9.08.2009

Do Despropósito

Querida Eva,

Às vezes eu me pergunto se, afinal, você lê o que quer que eu escreva. Mas quero dizer: se lê de facto. Volishnov devia estar certo, mas ainda assim/ A razão por que eu começo com essa pergunta é mesmo por conta de sua ligação de ontem à noite. Você... Você estava chorando? Eu detesto que/ eu detesto saber que alguém está chorando do outro lado da linha quando não há nada que eu possa fazer. Não que eu fosse fazer algo, as a matter of fact. Eu queria poder ser como me imagino, sentimental. Mas não sou nada disso. Não tem mãozinha no rosto enxugando lágrima, não tem abraço, não tem palavra de consolo. Entretanto o cinismo me incomoda. Não aquele praticado, mas o verdadeiro, aquele que está sem ser solicitado. Hoje havia prometido não ser amargo. Mas você precisava ter ligado ontem... chorando?

Entre outras coisas, eu queria poder te falar da Valdelice, aquela do Ceará. Mas agora já não sei se vale a pena. Quando estava subindo o prédio, tem aquele meio-gordo que sempre deixa a porta entre-aberta. E hoje estava, imagine, sem roupa. Então as pessoas não têm pudor? Então esses obeliscos fálicos todos no meio da rua? Eu queria poder aprender a sopa que a Paulinha fez para o aniversário da mãe. Aliás, é só nisso que eu penso agora. Mas não tenho o e-mail dela. Nem sei escrever o nome da sopa, porque sempre fui muito preguiçoso e nunca aprendi francês. É, é aquela sopa branca, gelada, é. Nunca tive muito talento para línguas, embora as pessoas costumem dizer que eu cozinho bem.

Por que a Lúcia Helena não é logo direta e diz que não vê nada naquilo que eu escrevo, e pronto? Não há novidade, diria com um ar profético de Salomão. Eu talvez concordasse, embora não sei se ficasse convencido. É mais fácil não tentar, como tentam as Mariazinhas, e convencem, e vendem livros e atraem críticos inteligentes mas sedutores. James adora mulher burra. Eu não. E tivemos um grande debate sobre o qual não vale a pena falar. Vá, pergunte o que vale a pena falar, diga que o silêncio não é assim tão importante, como o de ontem. Isidoro sabe do silêncio. Eu sei do despropósito.

Eu quero te contar algo muito importante que aconteceu hoje comigo. É assim: passo o dia todo lá dentro de meu escritório, quase não falo com ninguém. Mas uma ou outra vez saio para tomar um café ou comer uma bolacha (e hoje teve doce de figo do Algarve). Quando acontece de encontrar alguém na cozinha, troco umas duas palavras. Mas o que eu quero te contar de fato é que hoje desci para comprar maçãs e sumo de laranja + cenoura + manga. Adivinha quem encontrei no supermercado? Pois foi a Valdelice. Não aquela do Olympo, não a do Ceará. Estou falando da que trabalha na farmácia ao pé do ILTEC. Ela olhou para mim, e eu, brevemente, para ela. Podia dizer qualquer coisa, mas não o fiz. Como alguém que é tão íntimo pode se encontrar assim no supermercado e não trocar uma palavra? Será porque foi no MiniPreço? Será que se fosse no Pingo Doce ela falava? Será que no El Corte Inglés ela sorria, me beijava e me levava para a cama?

O que eu preciso de fato dizer é que a Valdelice não é o meu tipo, mas ela me conhece tão bem... Aliás, quero chegar à conclusão de que ninguém talvez me conheça melhor do que a Valdelice. E eu tenho a impressão de que faz regime. Vê? Eu pouco conheço a respeito/ O que me faz pensar que ela talvez faça regime é mesmo o fato de ela ter saído do supermercado somente com uma caixinha de bolacha de água-e-sal na mão. Nem pediu um saco, que custa dois cêntimos! Deve fazer também regime de dinheiro!

Mas antes de terminar essa história, preciso contar a discussão que tive hoje com/ por conta do fato de ela ter dito que a Rita ia plantar morangos na horta da casa nova. Ora, morango não pode ser cultivado em horta, disse eu. Ao qual ela replicou: e onde? Num pomar, sugeri. Então aprendi que o pomar só possui árvores frutíferas, e não sendo o morango um fruto que se dá em árvore... A confusão estava tamanha que resolvi então buscar o Orélio. Lá tinha tudo. Primeiro, ela estava certa: pomar é só de árvore. Mas eu também tinha acertado: horta não poder ser de frutas. Restava agora saber o que, afinal, era morango. E, afinal, morango é uma infrutência carnosa, não fruto, que nasce de uma erva... Erva??? Então o morangueiro é uma erva?! E erva se cultiva numa horta? Também não. No mato? A confusão estava tamanha, o jantar estava quase pronto, a H. estava quase chegando, portanto resolvemos deixar o assunto assim, quase inconcluso. Ademais, hoje vou ver Italiano Para Principiantes, aquele filme dinamarquês que eu não cheguei a ver em Odense porque lá não passam filme dinamarquês com legenda em português ou inglês. O que acho muitíssimo estúpido.

12:12: o filme é bastante bom. Há personagens bem construídas e atores muito competentes. É um filme/ Mas agora tenho de terminar, Eva querida, porque não faz sentido ficar aqui enquanto a Felippa/...

Beijos.

Quarta-Feira, 21 de Agosto de 2002, 00:16

9.07.2009

O Pavão Está Solto

Dóris Querida,

Eu já sabia: antes mesmo de o sol nascer, eu estaria de pé, mais uma vez, a segunda desde que comecei/ Acordei com sede. Não, quero dizer, acordei com uma música na cabeça, uma que diz mais ou menos assim: sou o maior dos hipócritas, tenho sido inquestionavelmente/ tenho sido ostensivo e pretensioso, tenho/ abusado de meu poder/... nós, afinal (não é o que sempre quis dizer?) somos um um um um um um um um. É evidente que a música não quer dizer absolutamente nada para mim, mas não consigo evitá-la. Eu prefiro ouvir Jorge Ben Solta O Pavão hoje para ver se esqueço/ Bom, são seis e meia da manhã e ainda nem tomei café e já escutei a tal música. Depois eu continuo, logo mais à noite.

Noite. Sete e vinte e dois. Eu disse que ia continuar, mas prefiro fazê-lo com uma taça de vinho do Alentejo, linda, de crirtal, que pertenceu à Mãe da M. Helena. Isso porque vou sair dentro em breve, jantar na casa do Miguel & Bebé Mateus. Não sei se vou ter coragem de começar o Ensaio Sobre a Cegueira antes de minha viagem ao Brasil, portanto o escondi na gaveta da cômoda rococó.

Hoje eu percebi tudo, e talvez tenha sido a música: I've gotten candy for my self-interest/ the sexy treadmill capitalist/ heaven forbid I be criticized/ heaven forbid I be ignored/ I have abused my power/ forgive me. Eu francamente não sei se vou, enfim, ser perdoado. Mas também não sei se busco perdão. Eu acho que vou comprar esse disco para escutar no carro, enquanto estiver no Brasil.

As reservas já estão feitas, e vou ficar naquele hotel chiquetérrimo, quatro estrelas, à beira-mar, com o conforto de quem merece, por estar participando de um evento que promete ser bastante chato. Eu francamente penso que vou fazer turismo. Não quer? Quantos lugares vamos ainda ver pela última vez, como a Madeira, por exemplo, que está fadada a desaparecer do Planisfério de Cresques? Eu nem sequer conheço Fortaleza, embora já conheça cidades muito mais pequenas no extremo norte da Alemanha... E tenho tanta pena que estejam afundando! Logo Praga! Praga! Vai haver uma conferência em Praga no ano que vem, e eu sempre tive tanta vontade de conhecer Praga...

Eu acho que preciso confessar, eu sinto essa urgência religiosa de dizer que hoje comi apenas uma maçã. Já faz bastante tempo que não vou ao supermercado, e vou sobrevivendo como posso. Há umas bolachas lá no ILTEC, e café. Mas hoje soube-me mais um chá de tília. Dizem ser um bom calmante, o que é mal. Devia fazer como o Hugo, o primo, que bebe Red Bull, algo chamado assim, algo, uma bebida, um estimulante. Aqui não há guaraná em pó, que lembro muito bem quem me apresentou.

Se a Regina vier do Pará, peço que traga guaraná em pó. Será que a Regina vem do Pará? Será que ela pega um Ita no Norte? No dia em que chegamos ao Pico do Areeiro, o Pedro, enfim, apareceu. Mas isso eu conto quando a oportunidade/ quando chegar a hora de falar sobre o Pico do Areeiro. Será que as pessoas ontem à noite ficaram muito chateadas porque eu saí sem dizer nada a ninguém? A D. Mira não me pareceu chateada, muito pelo contrário. Ela é tão esperta, a Mira... Agora eu preciso/ tem as plantas para aguar, antes de/ Daqui a pouco a campanhia toca.

E tocou, mas eu já estou de volta. O jantar foi bom, apesar de minha pouca paciência. Eu gosto de ouvir o discurso da Maria Helena, que fala como se estivesse pensando. Há pessoas que tem o talento de entreter com a palavra. Eu definitivamente não tenho talento para entreter, muito pelo contrário. E já agora lembro do/ eu estive hoje numa barbearia e lá estava um senhor, dono do restaurante que fica ao lado do ILTEC, e também um outro, esperando, de uns cinquenta e sete anos, de olhos verdes, fingindo interesse. Voltei para casa e agora não consigo esquecer a cara dele, a cara de pretenso interesse. Eu terei essa cara, muito embora os meus olhos/?...

É preciso que eu mude? Se é a estrela lá fora, se foi a idade escolhida para que, enfim/ eu vou preferir intervir? Eu corro e deixo os mil olhos verdes das penas/ que sejam revelados?

Beijos.

