da estante do quarto em que eu dormia, ora na conversa que tivemos eu e o Angelus no hotel em Prazeres, ora na história de São Brandão, ora nas flores do Jardim do Mar. Terá sido Públio Siro quem propôs que ninguém pode fugir ao amor e à morte?

8.08.2009

A Igreja de São Jorge

Quando acordei, metade do domingo já se tinha ido, e isso definitivamente me aborreceu. Ouvi um ruído distante de vozes, como numa festa que se organiza. No terraço, estavam todos reunidos, com música, mesa posta, alguma bebida e os pedaços de carne dispostos num prato para a célebre espetada madeirense. O que torna a espetada madeirense peculiar é mesmo o espeto: um pau de louro, devidamente cortado, que serve para perfumar e dar gosto à carne. Temperada unicamente com sal grosso, a carne é grelhada em fogueira sobre um toro grande em brasa. Tradicionalmente, a espetada é para ser comida em pé, ao redor da fogueira, sem garfo nem faca. Acompanha o não menos conhecido bolo de caco, também chamado em algumas zonas da ilha bolo de pedra: um tipo de pão bastante simples cozido em chapa de pedra escaldante. Pedro foi chamado para preparar a espetada, por sua fama de sempre saber o ponto certo em que a carne deve ser retirada da fogueira. Tio Genaro parecia muito contente. Tia Valentina corria de um canto a outro, o avental sempre entre as mãos: por que não comíamos nada? Que não olhassem o Sebastião, que ele tinha lá umas manias. Que comessem, por favor.

Depois do almoço, organizaram-se para um passeio. Como eu estivesse bastante cansado, decidi ficar. Todos acharam estranho que eu, o turista, não quisesse ir ver as redondezas, mas não procurei dar mais justificativas. Na verdade, o que queria mesmo era ir à igreja, desacompanhado. Pouco depois de terem saído, um tanto desconfiados, um quanto ressabiados, fui ao jardim, descansar mais um pouco. Quando resolvi dirigir-me, afinal, à igreja, já passava das cinco da tarde. Ainda assim, é possível ver o Porto Santo, lá adiante.

A Igreja de São Jorge é considerada um dos mais belos templos da Madeira. Situa-se no sítio da Achada Grande e é considerada o melhor exemplo de arquitectura barroca do espaço rural madeirense, patente no estilo rococó dos armários e do mesão. No seu interior sobressai um crucifixo pendurado no pescoço do corpo de Cristo que, com um metro de altura, é considerado uma das mais belas esculturas em madeira da Ilha. Entretanto, não foi por aquela razão estética que eu passei o resto da tarde sentado num daqueles bancos pesados, escutando, lá dentro, em algum lugar esconso da igreja, o ensaio de beatas, um ensaio desafinado, difícil de ir adiante.

Em tempos que já lá vão, um rapaz muito muito jovem, ao entrar na Igreja de São Jorge, cruzou o seu olhar com os olhos de uma jovem muito muito bonita, por quem ficou imediatamente apaixonado. Na semana seguinte, os olhares voltaram a se encontrar na missa dominical. Desta vez o rapaz evidenciou que desejava a jovem rapariga. Como é uma verdade universalmente aceita que um rapariga solteira sem dotes de nenhuma espécie deve estar precisando de um marido, a jovem beata anuiu aos sentimentos do rapaz. Depois do consentimento dos respectivos familiares, ambos passaram a se encontrar com regularidade. Como estivesse profundamente apaixonado, o jovem procurava aproveitar todo o tempo disponível para estar ao lado de sua escolhida, que, por falta de opção, não se incomodava de lhe fazer companhia. Ocorre que, com o passar dos dias, a mãe do rapaz foi-se eximindo de alimentar o filho, porque julgava que este era bem servido em casa da sua amada. Com pensamento similar, a mãe da noiva também não reservava qualquer tipo de refeição para o infeliz que, de dia para dia, ia definhando. Progressivamente o seu desfalecimento aumentava sem ninguém perceber qual a verdadeira razão. Dizem que a cada primavera nasce, em sua campa, uma única camélia.

Antes de voltarmos para o Funchal, ainda passamos muito rapidamente pelo Miradouro do Pico, pelos Miradouro e Achada da Vigia, pelo Miradouro da Boca das Voltas e pelo Miradouro das Cabanas. Já por aquela altura, eu estava mesmo cansado. Todas as coisas estão cheias de cansaço; ninguém o pode exprimir: os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que tem sido, isso é o que há de ser; e o que se tem feito, isso se tornará a fazer. No Funchal, recusei o convite de ir ao Monge. Fui para a cama por volta das dez e meia.

8.07.2009

Rútila Vermelhidão

Wie ein Liegender so steht er; ganz/ hingehalten von dem großen Willen./ Weitentrückt wie Mütter, wenn sie stillen,/ und in sich gebunden wie ein Kranz. A música era bastante alta para que eu pudesse ouvir o que eles estavam conversando na frente. Julguei que estivessem discutindo, mas não pude perceber nada. O carro ia mais rápido do que eu imaginei poder ser capaz naquelas curvas acentuadas, à noite. Paramos num posto de gasolina, a meio do caminho, e aproveitei para ir ao banheiro. Há sempre uma discussão na hora de pagar o combustível; dessa vez eu preferi me ausentar.

Santana, que foi recentemente elevada à categoria de cidade, está situada na costa nordeste da Madeira, entre o Calhau de S. Jorge e a Ponta do Vigário. Disposta na sucessão de montanhas entre a agreste cordilheira central e o Mar do Norte, a cidade possui uma área de 17,8 km2 , e é habitada por cerca de 4.500 pessoas. No primeiro fim-de-semana de agosto, todos os anos, a cidade abriga a famosa Festa do Santíssimo, organizada pela Câmara Municipal, com o apoio de toda a população. Entre folguedos populares e apresentações públicas, é possível nessa ocasião saborear pratos típicos locais, como as lapas grelhadas regadas com manteiga e sumo de limão, e a carne da noite.

Começamos o Angelus e eu por uma espiga de milho cozida. Sebastião não comia nada, nem parecia ter apetite. Sendo vegetariano, pouco parecia lhe agradar ali, ademais. Nem mesmo as massarocas cozidas, para as quais olhava com desdém e fastio. Depois foi a vez das lapas, que são um tipo de molusco gastrópode marinho. Vêm dispostas na mesma assadeira, ainda frigindo de quentes. Acompanham cerveja e um bom cesto de pão. Para colaborar com a visível impaciência de Sebastião, resolvemos pedir a carne da noite, com mais cerveja. Então passamos a circular pelas ruas, parando num ou noutro ponto para mais cerveja. Sebastião ficou todo excitado, deu pulinhos de alegria e bateu palmas quando viu os carrinhos automatizados. Queríamos uma volta? Queríamos, por favor.