Segunda-feira, 20 de agosto de 2002, 00:01h

9.06.2009

Roupa A Secar

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

(Rainer Maria Rilke)

Caro Damian,

Ainda não passa das cinco da tarde do domingo, mas enquanto a festa se organiza, eu achei que talvez devesse escrever um pouco, porque tenho cá comigo essa vontade de comentar acerca do que o Bernardo Soares escreveu outro dia, nesses termos: "Um simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de definir. A idéia de uma obrigação social qualquer - ir a um enterro, tratar junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa qualquer, conhecida ou desconhecida -, só essa idéia me estorva os pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a aprender."

Ao contrário do que ocorre com o Bernardo, eu tenho grande alegria com o contato social, mas isso se dá quase que exclusivamente no nível da idealização. O que ocorre, afinal, é mesmo o oposto: o caso real, para mim, é o que me dá uma angústia sem nome. Veja se eu consigo me fazer entender: eu acredito nas pessoas. Aliás, eu já devo ter mencionado isso naquela mensagem sobre o Paar, mas não me canso de repetir: eu acredito! Entretanto, não consigo estar acompanhado por muito tempo a ponto de sentir que o caso é absolutamente insignificante. Então começo por ficar calado, a responder monosilabicamente, a não insistir que fiquem, está cedo, não querem mais um martini?

Mas essa conversa toda vem a propósito da madrugada de hoje. Eu já estava mesmo precisando dormir, acredite, e a animação/ quero dizer, acho que eu também estava/ O sol na varanda, Jack e o protetor solar, Felippa e a dissimulação, Paula, Sebastião... Eles não se cansam! E queriam saber se eu, enfim, ia ao museu como havia prometido, que podíamos ir juntos, e depois tinha a praia da Costa da Caparica onde fazem um delicioso Sunset Boulevard. Lá dentro, o Morrissey cantando Wide To Receive.

Isso assim não dá. Enquanto a festa se organiza, eu preciso fazer qualquer coisa, porque dormi pelo menos uma hora e meia e a tarde está bastante ensolarada. Penso como deve ter sido o Sunset Boulevard na Costa da Caparica. Será que foram, afinal? Devem ter ido... Acho que a razão mesmo dessa mensagem agora ao fim da tarde com sol de verão é a inveja. Ou o arrependimento, ou o pânico. Enquanto espero pelo fim do mês tão ardentemente, fico ao mesmo tempo preocupado que o fim do mês chegue antes mesmo de eu saber com certeza o que eu estou sentindo agora.

A mensagem, essa, ficou em aberto, porque entretanto houve a festa, o jantar, e eu já saí à francesa. Não gosto de muitos beijos, nem sei se gostam. Não gosto sobretudo de embaraços. Eu estive discutindo outro dia com o Isidoro se devíamos concluir nossa correspondência assim: um beijo. E ele insinuou que se queríamos escapar da mediocridade, não precisávamos dar passos em falso. Eu não entendi o argumento, e continuo achando que posso usar essa forma de despedida com quem considero. Quero dizer, por que posso beijar as minhas irmãs e não o meu irmão? Por que meu pai disse que eu não era suposto beijá-lo a partir de uma idade que já nem recordo?

Mas é diferente ter de beijar três mil pessoas que nem sequer conheço somente por ter de fazê-lo. Não é? E acabei conversando, como sempre, com a Henriquieta. E tinha uma brasileira de Brasília que vai passar um ano em Lisboa e quer que a filha estude aqui numa escola privada porque tem medo no Brasil de abrir a porta do carro sem ter a certeza de que a garagem está de fato fechada. Nunca provou o pastel de Belém e estuda história. Eu achei o máximo. Sobretudo porque está aqui com uma bolsa da Capes.

Não, eu voltei porque precisava estender a roupa que estava na máquina há que tempo. Detesto ter de dizer que não vou precisar da mulher-a-dias para passar roupa nenhuma no sábado que vem. Ela que vá tratar dos dentes, coitada! Mas não é por isso, não. O que eu/ A Fátima vem em setembro e vai ficar aqui com o Jim. Não me disse por quanto tempo. O fato é que se tenho de pagar a alguém para passar roupas, que venha quando também estiver na altura de fazer uma faxina. E a Fátima, a Maria de Fátima merece uma casa limpa. Não merece?

A verdade assombra, o descaso condena e a estupidez destrói. Mas uma torre há de se erguer do fundo de meu coração. E eu estarei à borda.

Um beijo.

Lisboa, 19 de Agosto de 2002, 00:08h

9.05.2009

Não Matarás

Querida Ângela Lipério,

Imagine que mesmo depois de cinco doses de gim com tônica, duas de vodka puríssima e alguns copos de cerveja, eu ainda posso escrever. A noite aqui terminou do melhor/ quero dizer, ainda há tempo para alguma coisa, e o Jack acabou de me ligar dizendo que passava aqui dentro de uma hora aproximadamente. Quero dizer, não há melhor opção aqui em Lisboa, o Jade é mesmo um lugar que/ Como se diz? Must. A música ali é sempre a melhor. Nada de comercial, e dá para dançar. Claro, precisei de pelo menos duas doses de gim, porque/ o gim foi considerado há que tempos a fonte de todos os males. Mas quem disse que o bem vale a pena?

O que vale a pena é dançar, e depois o gim se desfaz, e fica uma alegria esfumarada. Como a alegria de ver a Felippa, oblíqua, dançando sem olhar para ninguém. Acho que se eu tivesse de escolher/ Acho que eu/ Quando o Jack foi ter lá com a amiga, eu fiquei mesmo querendo me aproximar e dizer qualquer coisa. Mas a Felippa é tão estranha... E tem aquela música dos Blurs, não sei se conhece os Blurs. Eu particularmente adoro cada uma das músicas/ Só lançaram até agora um disco, mas são absolutamente fantásticos. E sempre no Jade tocam aquela música específica.

Eu não sei se devo sair hoje de novo. Afinal, não tenho os vinte e três anos do Jack, afinal. Eu estou um bocado velho. Agora se quer saber a verdade... Ontem, quero dizer, hoje, por volta de uma da madrugada, o Jack ligou e queria saber se eu estava a fim de ir a uma festa na casa de uns amigos que estavam organizando um evento performático e eu fiquei curioso porque pensei que coisas assim já não mais existissem. Existem, com todo o tipo de gente engraçada, recitando poemas, tocando zítara, tomando banho, dançando e rindo desvairadamente. Eu cheguei em casa, acredite, às nove e meia da manhã, e compramos um pão que tem aqui na padaria do prédio, quente, bom com ou sem manteiga. Eu tomo café, mas não o Jack. Quando acordei, ele já tinha desaparecido sem deixar vestígio.

Logo mais, depois da noite, quero ver se não durmo, pois é o dia do museu. Aos domingos pode-se visitar os museus sem ter de pagar por isso. Eu, por exemplo, já fui ao de Arte Antiga umas duzentas vezes sem pagar. É que adoro a coleção do Museu de Arte Antiga. Mas agora quero ver se vou ao Museu do Traje. Dizem que é fantástico. Eu gostei do Museu do Chiado. Mas o Chiado deixa-me sempre desejoso de comprar livros; eu não resisto. E agora ando meio sem dinheiro. A dose de gim-tônica é quase cinco euros! Com o dinheiro que eu gastei no Jade, podia comprar outro livro do Paar...

Quanto ao projeto... Você perguntou sobre o projeto? O projeto anda de vento em popa. Tenho três dos melhores alunos da Faculdade de Letras da UL trabalhando como meus assistentes. Tenho certeza de que vão fazer um ótimo trabalho. Mas, enfim, tem o Ceará no mês que vem, pela primeira vez, que eu nunca conheço o Ceará...

E hoje comi arroz de pato na casa da Maria Helena, e depois revi o decálogo 5, aquele premiadíssimo, o não matarás. Eu sempre tenho vontade de chorar ao final do decálogo 5, mas choro sempre ao final do 6. Eu gosto bastante desse. Saí dizendo que estava com sono, mas vim chorar em casa, no banheiro. Depois o Jack ligou e fomos ao Jade e o resto da história eu já contei. Enquanto o Jack não liga, eu vou escrevendo porque não tenho muita paciência de continuar a ler o Livro do Desassossego. E se parar, eu durmo. Mas como provavelmente a Felippa/...

Agora é o Jack.

Beijos.

17 de Agosto de 2002, 03:25h

9.04.2009

No Céu, Com Diamantes

Querida Ana!

Que bom ter falado contigo hoje ao telefone. Nunca te contei, mas aqui estão veiculando um comercial de cartões telefônicos com descontos feitos para chamadas pro Brasil. O que há de curioso nesse comercial é que a moça segurando o cartãozinho e rindo à toa é a tua cara. Portanto, toda vez que passo por uma cabine telefônica lembro da Ana Lúcia. Não é ótimo? Já agora penso que devia ter comprado o cartãozinho para ligar hoje, ao invés de usar o celular e ser tão breve. Eu nunca fui muito bom nessas coisas de dinheiro. Dinheiro para mim é coisa que se usa quando se tem. Tão óbvio quanto aquela música dos Beatles.

Sabe que até hoje nunca tinha escutado o Sgt. Pepper's por inteiro? Pois não me pergunte a razão: escutei. Aquela da Lúcia, a Ana Lúcia no Céu Com Diamantes é um bocado engraçada. Não sei se devo aceitar a proposta/ aliás, já aceitei. Vou experimentar a Ana Lúcia, pronto. E vou fazê-lo quando/ assim quando voltar do Brasil, em outubro. O Jacques sabe como/ Mas eu já li um bocado sobre o assunto. Isso me faz lembrar o relato do Caetano naquele livro Realidade Virtual que ele escreveu sobre os vestidos púrpureos da Maria Bethânia e de como ela, se pudesse, matava o natal. Eu se pudesse matava o tempo. Quero dizer, nunca consigo fazer tudo o que preciso num dia. Mas acabo fazendo o que julgo/ Eu matava o tempo porque ele é muito curto para o que eu quero/ para o que tenho de fazer, e já as rugas e a inveja de quem nasceu em 1979.