Mas não nos restava muito por fazer ali, e havíamos apenas começado. A proposta foi que seguíssemos procurando bares abertos no Concelho. Voltamos então para São Jorge. O carro aceleradíssimo, a música ainda mais alta. Und die Pfeile kommen: jetzt und jetzt/ und als sprängen sie aus seinen Lenden,/ eisern bebend mit den freien Enden./ Doch er lächelt dunkel, unverletzt.

Naquela tarde, tínhamos ido com o Tio Genaro para ver a Pedra do Segredo, uma enorme rocha equilibrada que, segundo acreditam, inclina-se um pouco a cada dia. Quando na vila de São Jorge alguém quer provar coragem desmedida, sobe no topo da Pedra do Segredo. Pouco abaixo, há um precipício estarrecedor, e o mar. Dali seguimos novamente para a Praia do Calhau de S. Jorge. Dessa vez, como o mar estivesse muito frio, somente Angelus teve coragem de tomar banho, primeiro no mar, depois na água doce que atrai muitas famílias no verão.

Paramos num bar sonolento, e pedimos cada um uma vodka com Brisa Ananás. E antes que entrássemos no clima do bar, voltamos para o carro. Angelus então teve a idéia de ir à Foz da Ribeira do Faial, uma enseada que fica na Freguesia do Faial, também em Santana. A noite estava bastante agradável. Há ali um bar com gente o tempo inteiro, e música e dança para quem se arrisque. A visão da enseada à noite é mesmo espetacular. Conta-se que uma aurora boreal, ocorrida a 20 de Janeiro de 1957, deixou estupefactos os que ali na enseada se encontravam. Uma semi-elipse de rútila vermelhidão fixou-se, repentinamente, no céu. Como que impelida pelo vento, a mancha de tons púrpura deslocou-se lentamente na direção Norte Leste, durante meia hora... Muito pouco aconteceu naquela noite.

Voltamos para o carro cantando a última música que tínhamos ouvido no bar; já era quase dia. Estávamos mesmo bastante cansados. A viagem de volta foi feita em silêncio absoluto, exceto pela música, alta. Einmal nur wird seine Trauer groß,/ und die Augen liegen schmerzlich bloß,/ bis sie etwas leugnen, wie Geringes,/ und als liessen sie verächtlich los/ die Vernichter eines schönen Dinges. Quando chegamos, o sol já enchia o corredor dos quartos com a luz vermelha da porta daquela sala sempre fechada. Eu fui dormir lembrando os versos de Rainer Maria Rilke: Num só passo a tristeza sobrevém/ e em seus olhos desnudos se detém,/ até que a neguem, como bagatela,/ e como se poupassem com desdém/ os destrutores de uma coisa bela.

8.06.2009

A Lagoa do Cais

«Hoje vamos à lagoa do cais», ele anunciou entre uma ameixa e outra. «A lagoa do cais?», quis saber Tia Valentina, quase assustada, um tanto quanto incrédula, o açucareiro na mão. «Não brinques com aquilo, ó Angelus», disse ela depois do breve silêncio esperado. Sebastião riu disfarçadamente. Tio Genaro fechou a cara sobrecenho. Fiquei sem saber ao certo a quem ou em função de que o gesto de reproche. Eu comia umas broas de canela cheio de vergonha. O que queria dizer o espanto de Tia Valentina?

«Não te esqueças dos calções de banho», Angelus gritou quando me viu subindo as escadas em direção ao quarto. O tom era de súbita alegria. Continuei a subir agora cheio de ânimo. No meio do corredor, parei ofuscado com a luz que vinha da última sala, sempre fechada. É que por trás da porta que dava acesso à sala, havia uma janela que estava posicionada para o nascente, de sorte que a luz toda do sol era refletida nos vidros encarnados que ornamentavam a porta. Aquela tinha sido a casa dos avós de Angelus; era uma casa antiga, muito antiga, cheia de móveis pesados, cortinas minuciosamente bordadas, quadros com fotografias de outros tempos pendurados nas paredes. Ali, por exemplo, perto do meu quarto, estava uma fotografia de família: os avós, os tios, Sebastião, a tia, a prima, Angelus e um braço de criança que se recusa a aparecer em fotografias. Eu não pude deixar de rir ao ver a cara de Angelus há provavelmente dezessete anos atrás.

Chegamos ao Calhau por volta das dez. Estava um dia ensolarado. Angelus tirava fotografias de tempo a tempo. Sebastião seguia a frente com a segurança de quem conhece o caminho. Eu uma ou outra vez fazia perguntas, com medo do silêncio. Angelus respondia desinteressadamente. Sebastião ria a cada resposta.

Para chegar à lagoa do cais, é necessário percorrer uma trilha bastante perigosa. Perigosa sobretudo porque há rochas caindo com frequência. Então é preciso seguir sempre em frente, com a esperança de que não vai ser agora. Como tenho certa vertigem, procurei olhar para o chão todo o tempo, e não para o precipício ao lado. Depois, é preciso subir uma corda quase apodrecida de tão velha, e seguir o percurso numas tábuas desajeitadamente enfiadas nas rochas. Penso que essa seja a razão de haver tão pouca gente, quase ninguém na lagoa. Ou talvez o fato de o acesso continuar difícil seja mesmo para impedir – ou ao menos dificultar – a visita de estranhos. Em todo caso, lá estávamos, enfim, ao pé da lagoa do cais.

Segundo a tradição oral dos moradores de São Jorge, a lagoa do cais dá passagem para os medonhos abismos subterrâneos. Lá habitam seres jamais sonhados, encantamentos, tesouros e o próprio tinhoso. Há notícias de quem tenha se arriscado tomar banho naquelas águas e jamais ter voltado para contar o que viu. Angelus foi o primeiro a tirar a roupa. Só estávamos os três ali, e aparentemente não chegaria mais ninguém, muito embora fosse um sábado. Sebastião ria de uma forma debochada.

O primeiro a entrar na água foi mesmo o Angelus. Não hesitou: deu um salto e desapareceu por uns instantes. Ficamos os dois, eu e o Sebastião, olhando. Quando ele voltou à superfície, ria como se tivesse visto lá de dentro a minha cara de preocupação. Subiu as rochas e postou-se ao sol, calado. Então o Sebastião olhou para mim, como quem pergunta: «vai?» Eu fiz um gesto: «faça o favor». Ele então tirou a única peça de roupa que lhe restava, e mergulhou sabendo o que sucederia.

8.05.2009

Sebastião

A viagem do Funchal para São Jorge leva aproximadamente uma hora e um quarto. É um caminho agradável, mesmo durante a noite. A impressão que se tem é a de que estamos sempre percorrendo a borda da ilha. Há subidas e descidas sinuosas, e mesmo sendo o Angelus um motorista bastante experiente, devo confessar que procurei não olhar a estrada, temendo os precipícios. Na verdade, eu estava absolutamente concentrado no que ele dizia. Falava quase sem interrupção. Às vezes parava apenas como que para buscar a palavra certa. Tudo o que ele dizia tinha mesmo a ver com o que eu já desconfiava, e estava relacionado aos acontecimentos daquele final de tarde.

Chegamos à vila por volta da meia-noite, e o tio do Angelus estava nos esperando à porta. Além dele, somente havia mais duas outras pessoas nas ruas. A freguesia de São Jorge conta com apenas 2.170 habitantes, numa área de 18,3 km2. Está situada no extremo norte da Madeira, junto da Ponta de S. Jorge. A sua criação oficial remonta ao ano de 1517. O núcleo primitivo da freguesia era no sítio do Calhau, sobre o qual se falará dentro em breve. Ali, junto à foz da Ribeira, instituiu-se uma capela no final do séc. XV, quase destruída por um aluvião em 1660. Mas o nome da freguesia só foi estabelecido por volta do segundo quartel do século XVIII , quando da construção de uma capela consagrada a São Jorge.

Conta a lenda que Landon, o temível dragão de cem cabeças, habitava aquela região, causando pânico em toda a gente. O pânico explicava-se pelo fato de estar a fera sempre e progressivamente mais faminta. Não havia o que lhe bastasse: comia o rebanho, a piara, a pandilha inteira da região. Na falta disso, começou a comer o pomar, hortaliças, a flora, alfobre... Então passou a comer a terra (quem olha para a região a partir da praia do Calhau, não tem muita dúvida de que um dragão faminto passou por ali). Com medo de ver a ilha por inteiro desaparecer, os poucos habitantes daquela sítio reuniram-se em conselho e decidiram que uma vez por mês uma virgem seria sacrificada. Sabiam que essa era a única maneira de amainar a fome de Landon. Uma virgem era comida suficiente para um dragão sentir-se saciado por aproximadamente um mês. E assim foi até acabaram-se todas as virgens. Ora, aqui havia um grande dilema: ou tentavam enganar o dragão, ofertando-lhe uma mulher qualquer local, ou viam-se forçados a assistir o desaparecer da ilha aos bocados. Não era um dilema assim muito simples de ser resolvido, como aparenta. Por uma lado, é sabido que os dragões que possuem um número de cabeça superior a trinta e sete não comem seres humanos. Aqueles que têm noventa e nove cabeças ou mais, o fazem, mas com a seguinte condição: precisam ser mulheres e virgens. Por outro lado, sabe-se também que um dragão feroz pode usar todas as bocas que possuem simultaneamente (em geral, só comem com uma específica). Até ali, não havia registro de que um dragão fosse capaz de saber de fato se uma mulher era virgem ou não, portanto era um risco. Se enfurecessem o dragão com tal engodo, podiam ver a ilha desaparecer sob os seus olhos em pouquíssimo tempo. Foi então que Jorge, um moço muito moço, lindo, de cabelos longos e vermelhos como o fogo, que geralmente assistia aquelas reuniões muito calado, fez a seguinte proposta: ele seria ofertado. Muita gente riu. Alguns sequer o levaram em consideração. Mas Jorge insistiu: ele seria ofertado. Ocorre que na falta de outra opção (nenhuma mulher da vila estava seriamente interessada em servir de petisco ao dragão), resolveram aceitar a proposta do rapaz. Já agora tanto fazia se o risco fosse uma mentira ou outra. Jorge, que, embora aparentasse, não era mulher, era virgem. Então que o dragão fosse ludibriado pelo sexo.

Naquela noite, Jorge postou-se sobre a rocha do sacrifício ao pé do Calhau, trajando um longo vestido branco, como era o costume no ritual de oblação. Fechou os olhos, e esperou, pacientemente. Não tinha medo, porque sabia exatamente o que estava fazendo. Ao ouvir o urro de Landon, sabia que a hora havia chegado. Procurou ficar imóvel. De súbito, o silêncio. Quando sentiu o bafo morno da respiração do dragão a cheirar-lhe os cabelos dispostos sob a rocha, abriu os olhos, e, dirigindo-se à lua cheia, chamou Kalki, o cavalo branco. Numa fração de tempo, Jorge, que para alguns era, na verdade, a última encarnação de Vishnu, estava montado em seu cavalo, com uma enorme espada de fogo na mão. O resto da história é conhecido. Contam que o sangue derramado de Landon deu origem ao famoso dragoeiro (Dracaena draco), típico da ilha da Madeira. Data dessa época a construção da igreja naquela parte da ilha, e a mudança de nome da região, que antes chamava-se Lagina.

São Tiago é muitas vezes tomado por ser, de fato, a última encarnação de Vishnu, mas essa é outra história. Para agora, vale a pena dizer que a sopa de legumes com uma espiga de milho metida ao meio estava mesmo muito boa. A Tia Valentina iria revelar-se uma cozinheira digna de loas e louvores durante os dois dias que passamos na ilha. Depois, Genaro nos convidou para um café no único bar da região que ainda estava aberto. «Vai descer agora, oh Sebastião?», gritou em direção à escada. Enquanto desfazíamos a mesa, e Genaro procurava uma camisa mais adequada para a noite fresca, pude ouvir os passos mansos de Sebastião descendo a escada. Eram passos de quem vinha mais por obrigação, mas com uma pontinha de curiosidade: uns passos de gato de barriga cheia.

Sebastião sorriu muito desajeitadamente, coçou as costas, e, ainda sorrindo, estendeu a mão: «Sebastião», disse, numa voz de contra-tenor. Eu retribui o sorriso e apertei a mão longa, branca, delicada e quase bastante frágil dele. «Vamos?», perguntou desinteressadamente. Saímos em silêncio. Angelus ia ao meu lado. Tio Genaro parecia querer perguntar qualquer coisa a Angelus, mas não encontrava a forma mais adequada de fazê-lo. Sebastião ia à frente, chutando pedras.