Hoje por exemplo acordei bastante cedo, e tinha a certeza de que ia poder trabalhar no tal artigo sobre as narrativas vicárias, mas não o fiz. Às vezes desconfio que, para falar a verdade, não quero mesmo fazê-lo. A troco de quê?

Hoje por exemplo escutei aquela música da Moranis Arissete treze (15) vezes. Tem coisas que a gente só descobre depois de ouvir pela bucetésima vez, tal como a da Moranis, aquela que diz mais ou menos assim...

O fato de ter escutado a mesma música treze vezes não me impediu de ouvir o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band e de, agora, ouvir o Cake. Coincidentemente, a Lorna esteve ouvindo o Cake ontem também, lá na terra do Damian. E fez bacalhau a Gomes de Sá e vai tentar fazer açorda com pão italiano. Acho a Lorna bastante corajosa. Eu já devo ter dito que ela vai começar o doutorado em semântica, não, em prosódia ainda agora em setembro, e já está lendo tratados sobre semântica formal e já achou a minha tese na biblioteca acidentalmente.

O que eu estava dizendo é que escutar a mesma música deve ter contribuído para não pensar no tal artigo que merece ser escrito. Se eu pudesse ao menos hoje escrever mais alguma coisa para o all the lonely people já me dava por satisfeito. Mas a Helena Maria quer falar comigo, e não sei bem sobre o quê, uma vez que acabou de chegar do Algarve corada e sem base. Ah, deve ser sobre o jantar-festa com quarenta convidados depois de amanhã. Vamos combinar o seguinte, eu vou falar com a Mira Mateus e venho depois concluir a mensagem prometida hoje ao telefone sem cartão com desconto e cara da Ana Lúcia no Céu Com Diamantes, está bem?

Pronto, voltei, e escuto pela décima quarta (16) vez a música da canadense baixo-astral. Eu sou meio obcecado por certas coisas. Lembro de quando eu era adolescente que minhas irmãs me odiavam porque eu só tocava Billie Holiday, ou Nina Simone, ou Stravisnky, ou The Smiths, sei lá. Mas não por conta deles em si: mas pela repetição. Há coisas que eu só percebo depois da décima sexta vez, ou da terceira tentativa. Acha que eu devo tentar uma terceira vez? As duas primeiras foram bastante/

Ana Lúcia Mirian Keller, eu queria afinal ser bom, mesmo que eu não tivesse nada feito, ou que o dia fosse imperfeito, com aquele bacilo, ou com setenta e cinco quilos. Se eu ao menos passasse bem sem nem um vintém, ou fosse bom amiúde, sem cabelo nem saúde... Olha, eu estaria ótimo no papel de súdito sem rainha, o resto da vida só, na minha. Seu eu fosse amado... Mesmo quando me deparasse com a INDIFERENÇA. Que eu fosse bom com toda essa espalhafatosa crença. Se me amassem no ápice de minha mágoa, ou quando eu, enfim, quando me agarasse àquela tábua... Bom, mesmo na aparente loucura, com o sem a tua ajuda, ou a tua, ou tua...

Beijos. Feliz aniversário.

Lisboa, 16 de Agosto de 2002, 23:09h

9.03.2009

O Que Eu Queria Dizer, De Fato

Querida Ana,

Eu precisava mesmo fazer uma faxina. Não que a casa estivesse suja o suficiente para tornar a necessidade justificável: eu assumo que certas coisas merecem periocidade e pronto. Então, antes de ir para a Madeira, tinha prometido a mim mesmo que a casa ia ser completamente asseada. E quando digo completamente, I really mean it. Faço tudo com muito mais cuidado que a D. Maria da Encarnação, embora nunca tenha sugerido a ela tal semelhante. Começo por tirar o pó, o mais mínimo, de todos os cantos possíveis: em baixo e em cima dos móveis, no topo da estante, ao pé da cômoda rococó. Depois venho com o aspirador de rodinhas e faço o maior barulho. Mas antes de o sol se pôr por completo, é preciso varrer a varanda, cuidar das plantas e lavar a mesa e as cadeiras do terraço sempre tão sujas de poeira. O sol se põe lindamente por entre as plantas de minha varanda. Só tenho pena de não poder vê-lo nascer. Mas olha, paciência.

Depois de ter a casa completamente aspirada, é preciso escutar qualquer coisa, senão não tenho ânimo de continuar a faxina. Por qualquer razão, foi o Bob Dylan. Bob Dylan?!... Posso até ver a sua cara de quem não acredita ser possível alguém escutar o Bob Dylan em 2002, o último ano palíndromo que vamos nós ambos experienciar. Pois eu escuto ainda o Bob Dylan, como escuto também a Janis Joplin e o Velvet Underground. Aliás, escuto bastante/ Bom, esse assunto não vale a pena, afinal sempre tive a certeza de que você não é uma pessoa muito musical. Como não o são a maioria das mulheres que eu conheço.

Mas eu estava na faxina. Ela continua com o óbvio mop, o nosso pano molhado com pinho-sol. Todavia, é preciso lavar o banheiro antes disso. Vê? Não é nada fácil. Sobretudo quando se sabe que, ao final, é ainda preciso fazer o jantar. Bom, a casa ficou como eu gosto, e para isso tive de deixar de ver o decálogo número sete do Kieslovsky, que fala sobre o sétimo mandamento, aquele que diz "não roubarás".

Muito a propósito, hoje recebi a estranhíssima ligação de Odara, reclamando privacidade, inconformada com o fato de eu ter feito público um acontecimento que ela sempre julgara ser o mais pessoal possível. Eu, na minha angústia de entender o que nos move, procurei ouvir tudo com muito cuidado, e pude até seguir a linha de raciocínio dela. Mas não posso concordar que tenha agido incorretamente. Por uma lado, eu não percebo essa discussão de fidelidade, por outro, a noção de realidade é para mim ainda mais vaga. Acho que foi exatamente por essa razão que resolvi fazer hoje um penne zita rigate com molho de queijo fresco e alcaparras. Para acompanhar, abri uma garrafa de Prova Régia, branco, fresco. Bob Dylan já deixara de se lamentar, e agora era a deliciosa voz de Stacey Kent que se fazia ouvir na cozinha.

Hoje foi feriado aqui em Lisboa, não sei muito bem de que santo. Quando saí, notei algo estranho. Não havia absolutamente ninguém nas ruas. Devem ter ido todos para o Algarve. Mas como eu já estava a caminho do trabalho, segui adiante resoluto, como se tivesse a certeza de que estava fazendo algo bastante nobre. Estranhamente tive medo de usar o elevador, porque se eu ficasse preso (nunca me aconteceu, mas todos já tiveram a sua experiência no ILTEC), não teria a quem recorrer. Imaginei passar um dia inteiro preso dentro de um elevador. Entretanto, tinha ainda o sentimento de nobreza, e abri a porta do elavador cheio de esperança.

Acho que gosto dos aposentos do ILTEC. Não mais do que o James, que às vezes passa a noite inteira ali. É que o fato de não ter muito espaço faz-me pensar que eu preciso fazer alguma coisa, e já. E esse impulso para trabalhar é fundamental para mim. É verdade, sou muito pouco disciplinado. Estou quase sempre buscando uma justificativa para parar o que quer que esteja a meio. Pode ser um café, pode ser uma música, pode ser qualquer coisa.

Mas era sobre a faxina que eu me propus a falar, e já estou completamente/ O que eu queria dizer, de fato, é que para mim o mais gratificante é ver a casa limpa.

Um beijo.

Lisboa, 16 de Agosto de 2002, 00:04h

9.02.2009

Calaf

Olá Alexander!

Ontem estive falando com a minha grande amiga Telma (Telma?! Perguntou o Tiago outro dia, como se o nome fosse talvez ainda mais fantástico que Macabéia), a Telma da Faculdade, aquela que organizava reuniões no final da tarde para estudar latim e literatura portuguesa medieval, e ela, com toda a razão, queixou-se de que eu nunca a escrevia: oi Telma, adeus Telma, e que as mensagens impessoais não lhe diziam absolutamente nada. Ela até nem sabe se eram mesmo minhas! Então é assim, eu acho que a Telma está certa. Portanto hoje, Alexander, meu amigo, é para você que escrevo, com todo o carinho.

Como tem passado, Alexander? Como está a vida aí em Seattle? Ainda trabalha para a mesma companhia de laticínios Holly Cow? I holly hope so, afinal o dinheiro era bom... E a Elisabete? E o Fritz? Dê-me notícias deles. A Elisabete continua amarga? O Fritz continua lindo? Seattle continua Seattle? Essas coisas não mudam? E o big one não vem?

Ontem não cheguei a te dizer que/ Mas espere, já há mais de um ano que eu não te escrevo, Alexander! Então tá, então a Telma está corretíssima. Mas só não tem o poder de me comover. A Telma nunca me comoveu. E outro dia ainda teve a coragem de me perguntar se eu fui apaixonado por ela. Eu? Apaixonado pela Telma? Eu disse que sim, perdidamente. Mas ela sabe a verdade, e foi a verdade que, enfim, fez com que ela/ A Telma ligou-me ontem e nem sequer tinha a idéia que aqui em Lisboa era quase uma da madrugada. Uma! Eu estava lendo o Livro do Desassossego, sobre o qual quero falar ainda aqui, hoje, tudo bem, mas achei divertido saber que o dálmata/ Não, essa história do dálmata é bastante triste, eu não vou repetí-la aqui. As pessoas têm atitudes disparatadas...