O bar estava vazio. Nós os três pedimos uma imperial cada. Sebastião queria um refrigerante de tomates. Tio Genaro, uma curiosa mistura de chinês com italiano, nascido em Macau e vivido nos Açores até encontrar Valentina e conhecer a Madeira, fazia perguntas simpáticas sobre o Brasil. Ria bastante, ensaiava umas piadas e perguntava de tempo a tempo o que eu estava achando da ilha. Sebastião, obviamente alheio a tudo, levantou e escolheu uma música no Jukebox. Era curiosamente o Tim Maia cantando, todo feliz, Não Quero Dinheiro. Enquanto ele dançava segurando o Jukebox, levantando os braços, numa maneira inusitadamente sensual, Tio Genaro continuava com as perguntas. Angelus tomava a imperial, provavelmente arrependido do que tinha me dito naquela noite. Eu escutava Tio Genaro, Tim Maia, mas olhava ora para Angelus, ora para Sebastião, ora para Angelus. Quando a música acabou, Sebastião voltou à mesa e pediu mais um refrigerante de tomate. Aproveitamos a oportunidade para uma outra rodada de imperial.

8.04.2009

Descendo

A Madeira, bem como outras ilhas que jamais chegaram a ser descobertas (a Antília, por exemplo, ou a Ilha das Sete Cidades, ou as Satanazes, ou ainda as Cassitérides), já estava representada em mapas do século XIV, a exemplo o de Dulcert. É curioso ainda observar que já em 1370, ou seja, quase cinquenta anos antes de Zarco e Tristão terem desembarcado por acidente em Porto Santo, a ilha da Madeira aparece no Atlas Medici com o nome de "Legname" (que, em italiano, quer dizer "madeira"). Pouco depois, em 1375, o Arquipélago completo é representado no Planisfério de Cresques. Ou seja, muito antes de já sonharem ter descoberto o Brasil, os portugueses aparentemente jamais teriam descoberto a Madeira.

O dia estava absolutamente convidativo. Ao contrário do céu de Lisboa, há quase sempre nuvens por sobre o Funchal. Isso, todavia, não amedronta ou causa suspeitas: vai ser um dia ensolarado. Saímos de casa por volta das dez e meia, descendo sempre. As ruas são bastante íngremes, e em pouco tempo descer pode ser uma das atividades mais cansativas de que se tem notícia. Angelus ia à frente, sempre bastante calado. Levava uma bolsa com a máquina fotográfica e dois ou três livros suspeitíssimos. E há também o protetor solar, sem o qual não estava autorizado a sair no verão. Muito a propósito, precisava parar ali naquele miradouro para poder reforçar a dose. O sol estava mesmo muito quente.

Há quem prefira ser frontal, mesmo que isso implique desastres inevitáveis. Não tem aquela música do Gonzaga Jr., uma que diz ser a verdade boa como um sol desvirginando a madrugada? Há quem prefira escolher um miradouro e dizer, enfim, a verdade. Enquanto Angelus estava esquecido na monotonia de proteger-se contra o sol, eu lia os rabiscos tão bonitos que a Sofia, da Sétima-B, havia escrito para o seu professor Almiro. Almiro, o professor de matemática, muito comovido com o fato de ter uma aluna apaixonada assim por ele, mas responsável o suficiente para levar o filho asmático ao hospital pelo menos duas ou três vezes por mês, jamais teria lido os rabiscos. E a Sofia acabou casando com o J. Pinto Fernandes, que agora está na história.

A nossa primeira visita eminentemente turística seria ao Forte de São Tiago. Antes, porém, quero tirar uma foto daquele homem ali olhando o mar, perto do Complexo da Barreirinha. É preciso, nesse relato, em algum ponto dele, discutir o uso apropriado da imagem, mas para isso, precisava também discutir o uso das palavras, e, sobretudo, o ato de tornar públicas experiências que podem ser consideradas exclusivamente privadas. Mas levando-se em conta que a ética tem sido reinventada, e que nao tenho o mínimo entusiasmo para me deter em questões secundárias que tais, fui em frente e tirei a foto. Talvez tenha sido a última foto daquele homem. Não tenho dúvidas: ele se suicidaria naquele mesmo dia.

O Forte de São Tiago é uma construção militar do início do Século XVII que hoje abriga o Museu de Arte Contemporânea da cidade. O que quer que isso venha a significar, a visita é muita mais válida pela construção em si do que necessariamente pelas obras ali expostas. Na verdade, há sim alguma coisa de interesse, mas está tudo tão desajeitadamente disposto que torna-se uma tarefa quase desencorajante procurar apreciar o que seja. Angelus consegue fazer com que um grupo de vassouras dispostas em um ângulo côncavo, sob determinada perspectiva, ganhe uma dimensão absolutamente genial. Eu pensei que talvez tivesse gostado mais quando da ocasião em que o forte abrigou uma exposição de ferramentas usadas em torturas.

Daí, seguimos deambulando, parando em algumas lojas, entrando num e noutro ponto, enfim, essas coisas. A visita à Feira Popular foi interessante. O peixe-espada preto, para quem nunca viu, pode parecer assustador. As frutas, entre elas a fruta-deliciosa e a anona, soam quase tentadoras. Mas nos apetecia mesmo beber algo. E paramos na Praça do Anfiteatro para tomar um refrigerante. Foi aí que conheci o Brisa Maracujá, que merece um capítulo nesse relato. Sobre o Brisa Maracujá, não há muito que ser dito, há mais que ser tomado. É para mim o melhor refrigerante do mundo, desse. O fato de ser unicamente comercializado na Madeira torna a ilha ainda mais especial para mim. Um dia quero morar na Madeira, e talvez verifique com maior segurança o que eu desde o início suspeitei: São Brandão estava absolutamente correto em descrever aquela região como o possível paraíso terrestre.

O passeio teve de ser concluído subitamente logo após à visita ao curioso Museu da Fotografia, com um telefonema urgente de Pedro. Precisávamos voltar para casa naquele exato instante.

Há evidências bastante significativas de que Atlântida estava localizada exatamente entre os arquipélagos da Madeira e dos Açores.

8.03.2009

A Linguagem Esquecida

Se não disse nada sobre o Funchal é porque aquela minha primeira introdução à cidade não foi de fato uma introdução à cidade. Quero dizer, o propósito daquela primeira noite não foi muito bem o de conhecer a cidade. Teria sido, mas acabou por ser algo secundário. No entanto, hoje não é com o Funchal que vou iniciar o relato. O relato começa pouco depois de termos voltado para casa. Devo talvez explicar que para entender melhor a ilha, os eventos que escolho narrar são de extrema importância.

Eu sabia que passaria o resto do tempo acordado, embora tivesse escolhido deitar-me naquela cama um tanto quanto pequena para mim (imagino que também o fosse para André). Os lençóis cheiravam a manhã de primavera. Eu procurava não me concentrar nos livros e nos vários objetos espalhados de forma bastante ordenada ali. Sobretudo, procurava ignorar aquilo que inevitavelmente seria revelado antes mesmo do sétimo dia. Ainda assim, tinha uma idéia muito clara de como teria sido a vida de André aqui.

O que de fato me perturbava era a incerteza: devia procurar saber o que era aquele barulho todo no quarto ao lado? Os passos, as luzes no corredor? Angelus obviamente estava passando mal. Desisti de teimar que a privacidade era mais importante do que a solicitude e levantei-me. Não precisei encostar o ouvido na porta do banheiro nem nada: ele vomitava como quem estivesse dizendo obscenidades. Fui à cozinha, busquei um copo num dos armários e o enchi de água. Quando voltei, ele já estava de pé no corredor. Perguntei se estava tudo bem e entreguei-lhe o copo. Ele agradeceu. Como estivesse já na porta do quarto, pude entrever uma estante, no escuro, bastante diferente daquela do quarto onde eu estava.

Voltei a me deitar com a estranha sensação de que talvez conhecesse o André melhor do que conhecia o Angelus.

Não demorou muito para que o sol entrasse pela pequena fresta da janela e incidisse sobre o violão ainda encostado na parede, depois de quase dez anos, como se alguém na casa fosse tocá-lo. O curioso é que tudo parecia ter sido deixado no lugar propositadamente, e, embora o zelo fosse evidente, nada soava artificial, como era o caso do pano em tricô jogado delicadamente por cima daquele aparelho de som antigo.

Tentei fazer qualquer coisa para esperar, enfim, que chegasse a hora de sair do quarto. Não me sentia muito à vontade para sair e, por exemplo, sentar na cozinha, ou no sofá da sala. Portanto resolvi desfazer a mala. Ou melhor, decidi organizar o que levaria para São Jorge logo mais à tarde.

Enquanto esperava, podia ler Dylan Thomas ou Ian Hamilton, mas achava mesmo que se tirasse um daqueles livros da estante, algo de muito importante seria desfeito. Ademais, já fazia tanto tempo que eu tinha lido Thomas e Hamilton, que não sabia ao certo se valia a pena retomá-los agora. A não ser, obviamente, se fosse para tentar decifrar, entre outras coisas, a linguagem esquecida, ali. O pudor há de ser desfeito, como já mencionei, mas por uma razão absolutamente mundana. Logo se revelará.

Há algo que precisa ser dito antes de descer as escadas e ir ter com o Angelus: durante os nove dias, somente saí do quarto quando tinha a certeza de que ele já estava de pé. Isso era muito fácil. A primeira coisa que fazia ao acordar era escutar um disco que para mim representa a Madeira, por essa razão: uma coletânea de músicas somente recentemente resgatadas do italiano Jean-Baptiste Lully. A Marcha Para A Cerimônia dos Turcos era o sinal de que eu podia abrir a porta.

Naquele dia tomamos café na varanda ampla que oferece uma belíssima visão do Funchal. A cidade parece um anfiteatro: começa na praia, elevando-se depois até 1200 metros pela encosta. Esta formação providencia um excelente abrigo natural, o que evidentemente atraiu os primeiros colonos. Segundo o Censo de 1991, o Concelho do Funchal compreendia, na época, 115 403 habitantes (53 816 Homens e 61 587 Mulheres). Hoje deve contar por volta dos 120.000 habitantes, estando a maior parte residente nas Freguesias de Santa Maria Maior e de Santo António, onde estamos agora.

Comemos em silêncio, embora eu percebesse que ele não estava fazendo nenhum esforço para evitar falar o que quer que fosse. Provavelmente teria mencionado a noite de ontem com muitíssimo conforto, mas preferia estar comendo. Eu, embora seja mais a favor do diálogo trivial acedi sem muitos problemas à sua postura. Afinal, não me restava outra opção.

8.02.2009

Felippa

A Madeira é uma Zona Independente de Portugal, assim considerada depois da Revolução de 04 de Julho de 1969, aquela que pôs abaixo a ditadura Salazarista. Governada pelo polêmico João Alberto Flores já há mais de trinta anos, tem assistido a um desenvolvimento espantoso em vários níveis nas últimas duas décadas. Há quem prefira relacionar o fato à administração peculiar de Flores. O Arquipélago da Madeira, que é composto por duas ilhas habitadas (Madeira e Porto Santo) e dois grupos de ilhas desabitadas (Áridas e Devolutas), está separado de Lisboa, a Sudoeste, por cerca de 2.000 kilômetros. Juntas, as ilhas do arquipélago cobrem uma extensão mais de 4.000 kilômetros quadrados do Oceano.

Não sei muito bem quão importante é essa informação, mas alguém a reclamou, de sorte que aí está. O relato objetiva também ser informativo: foi idealizado como um diário de viagens, e quer abordar os nove dias naquela região que mudou para sempre o rumo (ou a ordem) das coisas. Se deseja saber a razão, basta acompanhar-me. Hoje, por exemplo, vamos ao Funchal. Como tinha prometido no ponto em que parei, iríamos comer qualquer coisa fora. Mas nada muito pesado, nada muito curioso, apelativo, nada que exigisse atenção apurada: a viagem tinha sido por si só uma experiência bastante singular para permitir apreciar qualquer outra peculiaridade da região. Eu comi uma salada e tomei vinho tinto. A noite estava bastante agradável. O Angelus aparentemente gosta de pizza.

Depois saímos para uma cerveja, um chopp, uma imperial. A propósito, a cerveja da Madeira é muitíssimo melhor que as encontradas em Lisboa. Chama-se Coral, e é fabricada pela mesma empresa que faz os saborosos refrigerantes Brisa. Mas o refrigerante Brisa Maracujá merece um capítulo à parte. Para uma quinta-feira, a cidade estava bastante cheia. O primeiro bar em que paramos foi o Jota. Estava vazio. A música que costumava ser boa, segundo o Angelus, estava fraca. O barman estava sonolento. A imperial não veio muito gelada. Uma pena, pois o ambiente, com sofás coloridos e iluminação adequada, parecia bastante convidativo. Partimos para o Monge, que fica mesmo junto ao cais. Ali, ao contrário do Jota, havia muita gente, sobretudo jovens. A música era alta, uma música batida. Podia-se ver, do lado de fora, um segundo andar abarrotado de braços descoordenados. Talvez fosse uma dança.