Hoje, eu devo ter dito, não vi o sol, mas a lua é quarto-minguante. Tive de me ausentar por algumas horas do trabalho, fui buscar as passagens para a minha viagem ao Brasil, e fiz questão de lembrar ao agente de que, por favor, comida vegetariana. Ele, cabelos escovados, muito gel, barba bem-feita, perfume da Hermès, camisa cinza bem passada, sorriu e disse que não havia problemas. Na estação de metrô da cidade universitária é o Sócrates que anuncia ser o cidadão do mundo, mas eu prefiro a epígrafe do Cesário.

Depois, no metrô, veio aquele deficiente mental com a sanfona triste, lá ao longe. Acho que uma das minhas grandes frustrações é mesmo não ter tido a chance de aprender a tocar violoncelo. Acho que tudo o que eu penso dizer, essa carta inteira, podia caber numa nota saída de um violoncelo.

Mas por falar em música, agora escuto Turandod, a ópera de Puccini. É tão linda a história de Calaf, tão apaixonado pela fria e misteriosíssima Turandot, cheia de desafios e perguntas e traumas... Mas Calaf dá-lhe todas as respostas de que ela precisa, três ao todo, e pronto. No entanto Turando recusa-se: não quer casar com Calaf. Nem morta! Então Calaf, já para entrar no jogo, propõe: se ela adivinhar o nome dele até a manhã, tem de casar. Se não adivinhar, morre. Acho a opção meio estúpida, mas Turandot aceitou. Ocorre que no meio dessa treta toda, tinha Ping, Pang e Pong, que entraram na história não sei bem porque, e tinha a coitadinha da Li, que era a única a saber o nome de Calaf, e, por amá-lo tão profundamente, prefere a morte a ter de revelá-lo. E, claro, morre a otária da Li, somente para que a união de Calaf e Turandot aconteça. Ela, toda espalhafatosa, anuncia para os súditos de manhã que descobrira, afinal, o nome de seu pretendente, e que o nome dele era Amor. Não é lindo? Só tenho pena da Li. Por mim, Calaf fugia com ela.

Não é que eu tenha pena das pessoas, mas o Martin Paar é de fato um grande fotógrafo. Hoje comprei a coleção que a Phaidon publicou recentemente. Também comprei o presente de aniversário da Maria Helena. Hair em DVD. Vai ter festa na casa dela, no sábado. E acho que Hair tem tudo a ver com a Maria Helena. Depois voltei ao ILTEC, e só tive, digamos, uma ligeira discussão com a Núbia lá, a secretária-directora-financeira, por causa de dinheiro. Detesto discutir esse assunto, fico vermelho de pudor. Mas, enfim, chegamos a um acordo, aparentemente. Eu procuro pensar que as pessoas são todas boas, embora a Núbia tenha dito hoje misteriosamente que as aparências enganam. O que ela quis dizer com isso? Mas também quero pensar isso como quem pensa em Deus. Se me aproximo muito, acabo por desconfiar de que talvez eu seja ateu. Não quero sê-lo. As pessoas merecem ser amadas.

Beijinhos.

Lisboa, 15 de agosto de 2002, 00:15h

9.01.2009

Tout Les Matins

Querido Alcidésio,

Eu bem pude saber que seria assim, depois de ter dormido tanto antes de ontem. Agora não tenho sono, mas idéias. Talvez tenha me levantado com o propósito de registrar o nascer-do-sol de minha varanda no dia 14 de agosto de 2002. Ao longe, enquanto escrevo sob a iluminação opaca da tela do computador portátil, só há um ou outro ruído de automóvel, mas através da janela, quero dizer, através da cortina diáfana, há muitas luzes. De que lado o sol vai nascer? É evidente que, estando num oitavo andar, com essa varanda imensa, tenho o privilégio de poder escolher o melhor ângulo... Mas não é sobre isso que eu quero falar agora. Acho que tinha me proposto a falar, ou melhor, a tentar compreender a razão pela qual acordei tão cedo, senão a mais óbvia dela, a que eu já mencionara: o fato de ter dormido demais no domingo passado. Ali eu precisava mesmo dormir bastante, mas agora acho que devia ter resistido um pouco mais.

Quando eu tinha - o quê? - uns catorze, quinze anos achava que dormir era/ achava que não podia haver algo mais idiota do que dormir. Enquanto havia tanto por ser escrito... Mas para quem? É verdade então que o Voloshinov sempre esteve certo? Se esteve, então um diário assim faz mais sentido. Entretanto, hoje penso que dormir é uma das coisas mais prazerosas possíveis. É uma pena que prazer e culpa sempre andem muito perto. E a propósito, vi ontem pela primeira vez o Quarto Decálogo do Kieslowski. O homem é de fato um gênio, ele e o seu parceiro, também um Kristof. Tiveram a idéia de fazer os dez filmes numa noite de chuva e bebedeira: alguém devia fazer um filme sobre os dez mandamentos! E fizeram o que é para mim a obra-prima do cinema. É o primeiro DVD que comprei em minha vida, embora ainda não tenha onde tocar. Isso talvez mereça uma explicação: como a minha vizinha está no Algarve, e tenho a chave do apartamento dela para atividades que tais/ Mas também uma ou outra vez verifico se os gatos têm comida. São dois gatos. Eu já falei dos gatos da Maria Helena? Já devo ter mencionado os treze gatos envenenados de minha infância, entre eles, minha filha, a gata que, depois de um ano, jogada fora pelo meu pai, reapareceu no portão de minha casa, chamando por mim. Morreram todos envenenados, e eu assisti a cada uma das mortes trágicas, no jardim. Depois saí e fui ver um filme do Godard, não me lembro qual.

Ontem passei o dia todo no ILTEC, fazendo atividades absolutamente pessoais. Se tivesse um pouco mais de energia e dedicação, teria escrito o conto que talvez vai ser, enfim, o mais difícil de compor da série. Mas tem a música, tem as atividades burocráticas que me dão ao mesmo tempo ódio, tédio e prazer. Preciso de organização, da sensação de completude, para poder sossegar. Entretanto, o fato de usar tantas horas do dia organizando documentos no computador faz-me pensar nas horas perdidas, ou nas experiências mais ricas, menos repetitivas que podia estar tendo. Agora, por exemplo. De que me serve estar escrevendo isso? Então, é a velha pergunta: então como viver?

Acho que a resposta, a mais superficial delas, está no livro de fotografias do Ed van der Elsken, um dos mais belos livros de fotografia que eu já vi. Chama-se Love On The Left Bank, e tem essa mulher belíssima, a Ann, que vagueia pelas ruas de Paris: linda, sedutora, livre, assim como eu queria/ não importa. Acendo a vela para poder ver algumas fotos novamente. A luz artificial me incomoda, e o sol nunca mais vai nascer.

Eu estou com fome, mas não muita. Já há algum tempo que não vou ao supermercado, de sorte que não tenho sequer café aqui. Preciso fazer umas economias, pois a viagem para a Madeira foi um bocado dispendiosa. Ademais, não quero entrar na reserva. Tenho os dólares no Brasil , mas parte deles vai ser usada para comprar uma boa máquina fotográfica. A fotografia é algo que tem despertado bastante o meu interesse ultimamente, por razões um tanto quanto óbvias, embora acredite jamais ter o talento suficiente e necessário para, por exemplo, fazer um livro como o do Elsken. Falta-me, é claro, técnica. Mas sempre fui muito superficial em tudo, e isso aos trinta-e-três já não tem volta. Tem o médico a recomendar tangos argentinos. Talvez um chá ia cair bem. Um chá de camomila, antes do sol nascer. Tem o conto da LFT, mas é o pôr-do-sol. Não tenho ninguém para chamar: venha ver o sol nascer!

Lembro-me de quando criança: vamos abraçar o sol. O tempo passa rápido, e, ao invés de ter a vida de Ann, tenho essa de escrever às 5:58 sobre um sol que não vai nascer nunca. Planos eu tenho. A maior parte involve atividades solitárias. Mas tenho a esperança do convívio social que abomino. Não, quero reformular: tenho a esperança da diversão pura, do riso gratuito, da conversa sem propósito. Tenho a esperança de poder voltar atrás e viver isso que nunca/ Eu não quis ser melancólico, mas é algo que não sei evitar. Ainda mais quando estou com fome...

Não há muito que me interesse comer aqui, senão esses biscoitos de aveia. Já está o copo no microondas: vai ser chá de camomila, enquanto o sol/ Hoje... Não, prefiro falar de ontem. Ontem nada aconteceu de especial, senão o diário de viagem sobre a Madeira. Se conseguir levar o projeto até o fim, acho que vai ser interessante. Mas o diário só aconteceu ao final do dia... O resto foi usado/ o resto foi tão desinteressante que não vale a pena mencionar. Passei-o no ILTEC, ouvindo música. É verdade que tentei iniciar o tal conto, com epígrafe e tudo, uma epígrafe linda por sinal. Mas achei que o início não estava nada bom; tenho de repensá-lo: é um conto importante.

O ruído dos carros começa a se tornar maior e mais frequente. É Lisboa, a todo vapor. A casa cheira a camomila e o céu... O céu... É preciso agora esperar que o sol desponte, porque sinto que isso está para acontecer a qualquer instante.

Passados já uns tantos minutos, volto. Não sei se desapontado. Já é dia claro lá fora, embora o sol não tenha dado o ar de sua importância. Cansei de esperar, mas estou comovido: o dia pode amanhecer de uma clareza solar sem que necessariamente o tal astro/ o dia/... É dia!

Beijos.

Lisboa, 14 de agosto de 2002, 6:43h

8.31.2009

Luís Gaspar

Ouvir!Ontem eu e o Francisco fomos ao INESC para falar com a Maria do Céu Viana, que só agora nos pôde atender. Como, de facto, não há nada feito para o português que tenha interesse para o nosso projecto (a não ser, talvez, a tese da Ana Isabel Mata), ela falou-nos sobretudo do tipo de anotação prosódica que estão a fazer neste momento, do ToBI, etc.