«Aqui costuma aparecer muita gente curiosa.» Angelus parecia estar procurando alguém. Eu já sabia quem era, mas, ainda assim, fingi que não prestava atenção, e continuei observando os braços. «A imperial está quente», disse-me, entregando uma garrafa pequena de Coral. Agradeci, sorrindo. «Dentro em breve...» Acenou de volta. «Aquela é a Felippa, que canta no bar.» Por um momento, hesitei. Parece que eu já imaginava tudo. Quis fingir não ter ouvido. Ainda ensaiei olhar a baía, ali das escadarias que levava ao Monge. Mas não se foge do inevitável: a Felippa olhou-me com a cara mais simétrica que já vi em toda a minha vida, e sorriu.

Aproximamo-nos, mas ela falava frases curtas. Angelus continuava procurando, e a Felippa nunca chegou a olhar para mim novamente naquela noite. Não que tivesse evitando fazê-lo. Acho que o Angelus estava bebendo demais, o que de certa forma me incomodava. Afinal, voltaríamos para casa de carro, e ele era o único que sabia o caminho. Se tivesse falado, teria dito «ela não vai aparecer». É claro, ela não ia aparecer, sabendo onde provavelmente estaria por volta das duas da madrugada, ela não ia aparecer. «Amanhã à tarde vamos a São Jorge,» foi o que disse. «Vamos passar o fim-de-semana na casa de meus tios». Eu achei ótima a idéia.

Provavelmente por conta da cerveja, Angelus passou a falar mais. Eu escutava, sempre indicando que o fazia, com medo talvez de ele pensar que eu não estava na linha. Como se faz ao telefone: sei, sei. Não lembro exatamente o conteúdo da conversa, mas eram trivialidades sobre o Funchal. Por exemplo, que o nome da cidade explicava-se por conta de um tal Marquês de Funchal que governara na região de tal a tanto, e que era famoso pelo número de amantes que tinha, etc. etc. «Depois as amantes eram ervas daninhas, e o arruinaram para sempre». Sei, sei. Disse-lhe que agradecia muito, mas achava que não ia querer uma outra cerveja. E julgava que talvez fosse melhor voltarmos.

Ele foi ao meu lado, quase cambaleando, com a última garrafa de cerveja na mão. Tive vontade de abraçá-lo, mais por pensar que ele precisava de apoio físico. Mas não o fiz, as mãos no bolso. Antes de entrar no carro, desfez-se da garrafa como quem descarta o que afinal não aconteceu, pronto. Nenhuma palavra. O carro sobe as ruas numa velocidade vertiginosa. Fecho os olhos e a única coisa que escuto é a voz da Felippa: a lonely lonely person...

8.01.2009

Madeira

Não foi no Porto Santo que desembarcamos logo de pronto, como fizeram João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, embora eu pensei que seríamos jogados ambos ali mesmo, nas areias aparentemente vazias da Ilha Dourada. A aterrisagem no aeroporto da Madeira é como se estivéssemos pela primeira vez nos aproximando da Ponta de São Lourenço, sem a certeza de que o mundo não é plano. Era o dia Primeiro de Agosto, mas não de 1419. Ainda assim, comecei a descobrir a Madeira.

O Angelus estava visivelmente preocupado, embora comesse chocolate durante todo o percurso para sequer tocar no assunto. Eu olhava através da janela, fingindo não estar entendendo absolutamente nada. O Pedro nos aguardava com uma cara meio cansada de quem passara o dia no trabalho; levou-nos até a casa onde ficaríamos os dois. O Angelus falava muito pouco, mas o Pedro não parecia estar incomodado, ou parecia estar esperando por isso. Deu-nos a chave do carro quase rindo, e saiu no escuro. A porta rangeu um pouco antes de fechar, e era o silêncio de uma casa enorme e vazia.

O meu quarto ficava no final do corredor. Numa das janelas podia-se ver o Funchal e o mar à noite. A outra dava para o nada. Eu obviamente não quis fazer a pergunta que o aposento já respondia: ali tinha sido o antigo quarto de André. Desse assunto nunca falamos. Tudo parecia estar intacto, como havia sido deixado há quase dez anos. Mas sem vestígio sequer de pó: o quarto era visivelmente asseado todos os dias, possivelmente sob a supervisão do Pedro.

Eu trazia apenas uma mala, aquela que o Manuel me emprestara para ir à Itália. A mala, que nunca chegou à Itália, era de bom tamanho para o que eu carregava agora. Se calhar, devia ter pedido permissão ao Manuel. Mas a viagem, essa viagem, ensinou-me entre outras coisas que nem sempre pedir permissão justifica por si só o ato de fazê-lo. Isso logo se explica. Agora mesmo o que interessa é saber como fazer para tirar o Angelus daquele estado de desassossego. Ou de letargia. Não passava das dez da noite. O quarto já estava mergulhado numa penumbra de melancolia. Procurei o abajur num dos cantos da parede e a luz, fraca, incidiu sobre uma estante cheia de livros. Os livros, a maior parte de poesia, não me despertaram a atenção. No topo da estante, quase esquecidas de tão altas, umas caixas, que diziam apenas: escritos. Eram talvez dez, doze caixas amontoadas sem muita ordem, a não ser pela numeração: I, II, III, IV...

Aqui entra o Angelus, perguntando se não era uma boa idéia ir ao centro para comermos qualquer coisa. Eu, claro, disse que sim. E saímos os dois.

7.29.2009

It Came So Slow

Não há como não gostar dos Helmet! Não é por acaso que bandas tão importantes e tão ilustremente desconhecidas como os Silo os citam como uma das grandes referências do rock dos noventa.

Hinos como 'I Know' e 'Pure' representam com a sua precisão e sobretudo com as suas letras reflectindo temas e posturas de quotidiano suburbano [/]

Momentos como 'I Know' e 'Pure' condensam aquilo que eles têm de melhor: a precisão do seu rock, que não tem medo de explorar a distorção dos Metallica, mas optando por simplifica-la ao maximo, e sobretudo as letras, irónicas e

É claro que no meio disto tudo há coisas menos interessantes ou, como diriam os escribas dos jornais locais de subúrbio, 'menos bem conseguidas' (-> fogo <-, será que nestes casos já alguém se lembrou de substituir a locução adverbial por um adjectivo e dizer 'pior conseguidas, he he, -> he <-). Ainda assim, dos álbuns que conheço, o que tem menos trabalha é este mesmo, o Betty, e por isso difícil falar sobre ele um pouco aqui.

E aquilo que vale a pena dizer é que o Page Hamilton realmente merece ser reconhecido pelas suas belas (depressivas?) malhas de guitarra e por escrever pivôs como 'It came so slow you don't remember' em 'Today's another day you won't deny that / It came so slow you don't remember / When you got fat'.

12.04.2008

Nós

parece que vai ser
nós dois até o final...


Ouvir!A: é, eu acho que é muito calmo... quer dizer, eu também acho isso dos álbuns do... do...
S: quer dizer, eu acho que é um álbum conce/ conceptual, entendeu? ele...
A: sim
S: ele tinha realmente o propósito de fazer aquilo mais calmo mesmo, também por... por conta mesmo do... sei lá! acho que... de toda idéia, né? do sou e não-sei-o-quê...
A: sim
S: de ser um só agora... de não fazer parte de um grupo
A: sim
S: então eu acho que ele quis dar mais... ah... prioridade... à... à essa idéia de... de...
A: individualidade
S: sim... sim... e... acho que... assim... como conceito, eu acho que o álbum é feliz... éh... a idéia é interessante
A: uhm-hum... sim... quer dizer, eu acho que tem... tem músicas muito boas... a primeira e a segunda...
S: sim, gosto muito da primeira
A: acho que são músicas bastante fortes... só que eu acho que... éh... são... quer dizer... por exemplo, a primeira... e tem mais uma que... aquilo que conseguem... aquilo que têm de muito bom é precisamente de repetirem alguns dos melhores momentos dos hermanos
S: ahn-hã
A: éh sobretudo do... do ventura
S: sim... eu vou fazer os outros... quer dizer, eu vou fazer um comentário mais... demorado do álbum depois
A: agora eu acho que é isso, eu acho que tem duas ou três músicas que são realmente muito boas, incluindo uma das que é só viola e voz... eu acho que é muito boa
S: uma o quê?
A: uma das que são só viola e voz... eu acho que é muito boa
S: ah... qual? foi aquela do blog? aquela do youtube que eu coloquei?...
A: éh... ou é essa... ou é... mas acho que é essa, sim... há uma que eu rea/ achei realmente... excepcional... se calhar é essa
S: é, eu gosto muito... na verdade, essa que eu coloquei... a do youtube... é a minha preferida, porque ela tem uma melodia meio... éh... de... de... ah... como é que eu digo?... modinha... já ouviste falar nisso?...
A: sim, sim, eu sei o que é...
S: pois é, é uma espécie de... ahm... éh... canção... tradicional... brasileira da... século... eu acho que tem mesmo inspiração portuguesa, não é?
A: êh... tu achas que é portuguesa?... eu não sei...
S: então, eu acho que a modinha tem tem... tem inspiração mesmo portuguesa
A: de onde? do fado?... pois, não sei... eu, assim, de português antigo só conheço aquelas cantigas de amigo e... essas coisas do... da idade média
S: ah... mas eu acho engraçada... engraçada essa música do...
A: do camelo?
S: do camelo... a que eu coloquei no youtube
A: eu também
S: e sobretudo a composição mesmo, porque ele faz algumas brincadeiras... éh... lingüísticas
A: sim
S: que aliás, ele já fazia no...
A: nas músicas
S: nos los hermanos... que eu acho interessante... então ele... ele...
A: sim, eu tou-me a lembrar que ele tem aquela do... hehehe... como é que é? eu sou o teu homem, viu... ehehehe
S: ah-hã... sim, ele gosta de fazer... ele gosta de juntar ele/... quer dizer, de ir juntando elementos... que aparentemente... que... éh... que... do ponto de vista... estrutural... faz sentido, mas do ponto de vista semântico... é... é preciso algum esforço, entendeu? pra... quer dizer... é como aquela história do Chomsky das das... não-sei-o-quê coloridas
A: sim, colorless green ideas
S: exatamente... éh... então ele faz um po/... ele faz isso às vezes, o que eu acho... e faz isso nessa música, o que eu acho... éh... interessante, mas... éh... é porque agora eu não lembro exatamente qual é, mas depois... dá uma olhadinha... ele ele diz assim uma coisa como... éh... já no final mesmo... por exemplo, ele junta... ele jun/ ele sai juntando elementos que, se você for ler, não vai fazer sentido, entendeu?
A: sei
S: éh... se você for... ler a músi/ o o a letra assim... linearmente, ela não vai fazer nenhum sentido
A: uhm-hum... sim
S: aparentemente
A: ah, isso é interessante... mas éh... eu na verdade até... quer dizer, eu ouvi o álbum durante a semana, assim, a primeira vez... e não fiquei muito agradado... depois depois voltei a ouvir... e achei que... realmente tem músicas assim muito boas, como algumas dos hermanos... éh... só que, no geral, não acho um álbum tão bom... como o ventura...
S: quanto os que ele fez com os irmãos
A: mas, quer dizer, eu também não gosto tanto assim do 4... nem do...
S: ahn-hã... sim
A: quer dizer, eu acho que o bloco e o ventura... são realmente álbuns muito bons... são... mas o 4 já não acho tão... tão engraçado... mas isso, pronto... toda a gente achou o mesmo... menos tu... ha!
S: ahn-hã
A: mas eu eu eu a/
S: não, quer dizer, o meu álbum preferido é sem dúvida o ventura... mas eu gosto muito do 4 também
A: mas até eu... éh acho que também... êh... simpatizo mais com a voz do outro... do rodrigo... acho que sim
S: ah, sim? o... como é que é o nome dele? esqueci...
A: não é rodrigo?
S: é alguma coisa assim, não sei, não lembro
A: é
S: éh... mas ele também vai lançar um álbum rece/ agora, eu acho
A: é vai... é em inglês, e não-sei-quê
S: mas tu ficaste... intrigado com a imagem?
A: sim.. eu fiquei... ehehehe... eu fiquei um pouco, mas eu acho que... enfim, também tem... um bocado de... quer dizer, até tem um bocado a ver com o blog e com... a definição, não é?... por isso eu achei be/ bem
S: éh... é interessante a capa do disco, não é?
A: sim
S: por acaso era uma coisa que eu nunca/...
A: é... mas eu... eu já... eu já reparei que ele... que ele gosta de fazer umas coisas assim, mais... ele tinha um blog também... não viste o blog dele?
S: não
A: ele... ele tinha um blog e ele no blog... só... éh... punha coisas escritas à mão... ehehehe...
S: ah...
A: ou seja, ele... ele éh fazia coisas com máquina de escrever, ou em... em... pronto... com caneta
S: uhm-hum
A: e depois
S: e depois
A: passava no scanner pra pôr no... no blog.... ehehehe
S: ah, isso é interessante, pra quem gosta de escrever à mão
A: ahn-hã
S: tem gente que escreve, né? muito à mão ainda... que...
A: sim
S: éh... tu fazias, não é, isso?
A: sim, eu fazia, mas... éh... rapidamente
S: mudaste
A: passei a achar isso estúpido... ehehehe
S: eheheh... mas, assim, tem gente que tem essas inspirações assim e...
A: não, eu sei... eu até conheço pessoas que escrevem assim... ao invés de escreverem... correio eletrônico, continuam a escre/ fazem questão de escrever cartas à mão... assim
S: ahn-hã
A: bastante compridas
S: uhm-hum... tu já escreveste muitas cartas à mão?
A: sim, na altura eu escrevi algumas, mas eu eu rapidamente passei a escrever em computador... depois assinava... e depois deixei de escrever mesmo...