Enquanto lá estive, a coisa mais interessante que observei foi, sem dúvida, um conjunto de gravações de um locutor profissional chamado Luís Gaspar. Ele tem um registo tão grave tão grave que até faz impressão. É uma coisa verdadeiramente demoníaca. Em certos trechos, ele entra numa frequência tal que é quase como se a voz deixasse de ter harmónicos, ficando apenas um low rumbling mecânico. A Maria do Céu disse que há partes em que ele desce até aos 55 Hz, e ela já não consegue perceber se ele está a falar ou arrotar.

O seu registo fez-me lembrar sobremaneira a contribuição do Snorre E. Ruch para o último dos 3rd and the Mortal, na maravilhosa City. Fez-me lembrar também o tom psiconáutico do Thomas Haake, especialmente em faixas como a Solarization, se bem que este tenha um registo muito mais processado e artificial. Fez-me lembrar igualmente o David Foxxe, na sua contribuição para um dos álbuns do Sting, mas, agora que ouço melhor, noto que o seu timbre não é assim tão grave.

Das pessoas que falam português, aqueles que conheço, além do Luís Gaspar, que têm um registo muito grave são o Ivo Castro, o João Peres, o Miguel Oliveira e o Pinto Fernandes. O Ivo Castro tem um timbre extremamente grave, mas não é tão áspero como o do Luís Gaspar, pelo que não chega a produzir o mesmo efeito. Destes que citei, o Pinto Fernandes é provavelmente o que mais se aproxima do registo do Luís Gaspar. Das mulheres, não posso deixar de referir a Joana Isabel, que tem uma voz absolutamente assombrosa. Devo dizer que os registos muito baixos não me agradam muito nas mulheres, mas ela é um caso à parte. É a imponência encarnada.

Quando acordo, de manhã, geralmente também tenho um timbre bastante grave. De facto, gostaria de tê-lo sempre, pois agrada-me fazer prolongamentos vocálicos e hesitações nesse tipo de frequências. É pena que normalmente não dure muito.

21 de Setembro de 2002

8.30.2009

O Kerouaquiano

Hoje estive a ver os anexos da tese da Maria Lúcia Garcia Marques e encontrei uma coisa interessantíssima: um trecho sobre o que é ser kerouaquiano (na verdade, o adjectivo que lá estava escrito era kerouackiano, mas eu emendei) em Portugal, transcrito, por seu lado, de uma forma bem benvenistiana.




21 de Setembro de 2002

8.29.2009

The End

Ouvir!vou te lembrar assim
de perto
peito aberto
em vôo
ao longe
um mito
um monge
um anjo

assim como você é

sem mim

vou me esquecer
e por fim
esse
não
quem sabe
sim
melhor pra você
será
pra mim
assim

8.24.2009

Máquinas Digitais

Uma das vantagens de usar máquinas fotográficas digitais, por oposição às máquinas tradicionais, reside no facto de, com essas, ser muito mais fácil tirar fotografias inesperadas. Quando vamos no metro, por exemplo, e queremos fotografar alguém, é muito mais fácil passarmos despercebidos se usarmos uma máquina digital. Em primeiro lugar, por causa do tamanho. As máquinas digitais comuns cabem perfeitamente no bolso. Em segundo lugar, por causa do ruído. As máquinas digitais praticamente não fazem ruído. Outra das vantagens das máquinas digitais reside no facto de, com elas, ser possível regular a sensibilidade ISO de fotografia para fotografia, o que se revela muito prático por exemplo para fotografar nessa situação do metro, onde é preciso ter uma sensibilidade alta (de 800 ou 1600, pelo menos).

No entanto, aqui põe-se um problema. O tipo de máquina digital de que estou a falar é o mais convencional, correspondendo a produtos como os da linha Nikon Coolpix e Sony Mavica. Ora, este tipo de máquina normalmente não é capaz de produzir imagens de grande qualidade. Quando digo qualidade, refiro-me, entre outras coisas, à resolução final da exposição (em termos de píxeis) e à estrutura do grão. Além disso, este tipo de máquina nunca permite seleccionar uma sensibilidade muito alta, ficando-se normalmente pelo índice 400 ou 800.

Uma máquina digital de grande qualidade, como a Nikon D1x, não obstante reunir duas das principais vantagens associadas às máquinas digitais na produção deste tipo de fotografia, a ausência de ruído e possibilidade de regulação do ISO, tem um grande senão: é pesada até dizer chega. Trata-se, com efeito, de um modelo de dimensões generosas, com o qual dificilmente podemos passar despercebidos.

Posto isto, é preciso ir à procura de uma máquina que alie as vantagens normalmente associadas às máquinas digitais comuns a uma qualidade mais satisfatória. É claro que, neste âmbito, não vamos encontrar nenhuma máquina suficientemente compacta. Os modelos compactos nunca oferecem uma sensibilidade ISO superior a 800. A solução para o problema passa, assim, pela apreciação do leque de supermáquinas digitais lançadas no início do ano. Trata-se da Canon EOS-D60, da Fuji FinePix S2 Pro e da Nikon D100. Andam todas à volta dos dois mil dólares (é claro que em Portugal custam muito mais), o que até nem é muito caro, tendo em conta que são muito superiores a alguns modelos mais antigos que chegavam a custar dez vezes mais.

Passando, então, à comparação entre elas, há que dizer que, em termos de qualidade de imagem absoluta, a vencedora é a Canon EOS-D60. No entanto, tem como desvantagem ser a mais pesada do grupo, com oitocentos e cinquenta gramas. Em termos de versatilidade, quem ganha é a Nikon D100, por possibilitar ao utilizador uma sensibilidade ISO muito variável (até 6400!) e por ser a mais leve, com setecentos gramas. Quanto à Fuji FinePix S2 Pro, nem é a mais leve, nem é a mais barata, nem é que tem melhor qualidade de imagem, pelo que fica definitivamente relegada para terceiro lugar.

20 de Setembro de 2002

8.22.2009

Saturdays

Ouvir!Today I just ended
Another saturday of my life.
I don't feel worried or bruised
Or anything of that kind.

I just wanted a girl
To get laid with, you know,
Later tonight.

But I couldn't get one,
and I must say
I really didn't try.

I guess I'll save it
For another saturday, you know,
I'm still twenty three,
I guess I'll have much more to try out.

22 de Setembro de 2002

8.21.2009

Travessia da Madeira

Ouvir!Apesar de termos desistido ao fim do segundo dia, devo dizer que algumas das recordações mais fortes destas férias datam deste passeio. Na verdade, acabámos por interromper o percurso porque havia uma passagem de que eu já não me lembrava (e que era realmente muito simples). O Victor Hugo ficou muito irritado comigo, porque o caminho tinha sido terrivelmente duro até ali, e agora tínhamos de fazê-lo todo outra vez. A levada dos Balcões (o caminho interdito) é, sem dúvida, uma das experiências mais poderosas da serra da Madeira. É pena que, no seu livro, o John e a Pat Underwood se limitem a dizer que está a cair aos bocados. Pois está, mas havia certamente muito mais a dizer sobre ela.

Fizemos o caminho de volta a uma velocidade incrível, e quase sempre em silêncio, como seria natural. Foi uma situação em que vi a morte bem de perto, ali, insistentemente, sobre os abismos da Fajã da Nogueira. Pouco depois de termos iniciado o regresso, deu-se uma espécie de catarse. O Victor mudou por completo de atitude, começou a andar muito mais à vontade (agora em cima do muro de apoio da levada e não dentro dela, porque este de facto não é um percurso para fazer com medo das alturas). O ritmo era impressionante: acabámos por fazer o caminho de volta num terço do tempo que gastáramos para lá. Com isso, poderíamos perfeitamente ter rumado até à Central da Fajã da Nogueira, para depois acampar junto aos tis, conforme o plano. No entanto, o Victor Hugo confessava-se desmoralizado, estava mais numa de ir para o Funchal.

Eu também não quis insistir, porque me sentia um bocado porco (no dia seguinte, caso continuássemos o passeio, teríamos inevitavelmente de pedir um banho ao Senhor Luís; a ele ou ao fantasma, considerando que ele já não trabalha lá em cima), porque estava incomodado com aquelas duas mochilas a tiracolo (a armação não era assim tão confortável) e porque sabia que a subida da Fajã da Nogueira ao Pico Ruivo não ia ser nada fácil. Provavelmente ainda ia ser pior do que aquela que tínhamos feito de manhã, entre a Origem da Levada do Castelejo e o Chão dos Pessegueiros. Eu estava numa de chegar a casa, à noite, tomar um bom duche e depois seguir directamente para a cama. O problema é que, quando chegámos ao Ribeiro Frio, não sabíamos bem como voltar para o Funchal. A camioneta já tinha passado, e eu não conseguia falar com o meu pai. O Victor não queria ir para São Jorge, e também não estava numa de telefonar à Bárbara, a prima, porque não lhe tinha dito nada durante as férias e agora era um bocado foleiro ligar-lhe a pedir boleia. Uma hora depois, lá consegui falar com o meu pai.

Estava-se muito bem, no Ribeiro Frio, àquela hora e com perspectivas de voltar para casa. O meu pai chegou, e fomos comer uma açorda ao Poiso. A açorda estava óptima. Chegámos ao Funchal por volta das onze e meia.

Pois é, acabámos por fazer apenas meia travessia da Madeira (ou talvez nem tanto), mas ficou a promessa de fazermos todo o percurso para o ano, desde que o traçado esteja devidamente acautelado. Na verdade, o Victor até queria fazê-lo de imediato, mas eu não achei a ideia muito famosa, porque tinha outras coisas a fazer.

5 de Setembro de 2002

Está programada para amanhã, dia 22 de Agosto, uma Travessia da Madeira tal como planeada pelo Angelus. A travessia tem seu ponto de partida na Ribeira de Natal (Fajã da Nogueira) e só termina três dias depois em Lamaceiros. O evento, organizado pelo Scherzan, está descrito em detalhes neste documento. A não perder.

8.20.2009

Como Fumo

Quando os mouros conquistaram aos cristãos as terras que hoje constituem a Espanha e Portugal, nove bispos partiram de barco em direção ao ocidente numa viagem que durou bastante tempo. Ao encontrarem uma ilha que lhes pareceu habitável, aportaram e, sendo conhecedores das artes mágicas, encantaram o lugar para que não fosse descoberto enquanto os mouros não tivessem sido expulsos da Península Ibérica. Daí em diante, os mouros diziam que para o ocidente havia tanta escuridão que era impossível seguir além. Se algum marinheiro chegava perto da ilha dos nove bispos, levado pelo acaso, não conseguia mais do que entrevê-la, pois logo um vento irresistível o atirava na direção contrária, um nevoeiro se interpunha ou simplesmente a ilha se desvanecia como fumo.

Encontramos Pedro e Tia Eva na Praia das Palmeiras, onde tomamos café e discutimos o Saramago. Estava vento. Tia Eva decidiu fazer um almoço de despedida. Seria milho - uma espécie de papa quente, bastante grossa, feita à base de milho branco - e peixe espada preto para acompanhar. Paramos numa horticultura para comprar vegetais frescos e, já de caminho para casa, Angelus mostrou-me o sítio onde as pessoas costumavam ir, no Funchal, quando queriam se suicidar.

Depois do almoço que a Tia Eva preparara tão amorosamente, Angelus sugeriu que déssemos mais uma volta ao Funchal. Achei ótima a idéia, sobretudo porque queria rever a orla marítima, e tomar Brisa Maracujá na Praça do Anfiteatro. O passeio foi longo e conversamos todo o tempo sobre coisas tão triviais quanto o que eu fazia aos sábados, durante a noite, quando tinha dezoito anos. Encontramos no caminho uns amigos de infância do Angelus, e ele parecia tão feliz em poder revê-los... Os bares fechados traduziam já melancolia. Aquilo tudo ia-me fazer falta, decididamente. Afastei a garrafinha de Brisa Maracujá e perguntei, quase como quem dispensa um devaneio: «vamos?»

Desci com as malas e ficamos no terraço, esperando Pedro. Angelus foi à adega e trouxe uma das garrafas de vinho madeira de safra especial, que me ofereceu como se fosse algo que fizesse habitualmente. Eu não sabia como agradecer, e somente balbuciei algumas palavras formais. Mas era todo contentamento. No carro, a caminho do aeroporto, eram os olhos da Felippa, as mãos retas e firmes de Tia Eva, o cabelo em chamas de Sara, o sorriso da Paulinha, a presteza de Pedro, o corpo esguio de Sebastião, os cadernos de André, a simplicidade de Tio Genaro, a beleza de Tia Valentina, o transtorno de Angelus: a ilha, a ilha.

O vento soprava com bastante força, e eu temia que talvez o vôo fosse cancelado. E se fosse cancelado para sempre? Dentro do túnel, pensei que podia gritar. Não conseguia ouvir o que Pedro estava tentando dizer. Ele gesticulava como se explicando a razão de qualquer coisa. Eu queria gritar, por um motivo qualquer que já não recordo. Talvez quisesse pedir que voltassem, que tinha esquecido... os bilhetes, por exemplo. Eu olhava para Angelus, olhava para Pedro quase com aflição. Mas havia luz logo adiante, e o avião partiu na hora certa.

Fechei a cortina, e recostei-me na cadeira, de olhos fechados. A última coisa de que me recordo é a imagem da ilha se desvanecendo.

8.19.2009

Absinto

«Como assim avançados?» Angelus parecia incrédulo, ultrajado, furioso. «Acha que não vamos pagar?» O motorista de taxi nem se deu muito ao trabalho de responder, apenas repetiu o que tinha dito, como se já tivesse acostumado com o tipo de reação: «Para ir à Câmara de Lobos são dez contos avançados.» Aquela tensão ali dentro do taxi. «Raspem-se,» ordenou Angelus, gesticulando para que saíssemos do carro o mais depressa possível. Paula tinha um sorriso desenhado nos lábios, insinuando que já esperava aquilo. Felippa fez um comentário qualquer acerca da indelicadeza dos taxistas no Funchal. Paula, com as mãos nos bolsos, o ombro encolhido, o meio-sorriso ainda na cara, queria saber como íamos fazer agora. «Então, por exemplo, podíamos tomar um autocarro.»

Chegamos à Câmara de Lobos por volta de onze. Havia muito pouca gente nas ruas. Como aparentemente íamos a um lugar certo, caminhávamos com a naturalidade de quem volta para casa. Felippa falava muito timidamente acerca de Oscar Niemeyer, por quem nutria grande respeito, etc. Paulinha queria saber se ela conhecia alguma outra coisa do "Oscar" que não aquele prédio no centro do Funchal. «O Angelus, por exemplo, já esteve em Brasília. Não esteve, Angelus?» Eu não sabia muito bem como fazer para sugerir que podiam falar do Taveira, se lhes apetecessem, porque eu mesmo pouco sabia a respeito do Oscar e jamais pisara em Brasília, por exemplo. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, já estávamos sentados, pedindo quatro ponchas de absinto.

O absinto teria sido inventado nos idos de 1792 por um médico francês chamado Pierre Ordinaire. Era comercializado como um desses compostos que serviam para curar de um tudo, tendo, por conta disso, passado a ser conhecido como a fada verde (devido à sua tonalidade esverdeada). Destilados, seus ingredientes compõem-se de anis e de uma diversidade de ervas, em que se destaca o artemisian absynthum, uma substância alucinógena. Por causa disso, a bebida foi banida de toda França em 1915. A medida se estendeu a vários outros países e ainda hoje vigora na maioria deles. Sua venda na Europa está liberada apenas em Portugal e na República Checa.

Angelus assistia à televisão com um certo interesse no filme que a Felippa recomendara. Felippa comentava algumas das cenas, mas não queria soar convincente. Paula falava do Cronemberg. Felippa levava o copo aos lábios, sorria vagamente, tomava mais um pouco, os olhos escuros que não evidenciavam entusiasmo. Paula tomava a poncha de meu copo e perguntava se não íamos pedir mais. Angelus parecia não perceber o que quer que a Felippa estivesse sugerindo. Paula olhava ora para o meu copo vazio, ora para mim, ora para a Felippa; pedia mais uma poncha. Felippa passava o dedo na borda do copo, completamente absorta no esforço que Angelus fazia para perceber um possível sentido naquilo tudo. E uma mão na minha perna. Os olhos da Paula agora eram o dedo da Felippa na boca. Angelus queria desistir, queria outra poncha. Felippa sorria vagamente. Paula segurava o copo. Umas pernas sob a mesa, uma alegria esfumarada e a hora de o bar fechar as portas.

Quando saímos, Paula era evidentemente a mais cambaleante de todos. Entretanto, parecia estar absolutamente à vontade. Angelus comentava o filme, Paula dependurou-se no meu pescoço para confidenciar que detestava aquele filme, embora gostasse muito da Felippa. Felippa não parecia ter respostas para as perguntas que o Angelus sugeria.

"Não há taxis," anunciou Angelus ao fim de alguns minutos de espera ali na rua vazia. Paula ria como rira quando Angelus nos tinha feito sair do taxi naquela mesma noite. Os ônibus também já não circulavam. Paulinha, os ombros encolhidos, queria saber como íamos fazer agora. Logo adiante, um letreiro luminoso: Hotel Belle Époque.

8.18.2009

O Paul da Serra

O almoço tinha sido gaiado seco, que Pedro faz muito bem, pão de pedra e batatas cozidas à moda da Madeira. A salada sabia ao frescor da horta que víamos através da janela. Tia Eva parecia cheia de disposição para ir à Lagoa do Vento: seria a sua primeira vez, apesar de ter quase sempre vivido na ilha. Eu segurava a batata na mão com o pânico de quem come umbu-cajá sem saber exatamente como e acompanhava os comentários ora de Tia Eva ora de Pedro acerca da culinária madeirense. Sara comia uma porção mínima de salada, quase como um pintassilgo. Angelus pegava mais gaiado e parecia desinteressado no que quer que Pedro tinha a dizer acerca das tradições de cada povo da ilha no que respeita à alimentação.

Apesar da inisistência, Paula e Felippa não quiseram almoçar conosco, e ficaram nos esperando do lado de fora da casa. Partimos por volta das três da tarde; o dia estava ensolarado e bom. Íamos no jipe de Pedro: Felippa, Paula, eu e Angelus atrás; Tia Eva e Sara à frente. Paula sentou-se ao meu lado e conversava todo o tempo, muito lampeira. Felippa olhava qualquer coisa na máquina fotográfica que trouxera. Enquanto fingia ouvir o que Paula tinha a dizer, eu observava os movimentos redondos e inexperientes de Felippa com a sua máquina fotográfica.

A temperatura ficava cada vez mais fria à medida que subíamos a serra que ia dar ao Paul. Valentina, Genaro e Sebastião nos esperavam num restaurante temático, lá em cima, com cobras, elefantes e papagaios de espuma e plástico por todo o lado. O lugar estava vazio, a não ser pelos três, que tomavam refrigerante de tomate com alguma melancolia. Tia Valentina abriu um sorriso largo quando nos viu chegar, e se aproximou já cheia de queixas: por que havíamos demorado tanto? Tia Eva pediu uma garrafa de Brisa Maracujá e, depois, seguimos para o ponto de partida da caminhada que nos leva até a Lagoa do Vento.