31/10/2008

***

From: Angelus
Subject: Tudo Passa
Date: 31 October 2008 19:55:22 GMT
To: Saavedra

Aí está uma das que acho mesmo mesmo boas, com uma letra absolutamente irrepreensível e uma estrutura bem angular, mas com tons bem familiares dos Hermanos:

eu você e todos os encontros casuais
os ais e os hão de ser
e todos os casais também
olha, acho até que quem achou que nunca ia
esse ia se espantar de ver que o ódio e o amor
e até eu vou pra ver no que vai dar
a massa a moça
e até esse pra sempre
tudo passa


***

Ouvir!A Tudo Passa, com aquela melodiazinha bem castiça no fim, deixa-me a pensar numa tarde de verão com um conjunto de rapazes já bem entrados na idade jovem, de boné e calções, no fundo de um prédio, olhando para cima, como se estivesse alguém a fotografá-los do alto.

01/11/2008, 01:26

12.03.2008

Camelo


Ouvir!O Marcelo Camelo é conhecido por sua estranheza, e é o seu irmão Thiago quem o atesta: "alcançar o universo dele é difícil." A verdade é que, de uma maneira ou de outra, somos todos peculiares. Uns mais que os outros, eu compreendo. Assim, por exemplo, já nos debruçamos os três, eu, a batukada e o angelus, sobre a questão: quem seria o mais estranho de um outro trio: o angelus, o honoré de balzac ou o saavedra? Eu apostava que seria o balzac. A batukada teria sugerido o angelus. O angelus, por sua vez, achava-me a mim o mais estranho de todos. Seremos então estranhos para diferentes pessoas por diferentes razões - e de estranho esta conclusão não tem nada, convenhamos.

A estranheza do Marcelo Camelo estaria em seu isolamento. Pois é, há pessoas que são necessariamente sós. Ou, para parafrasear o que escreve o irmão do Marcelo Camelo, há pessoas que circulam em universos impenetráveis. E não é porque queiram, não confiem, desconfiem, nada! É porque simplesmente falta-lhes desenvoltura para serem mais mundanas.

Para o Thiago Camelo, foi Sou, o primeiro disco solo do irmão, que o ajudou a atravessar o muro que os seperava. O certo é que o Marcelo Camelo apresenta-se amanhã, na noite da quinta para a sexta-feira, no Teatro Tivoli, em Lisboa. Para quem se interessa por outros mundos possíveis, e mora em Lisboa, eis um espetáculo imperdível.

11.29.2008

Last Romance

Ouvir!Hermanos are one of those rock solid bands which, because of all the thought and all the work they put into their songs, deserve a sure status of local heroes. It's no wonder why you have people like Maria João and Maria Rita covering their stuff, and with arguably lesser outputs. And yet again, like Silo, they are some of most underrated people out there - actually they don't even exist anymore. Most people here in Portugal only know them because of the hit single Ana Júlia and are completely astray about anything else.

So what makes these guys so good? Okay, just bear for one moment the structure of Last Romance. The vocal melody is simply other-wordly. And the lyrics, boy, these lyrics will kill you! Just check out this shit:

And just by seeing you I think about changing - uh uh uh - my TV player as a way of taking you somewhere you might want to go to and to go with the wind and to both of us to leave home is to take a stride.

Wow! Is this poetry or something? How many solid rock guys will you have making lyrics of this calibre? Okay okay, maybe Dave Matthews, I'll grant you that. But not much more people.

And what about the beautifully saint-exupéryan verses of Beyond What We Can See:

Fetch one more for dinner tonight, for today I'm going there to see you, take the sound off that TV so that we may talk.

Boy, can these guys play with simple people's concepts! The whole thing is so melodically and rhythmically articulated, and the small ensemble arrangements are so in-your-face culminating in the beautifully spacious coda. Boy, can you not see the beauty in these guys' work?

04/08/08

Último Romance

Ouvir!Os Hermanos são uma daquelas bandas de rock que, pela quantidade de trabalho que põem nas suas canções, e a pensar o que é que resulta aqui e ali (também conhecido como arranjos) merecem o estatuto de heróis. Quer dizer, não é por acaso que a Maria Rita e a Maria João até fazem versões dos rapazes. E, curiosamente, são uma banda quase desconhecida e já extinta.

Quer dizer, contemplemos uma estrutura como a do Último Romance: a melodia vocal é simplesmente indefectível. Toda a deambulação tonal do

'e até quem me ver lendo o jornal - uh uh uh - na fila do pão sabe que eu te encontrei' / 'e ninguém dirá que é tarde demais, que é tão diferente assim, do nosso amor a gente é que sabe...' / 'ah vai, me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar' / 'eu encontrei ah ah ah e quis...' / até chegar ao inacreditável de tão bom e tão bem conseguido 'e só te de te ver eu penso em trocar - uh uh uh - a minha TV no jeito de te levar a qualquer lugar que você queira e ir onde o vento for, que pra nós dois sair de casa já é se aventurar', e a melodia brutal (no sentido mesmo pesado do termo) que se segue. Foda-se, estes gajos são demais!

And just by seeing you I think about changing - uh uh uh - my TV player as a way of taking you somewhere you want to go to and to go with the wind and to both us to leave home is to take a stride' Wow! Is this poetry or something? How many solid rock guys will you have making lyrics of this calibre? Okay okay, maybe Dave Matthews, I can grant you that. But not much more people.

And about the beautifully elusive of Le Petit Prince

Põe mais um na mesa de jantar, porque hoje eu vou para aí te ver, e tira o som dessa TV para a gente conversar

Fetch one more for dinner tonight, for today I'm going there to see you, take the sound off that TV so that we can talk

Boy, can these guys play with people's concepts!

04/08/2008