Paula continuava falando e Felippa estava mais e mais concentrada no que quer que fosse. Angelus procurava participar da conversa, mas desistiu quando o óbvio não pôde sê-lo ainda mais: Paula estava muito pouco interessada em ouvir o que já sabia acerca do posicionamento de tudo o que Angelus tivesse a dizer sobre o que ela falava, embora eu já não recorde exatamente o quê. «Podíamos ir hoje à noite à Câmara de Lobos, Angelus, para o Miguel conhecer a poncha de absinto.» Foi tudo acertado. Paula prometia uma expiriência única, a poncha de absinto.

Quando chegamos à lagoa, já tínhamos caminhado por cerca de uma hora. Sebastião parecia indisposto e sequer tirou a roupa. Deitou-se numa pedra e lá ficou até decidirmos voltar. Paula foi a primeira a despir-se. Queria tomar banho: soltava os cabelos, tirava cada peça de roupa, ria e não parava de falar. Insistiu que Felippa também tinha de entrar com ela na água, que não ia só. Depois de alguns gritinhos e uns passos muito cautelosos, as duas nadavam no meio da lagoa gelada. Angelus entrou cheio de coragem.

Como estivesse ficando tarde, não demoramos muito. Subir de volta ao ponto de origem demorou cerca de meia hora além dos esperados sessenta minutos. Dessa vez caminhamos em silêncio. Já no carro, Paulinha voltou a falar. Angelus escolheu sentar-se ao meu lado. O frio era quase insuportável porque, ao contrário das paulas e felippas, trazíamos apenas camisas de algodão. Para além do frio, o jipe andava aos solavancos, Felippa continuava séria (mas absolutamente confortável em sua discrição) e Paula falava sobre como tinha sido bom o passeio. Pedimos que Pedro parasse um pouco o carro (ainda estávamos no planalto) porque Angelus estava evidentemente mal. «É só um enjôo rápido, é a estrada,» dizia, balançando a mão, como se fosse um nada. O céu ali no deserto do Paul era de um azul desmaiado.

8.17.2009

A Flor do Mal

Quinta-feira. Aquele seria o penúltimo dia na ilha e eu já estava começando a pensar no que ainda não tinha feito. Assim, por exemplo: não tivemos tempo de ir ao Jardim Botânico. Quando saí do quarto, quase guiado pela música do Lully, Angelus anunciou que o pequeno almoço já estava servido. Tia Eva tinha decidido fazer uma surpresa e, além de um jarro com três massarocos em flor, colhidos ao jardim da casa de Angelus, tinha disposto na mesa da varanda um cesto de pão fresco, algumas anonas e geléias variadas que ela mesma tinha feito. O bilhetinho por baixo do cesto de pão era de Pedro, e dizia que logo mais à tarde iríamos todos à Lagoa do Vento. Sugeri a Angelus que convidássemos a Paula e a Felippa.

O Jardim Botânico ficava perto de onde estávamos. Originalmente idealizado pelo britânico J.R. Theodor Vogel em 1841, mas somente levado adiante pelo alemão Frederico Welwitsch em 1852, e finalmente concluído sob a coordenação do naturalista português Barão Castello de Paiva em 1855, o Jardim Botânico da Madeira possui hoje mais de 2000 plantas exóticas, oriundas de todos os Continentes, e organizadas de modo bastante criterioso em seus 35 000 m2. Uma das preciosidades de seu acervo é mesmo a estranhíssima Amorphophallus titanum, que em português recebe o nome bastante sugestivo de flor do mal. Originária das florestas tropicais da Indonésia, essa é uma raríssima espécie que pode atingir até 5 metros de altura e 3 de comprimento. Descoberta em 1879 pelo botânico italiano Odoardo Beccari, a flor do mal é assim conhecida por emitir um intolerável odor de carne em putrefação. O odor serve para atrair insetos, que a polinizam. Curiosamente, apesar de levar até sete dias para desabrochar por completo, depois de totalmente aberta a flor vive por um período de no máximo 24 horas.

Sentamo-nos ao pé de um jacarandá e perguntei a Angelus se ele conhecia os
versos: enquanto os sapatos/ descansam/ em baixo da cama é o sol/ por sobre as cobertas/ azuis da cor de manhã/... vazia a garrafa/ de água e sede/ vazia de sede e sede/ de copo/ vazio de planta/... em cima da cama/ e das prateleiras e/ mais prateleiras e/ mesa e sofá/ repousam descansam/ os livros vazios/ de discos vazios um/... enquanto lá fora/ o pano que seca/ o sol que insiste... Não lembrava do poema por completo, e ia soltando os versos como o vento que trazia as folhas secas do jacarandá.

Por um instante pensei que talvez tivesse arruinado os últimos dias das férias. Angelus respirava tal qual uma Amorphophallus titanum desabrochando. Buscava uma maneira adequada de abordar o assunto. Eu teria o direito de ter feito o que fiz? Agora estava feito e já não valia a pena fazer conjecturas éticas. Entretanto, ele parecia pronto para discutir o inevitável. Seria aquela a primeira e muito provavelmente a última vez que Angelus mencionaria o André. Ele me encarou como se permitisse perguntar o que quer que eu intencionasse saber. A minha curiosidade irmã das cotovias...

A série de patamares que compõe o Jardim Botânico está distribuída de acordo com afinidades geográficas e/ou familiares das espécies que ali se encontram. Já na entrada estão as plantas exclusivas da Macaronésia, com um mostruário da flora endémica da Madeira, única em todo o mundo, incluindo as árvores mais representativas da sua floresta natural, a Laurisilva. Descendo um nível, o cenário muda por completo: é a vegetação do deserto, composta por xerófitas, tais como os cactos e as bromélias. Logo abaixo, a vegetação das florestas tropicais e semi-tropicais. Era onde estava o nosso jacarandá, que só vai voltar a florir em Março. Um pouco mais adiante, a estufa com a famosa flor do mal. Embora a espécie ainda estivesse em fase embrionária, havia uma fila imensa para observá-la. A promessa da administração do Jardim Botânico era de que a flor podia começar a abrir a qualquer instante.

8.16.2009

Paula

A discussão começou antes mesmo de terminarmos o jantar. Cortando com uma precisão quase calculada a pizza de alicci, Angelus argumentava a favor do silêncio como uma forma de evitar os que ele chamava “passos em falso.” Não entendia nada daquilo. O meu posicionamento é obviamente muito mais latino. Mas o debate correu de uma maneira absolutamente européia. Ou seja, não chegamos a lugar nenhum.

Subíamos e descíamos as ruas do Funchal, desviando-nos de um ou outro carro, ainda seguindo: quais os limites da mediocridade e o que significava exatamente ultrapassá-los? A cerveja estava relativamente boa no Jota naquele dia, embora a música continuasse fraca. Era tempo de irmos ao Latino, um bar de estudantes, todos apinhados no balcão, sacudindo uns dedos, gritando uma imperial se faz favor. Com a imperial ganhamos uma peça de quebra-cabeças e, porque acertamos onde iam as nossas peças, recebemos cada um uma prenda das raparigas cheias de batom e sorriso e lantejoulas na cara. O que havíamos de fazer com um relógio e uma bolsa? O relógio dizia que estava quase na hora do show da Felippa. Então nos dirigimos ao Monge.

Havia muito pouca gente interessada na música, mas eram educados o suficiente para não conversarem. Felippa, sentada num banquinho de madeira, uma mão sobre o colo, a outra segurando languidamente o microfone, os olhos fechados, uma roupa muito sóbria, os cabelos soltos, quase despenteados, cobrindo-lhe às vezes o rosto, cantava num inglês muitíssimo bom. Angelus não parecia impressionado: foi buscar uma vodka ao balcão. Voltou com o seu copo já pela metade. Entregou-me o meu ainda buscando qualquer coisa. Eu procurava disfarçar o incômodo que a voz de Felippa e aquela música me causavam.

Quando terminou, saiu do banco com uma naturalidade de quem ainda continua a cantar, e foi trocar umas palavras com o rapaz do violão, absolutamente alheia às poucas palmas de polidez. Terá sido a minha insistência que fez com que ela, afinal, virasse o rosto em minha direção, sorrisse, acenasse a mão, voltasse a conversar com o rapaz de longos cabelos desalinhados e me deixasse vermelho de constrangimento? «Acho que a Felippa gostou de te ver,» murmurou o Angelus, ainda procurando a Paula. Em pouco tempo, eu já estava com um segundo copo de vodka na mão.

Não sabia muito bem se devia tecer algum comentário, dizer que tinha gostado, etc. Não queria soar polido como as palmas. Eu tinha gostado bastante, de fato, mas temia não parecer verdadeiro, ou antes: não desejava colocá-la numa situação pouco cômoda. O que quer que fosse, decidi apenas falar sobre o tempo. Ela respondia, fazia perguntas, ria e evidenciava naturalidade. Estudava, sim, canto lírico. Mas não julgava que fosse seguir carreira: o seu registro de voz era bastante limitado. Então cantava porque o Fausto precisava de alguém, tinha umas composições, tinha o espaço no Monge... Morava em Lisboa, sim, morava. Mas era da Madeira. Voltava sempre nas férias de verão. «É a Paula!»

Sempre imaginei como seria a Paula pessoalmente, mas nada do que eu tivesse imaginado correspondia àquela aparição. A Paula é quase uma aparição, quase irradia, mas de uma maneira diferente. Não chegava a chamar atenção. Na verdade, pouco chamava atenção sobre si. Entretanto, quem desse pelo fato, ficava com a mesma alegria de quem vê uma estrela cadente. A Paula é uma estrela cadente. Após as devidas apresentações, ela quis saber o que estávamos bebendo, e Angelus imediatamente se ofereceu para ir buscar uma vodka. Ela agradeu, muito simpática, rindo, olhando para uma mesa adjacente. Podia ter ido cumprimentar o amigo da mesa ao lado, mas quis saber o que eu estava achando da Madeira.

Conversamos ainda por cerca de uma hora sobre assustos variados, mas muito triviais. Angelus pouco participava; parecia inquieto. Ao fim de algum tempo, Paula levantou da cadeira e quis saber se queríamos acompanhá-la. Ia dançar, estava a fim de dançar. Sim, claro, boa idéia – juntávamos os copos, um pouco sem saber exatamente o que fazer com o resto de vodka – mas para onde? «Olha, por exemplo o Copacabana.» O Copacabana, ótimo.

Chegamos ao Copacabana por volta das três da madrugada, mas as pessoas estavam frescas e animadas como se ainda fosse meia-noite. Eu não sabia ao certo por onde começar, e portanto fui com o Angelus buscar mais uma vodka. Quando voltamos, Felippa e Paula dançavam como que sozinhas em casa. Tentamos, um tanto quanto desastradamente, acompanhá-las. Ao fim de algum tempo, estávamos dançando tão sem pudor como dançara Sebastião naquele sábado em São Jorge.

O Copacabana, infelizmente, fecha às quatro da madrugada, de sorte que tivemos de abandonar a pista justamente quando achávamos que enfim tínhamos encontrado o passo certo. Então a saideira. Paramos num bar que ficava perto do cais, bastante simpático, e pedimos uma sangria para cada. Já não tínhamos muito o que dizer um para o outro. E assim estava ótimo.

Já em casa, Angelus fechou a porta com um ar muito sério. Olhou para mim um tanto trágico, e não pôde aguentar por muito tempo a vontade de rir. Olhava para mim, ria, e eu também ria muito, ainda sem que soubesse exatamente porquê. Somente depois do abraço é que eu percebi tudo.

8.15.2009

O Miradouro do Radar

Localizada no extremo este da ilha da Madeira, está a Ponta de São Lourenço, península com cerca de 9 km de comprimento e 2 km de largura, que, devido a sua fauna, flora e herança geológica peculiares, foi, em 1982, declarada Reserva Natural Nacional. O conjunto daquela parte da ilha é completamente diverso do que eu já tinha, até então, presenciado. A começar pelas cores: a terra quase rubra, mas escura: marrom. E uma vegetação rasteira, constituída quase que exclusivamente por matorral xerofítico do litoral, mas muito degradado. A impressão que se tem ao final de algum tempo de caminhada é a de que o lugar foi completamente devastado por um incêndio. Sara ia à nossa frente, muitíssimo desinteressada em o que quer que estivéssemos falando.

Nos idos da colonização da Madeira, o excesso de arvoredo que havia na região trouxe problemas para a agricultura. A única maneira que encontraram para resolver a questão foi deitar fogo ao mato, que ardeu num braseiro incontrolável: conseguiram-se clareiras, mas durante sete anos houve focos de incêndio na ilha que ninguém conseguia dominar. Quando soprava o vento do norte, as gentes do Funchal tinham de fugir para os barcos e fazer-se ao largo, de tal maneira era o calor insuportável.

Na saída da reserva natural, encontramo-nos todos: Pedro, Tia Eva, Sara, Tio Genaro, Tia Valentina, Sebastião, Angelus e eu: queríamos ainda parar um instante na Prainha da Ponta de São Lourenço, a única praia da Madeira feita de areia (ainda que escura). O dia não estava muito propício para banhos, e como estivéssemos todos com fome, só mesmo restou a lembrança daquela paisagem árida, pintada de amarelos, castanhos e laranjas, bastante longe dos verdes que a ilha habitualmente oferece. Eu estava particularmente excitado ante a perspectiva de experimentar as tais famosas castanhetas, tão prometidas por Angelus. As melhores estão na vila do Caniçal, ali mesmo perto.

Reservamos uma mesa comprida o suficiente para nós os oito, mas Sara desaparecera. Primeiro vieram os caracóis marinhos, que sabem a nada que não ao mar mesmo. Quando os alfinetes já estavam perdidos pelos quatro cantos, chegaram as lapas, deliciosamente bem preparadas, e o pão caseiro. A cerveja era farta. Tio Genaro ria o tempo todo, e a alegria era também evidente no rosto de Tia Valentina. Os dois encarnavam o deleite. A seguir, as castanhetas.

A castanheta, cientificamente conhecida por Chromis luridius, é um pequeno peixe de apenas 15 cm de comprimento no máximo, que habita substratos marinhos rochosos, tais como as zonas de calhaus. Dadas as pequenas dimensões e a sua especial susceptibilidade, tem-se feito um grande esforço para evitar a sua pesca. Entretanto, é ainda possível comer um bom prato de castanhetas fritas na vila do Caniçal. Eu nunca provei em toda a minha vida peixe mais saboroso, embora tenha de admitir que o conhecimento da possibilidade de extinção dessa espécie talvez é o que lhe confere, enfim, o sabor especial. Come-se com a mão, como tantos outros pratos da ilha.

Mais cerveja. Sebastião propositadamente derruba o copo de Tio Genaro, e a preocupação momentânea substitui a alegria: a roupa molhada, um copo partido, os guardanapos de papel por todo o lado, a satisfação de Sebastião. O próximo e último prato seria de pargos.

Sara nos esperava no carro. Parecia cansada. Sem planos de explicar o que quer que tinha feito enquanto comíamos, massageava ritmicamente as pernas. Todos iríamos agora no carro de Pedro, primeiro para a Baía de Abra, depois para o Miradouro do Radar. Angelus segurava a máquina e fazia fotos ininterruptamente. Tia Eva e Tia Valentina pareciam muito pouco à vontade.

Não estávamos suficientemente interessados na Baía de Abra com os seus banhistas sonolentos para que lá ficássemos mais do que alguns poucos minutos. Partimos em direção ao Miradouro do Radar, onde, segundo Pedro, poderíamos ter uma das mais belas visões da Ponta de São Lourenço. A estrada era bastante irregular, de sorte que os que estávamos atrás do jipe tínhamos de nos segurar bastante bem para que não fossemos arremessados para fora.

O lugar, tal como Pedro prometera, era impressionante. Descemos todos e cada um foi para seu lado no miradouro, como se buscássemos qualquer coisa: o ângulo mais privilegiado, uma surpresa, a razão de termos feito todo aquele caminho no desconforto. De repente, por um motivo que já agora não recordo (se é que ali mesmo tenha sabido), todos começamos a rir. Tio Genaro abriu os braços: o vento era selvagem. Angelus registrava tudo, mas depois pareceu se perguntar: o que de fato registrara?

8.14.2009

Nume

Ouvir!Nume: ser ou potência divina, divindade, deidade, espírito sobrenatural que protege e ilumina os homens, inspiração poética, sentimento íntimo, afeiçoamento. Em latim, a palavra quis significar ao mesmo tempo movimento de cabeça, assentimento e poder divino.

A vida, a minha vida é um desentendimento fluido: uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver. Nenhuma simpatia violenta desperto. Ninguém será nunca comovidamente meu amigo. Não posso ser nada e tudo: sou a ponte de passagem. Por que escrevo então? Por saber que aqui resulto fútil, falhado e incerto.

como quem nada nihil rien de quelque
chose


Geralmente...

sub sole buscasse senão
prazer


procuro estudar a impressão que causo nos outros, tirando conclusões.

no rosto de quem

quase um chamado
pode ouvir?


Em geral, sou uma criatura com quem os outros simpatizam, com quem simpatizam, mesmo, com um vago e curioso respeito.

um chama
do banho que se quer
para sempre


Mas nenhuma simpatia violenta desperto. Ninguém será nunca comovidamente meu amigo. Por isso tantos me podem respeitar.

à noite é que vou me acordar

Perco-me, por isso, às vezes, numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me vêem, como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia.

ao som das chaves e a porta
e os passos e a alegria de
acordar de sobressalto


Sou altamente sociável de um modo altamente negativo. Sou a inofensividade encarnada. Mas não sou mais do que isso, não posso ser mais do que isso. Tenho para com tudo que existe uma ternura visual, um carinho da inteligência – nada no coração. Não tenho fé em nada, esperança em nada, caridade para nada. Abomino com náusea e pasmo os sinceros de todas as sinceridades e os místicos de todos os misticismos. A fadiga de ser amado!

enquanto branco rompe
desce ao longe um temporal

e antes é a imagem que
o fogo que expulsa e devora


Tudo é complexo, ou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não importa porque, de qualquer modo, nada importa... Se sonho, parece que me escrevem. Se sinto, parece que me pintam. Se quero, parece que me põem num veículo, como a mercadoria que se envia, e que sigo com um movimento que julgo próprio para onde não quis que fosse senão depois de lá estar.

um vulcão a boca a larva
um olhar sobressaltado


ao som da água que pinga... mente, o quanto é mais do que oco o lugar... não pertenço, desejo, sou nada... caído sentiente virado para... lágrimas rítmicas... farto de tudo, e do tudo de tudo... secas que continuam vivas nos meus sonhos... maria, maria, maria, maria...

e antes é a mão: grande
treme cinge circunde

e antes a imagem: noite
branca janela inerte

mas a força em tudo que
o olhar que penetra e foge


Hoje é o que penso: o há-de-ser-feito, o movimento, o mundo? Na loja de discos e a banda e o grupo e a cátia e o não saber dizer resposta inteligente, nada disso sou tudo isso e muito: o nume. Não vêm? Um dia vai ler então é melhor: o silêncio. Cada um de meus discos, as revistas empilhadas e mais páginas... Seria feliz se pudesse dormir. A noite é um peso por detrás do afogar-me com o cobertor mudo do que sonho. Tenho uma indigestão na alma.

e a mão que irrompe e
fecha afasta fria grande

enquanto o grito branco
na noite a casa: vazio


O mundo, hoje? O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir - não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas do Sul de tudo, mas para o lugar qualquer - aldeia ou ermo - que tenha em si o não ser este lugar. Quero não mais ver estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira-mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar. Se apenas amamos, podemos?

Sempre, depois de depois, virá o dia, mas será tarde, como sempre.